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Moradora de Bauru dá lição de vitalidade aos 95 anos

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Samantha Ciuffa
Francisca Maria de Jesus ensina de graça a técnica da renda turca: “Dinheiro não é tudo na vida. Eu nem saberia cobrar para ensinar, me sinto feliz só de repassar o que sei ao próximo”

É com um ferrinho da armação de uma sombrinha que Francisca Maria de Jesus improvisa uma agulha para tecer uma toalha de mesa. A mesma simplicidade e conhecimento ela aplica no seu modo de viver. Aos 95 anos, a dona Fran - como gosta de ser chamada -, repassa cidade afora, como professora voluntária, a técnica antiga e rara da renda turca, que aprendeu há mais de seis décadas. Pioneira na arte em Bauru, ela é conhecida por aqui como “guardiã” das rendas turcas.

Não sem motivo. Dos sete dias da semana, ao menos quatro ela dedica às aulas, que ocorrem às segundas-feiras na Paróquia São Sebastião; às terças-feiras em um quiosque do Residencial Camélias; às quartas-feiras no salão São Vicente, em Agudos; e às quintas na Associação de Diabéticos, em Bauru. São 33 alunos ao todo.

“Dinheiro não é tudo na vida. Eu nem saberia cobrar para ensinar, me sinto feliz só de repassar o que sei ao próximo. Deus me deu esse dom ainda jovem e, hoje, eu vivo da minha pensão e da venda das minhas rendas”, pontua a idosa.

TRAJETÓRIA

Os entrelaçados de linhas deram formas não só aos objetivos, mas aos sonhos de dona Francisca ao longo da vida. Natural da Bahia, ela conta que conheceu Bauru logo depois que cessaram os trabalhos nas fazendas de café em Piratininga, município onde conheceu seu marido e viveu parte da vida. Casou-se duas vezes e teve dois filhos, um deles já falecido.

Contudo, foi em uma passagem rápida por Penápolis que ela conta ter aprendido a técnica rara da renda turca, que não é considerada crochê e nem tricô e cuja confecção se assemelha a redes de pescadores.

“Daqui saem toalhas, vestidos, blusas, saias, tudo!”, ressalta a rendeira. “Criei e estudei meus filhos com ajuda da renda turca. E é com esse dinheiro que hoje realizo minhas viagens. O meu sonho, que era andar de avião, eu realizei há alguns anos por causa dela”, acrescenta. Há aproximadamente 8 anos, até no Jô Soares ela foi parar.

O quadro, que tinha duração de 15 minutos, acabou se transformando em meia hora com a simpatia de Francisca. “Foi muito legal e divertido”, lembra a rendeira.

Agora, ela traça o próximo sonho, aliás aventura: saltar de paraquedas aos 95! Assim, engana-se quem pensa que a vida da “guardiã” da renda turca em Bauru é somente tecer. Francisca divide seu tempo ainda com a culinária.

Baiana e cozinheira de mão cheia, adora uma rabada, feijoada, buchada, mocotó, canudos para doces. “Minha mãe não se importava muito com a leitura, dizia que eu deveria ser boa dona de casa. Me ensinou a lavar, passar, cozinhar e costurar”, observa a rendeira.

PIONEIRISMO

Por Bauru há quatro décadas, Francisca afirma com certeza que foi a primeira professora de renda turca na cidade. Aqui, foi professora de Solange Oliveira, 59 anos, artesã bauruense que integra um livro italiano com o trabalho de rendeiras de 15 países. Solange foi a única brasileira a ser mencionada na obra, que aborda de forma inédita e didática a renda turca.

Se ela pensa em parar algum dia? Não! Aos 95 anos, Francisca comemora a agenda cheia e ainda diz arrumar espaço para as pessoas que ligam ou vão à sua casa, frequentemente, em busca de aprender a técnica.

“Eu só vou parar quando Deus quiser. Sempre ligam aqui perguntando: ‘dona Francisca, me ensina a fazer renda’? E eu digo que sim. Me sinto bem, me sinto útil. Ensinar me faz sentir mais jovem”, finaliza.

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