Na época em que lecionava Matemática, meus alunos diziam: professor, não gosto de matemática. Pois sim, meu filho, isso importa pouco, porque gostando ou não você terá de estudar esta disciplina. Logo, entenda que na vida não fazemos tudo aquilo que queremos ou gostamos, vez ou outra, ou vez em sempre, estaremos imersos num universo em que não apreciamos as pessoas que nos rodeiam ou não gostamos daquilo que fazemos. Paciência, é a vida.
Penso, porém, que isso nos livra das frustrações, ao contrário de trazê-las ao nosso convívio. Exatamente quando entendo que muitas coisas não estão sob minha gestão posso ter uma melhor qualidade de vida. Experimente dizer ao sol: não apareça hoje. Pois é, você percebeu, ele não te obedeceu. Claro que não me refiro aqui na subserviência de aceitar tudo e todos desrespeitando constantemente nossas vontades e desejos.
Definitivamente, não se trata disso, mas apenas de entender que na vida não faremos tudo aquilo que gostamos. Perceber isso é ver a beleza do Não, pois ele também agrega valor ao nosso processo evolutivo. Quando lido apenas com o Sim, quando não tenho limites, minha chance de ao primeiro Não pirar é imensa. Somos seres que vivem em sociedade, pois não há como crescer sozinho, e ao conviver com o diferente constatarei que ele não gosta das mesmas coisas que eu, e se temos um convívio próximo é natural que em muitos momentos, em prol da harmonia, um e outro terá de ceder. O segredo está no equilíbrio. Se abdico de minhas vontades sempre, sou subserviente porque faço aquilo que não quero contrariando meu íntimo, então posso, realmente, adoecer.
Mas se não abdico jamais de minha zona de conforto que está em fazer aquilo que gosto e quero, corro o sério risco de, ao ser contrariado pelo Não que a vida me imporá em algum momento, desistir de tudo. O Sim é a zona de conforto, é ali que está o meu prazer. Em tempos virtuais eu encontro muitos ‘gurus’ a dizer que não posso me violentar, que tenho de buscar minha felicidade e fazer aquilo que me faz feliz. Claro, todos vivem para essa busca da felicidade mas, definitivamente, ela não estará apenas na satisfação de nossas vontades.
A felicidade está, também, em temperar a vida com um molho saboroso chamado Não, este molho mostrará que não sou o centro do universo, que o outro também tem vontades e desejos e que vez ou outra seremos convidados a ceder. Recordo-me de amiga que apontava a razão pelo fracasso de seu casamento: aconteceu que na época do namoro ele concordava com tudo, dizia sim pra tudo... Pois é, ele fisgou o peixe, depois de fisgado abriu a temporada do Não, de colocar a sua vontade na balança, pesar e decidir. Aí azedou, ela não estava acostumada com o Não...
Eis a razão pela qual eu dizia aos alunos: Filho, na vida você não fará só aquilo que gosta. Entenda isso e seja feliz. Lembre-se: aproveite o não com moderação.
O autor é colaborador de Opinião