Sabe a pessoa que em qualquer mudança no clima fica doente? Pois bem, tomada as devidas proporções, a economia brasileira se comporta de maneira semelhante. Explico melhor. Ao construir cenários macroeconômicos, selecionamos uma série de variáveis as quais demonstrarão, com maior ou menor precisão, qual será o caminho a ser trilhado pela economia no horizonte escolhido. Se escolhermos, por exemplo, projetar o crescimento da economia, portanto, como Produto Interno Bruto se comportará em determinado período, é possível projetar como as variáveis da demanda agregada auxiliarão ou não para alcançar este crescimento.
Utilizando esta hipótese, podemos considerar o Consumo das Famílias, os Investimentos, os Gastos do Governo e o Resultado do Setor Externo. Por onde viria o crescimento da economia brasileira em 2017? Pelo incremento, mesmo que modesto, do Consumo das Famílias e pelo resultado líquido das Exportações menos Importações. Também é previsível, caso a confiança dos agentes econômicos seja resgatada, que aja, mesmo que pequeno, um incremento nos Investimentos.
Isso tudo em um ambiente benigno do ponto de vista do controle inflacionário. Por este aspecto o Consumo das Famílias, mesmo com endividamento elevado, poderia auxiliar no crescimento a medida que as taxas de juros, com menor inflação, poderiam ser rebaixadas em maior velocidade. Isso combinado com maior conquista do setor externo e a gradativa recuperação dos investimentos permitiria projetar crescimento, no ano fechado, entre 0,5% e 1,0% em 2017 se comparado a 2016.
O que mudou? O que poderia levar este frágil paciente chamado Brasil a ficar doente por um período maior? O chamado efeito Trump. Ele sequer assumiu o posto de Presidente dos Estados Unidos e a cotação do dólar, por exemplo, um dos fatores que tem auxiliado na desinflação brasileira, já disparou. Se a economia americana se voltar para o mercado interno, como é sinalizado por Trump, a inflação será revigorada naquele País e os juros americanos inevitavelmente subirão, com prática de política monetária restritiva. Em condições normais, com uma economia forte, que pratique crescimento sustentado, o efeito deste movimento seria muito menos sentido internamente. Mas nossa fragilidade, como colocado, faz com que o País opere a mercê do humor do “mercado” e, a cada precificação do risco Trump haja abalos internos, com forte volatilidade tanto no mercado acionário brasileiro como no mercado do dólar.
Os agentes econômicos se sentem inseguros e, mesmo com aprovação das reformas internas, principalmente a PEC que limitará os Gastos Públicos, a leitura é que a queda da inflação será mais lenta, que os juros cairão em menor velocidade, portanto, a recuperação da economia será mais demorada do que o previsto.
Observem que as previsões iniciais, mais otimistas, podem ser colocadas em xeque em função da “novidade” Trump. Por isso, é fundamental um plano de longo prazo, em que definitivamente o Brasil elimine seus gargalos em infraestrutura, que implemente reformas tributária, trabalhista, judiciária, administrativa e política.
Sem isso, qualquer vento forte fará com que o paciente chamado Brasil adoeça e isso é ruim para todos nós. O diagnóstico todos sabem, é preciso ter vontade política para implementar o que for necessário. Enquanto formos frágeis, o comportamento pontual, de curto prazo, dará o tom na economia, e as incertezas serão potencializadas, transformando-se em insegurança e com ela a deterioração dos indicadores econômicos e sociais. Este ciclo um dia precisará ser interrompido e isso passa necessariamente por um tratamento que nos deixe definitivamente saudáveis.
O autor é economista e articulista do JC