| Aceituno Jr. |
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| Selma no Prêmio Luiza Mahin, outorgado pelo Conselho Municipal da Comunidade Negra, que homenageou 17 pessoas na última quinta-feira, no Teatro Municipal |
Atual presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru, Selma de Fátima Cosmo Celestino é o destaque da Entrevista da Semana de hoje, Dia Nacional da Consciência Negra. Nascida em uma família humilde e que sempre valorizou a cultura negra, ela revela seus planos e projetos junto ao Conselho na luta contra o racismo e pelos direitos do negro.
“Eu sofri muito preconceito na escola, cheguei a abandonar os estudos por ser a única negra na sala de aula. Eu era muito boicotada. Desisti de estudar e me arrependo muito. Se fosse hoje, as coisas seriam diferentes. Hoje a luta é maior. Vamos atrás de nossos direitos. Brigamos mesmo”, grifa.
Entre as suas histórias pessoais e curiosas, está o time de futebol fundado por ela em 2005, o Bauru Esporte Clube - Futebol Feminino. O time foi vitorioso e rendeu muitas lembranças, porém, a falta de patrocínio e incentivo e o preconceito sofrido fizeram Selma desistir do projeto que durou oito anos.
E como todos têm sonhos, a entrevistada também tem os seus, mas eles são voltados para o próximo. “Eu gostaria muito de colocar em prática um projeto chamado ‘Mães da Fé’, para ajudar mulheres com filhos dependentes químicos. Outro sonho é montar uma creche”, revela. Leia mais, a seguir.
Jornal da Cidade - Quando você se viu engajada na luta do movimento negro?
Selma de Fátima Cosmo Celestino - Em 2005, entrei para o Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru, em sua formação. Mas eu nem pensava em ser presidente do Conselho, porém, fui encorajada por colegas. E estou encarando os desafios, que são muitos. Em janeiro vamos começar com tudo. Nosso maior objetivo é lutar contra o racismo, levar a compreensão até as pessoas. Sabemos que ele (o racismo) não vai acabar de uma hora para outra, lembro-me dele desde os meus tempos de criança. Eu sofri muito preconceito na escola, cheguei a abandonar os estudos por ser a única negra na sala de aula. Eu era muito boicotada. Desisti de estudar e me arrependo muito. Se fosse hoje, as coisas seriam diferentes.
JC - O que você acredita que seria diferente?
Selma - Hoje a luta é maior. Vamos atrás de nossos direitos. Brigamos mesmo. Os movimentos contra o racismo estão mais intensos, ativos. A sociedade se abriu mais, porém, o preconceito ainda existe. Só que existe de uma maneira velada, já que as pessoas temem as leis. O negro ainda fica muito atrás, nunca na frente. Principalmente as mulheres, que somente são contratadas para serviços braçais, de limpeza... E não por falta de estudos, mas sim de oportunidade.
JC - Você acredita que movimentos como o ‘Orgulho Crespo’, realizado recentemente em Bauru, sejam fundamentais para a luta?
Selma - São muito importantes, sim. Precisamos mostrar o nosso valor, a nossa beleza. Os integrantes da comunidade sempre estão na ativa, chamando a atenção da sociedade. Logo faremos o nosso concurso de beleza: “Pérola Negra e o Gato Negro”. Também faremos um para o pessoal da terceira idade. Bauru vive as atividades da Semana da Consciência Negra, que se estendem por praticamente todo o mês de novembro e são realizadas em parceria pela Secretaria Municipal de Cultura e o Conselho. Na última quinta-feira foi entregue o Prêmio Luiza Mahin para 17 pessoas que prestam ou realizam atividades relevantes para a sociedade nas mais diversas áreas com relação ao movimento negro.
JC - Quais são os elementos responsáveis pela disseminação do racismo, em sua opinião?
Selma - Eu acho que o racismo é algo que vem do berço. Se os pais têm preconceitos, a criança cresce com eles. Normalmente é assim que funciona. A educação que a criança recebe em casa pode contribuir, e muito, com esse cenário. Por exemplo, quando um pequeno xinga um coleguinha e os pais não o corrigem, não mostram para ele o que é o certo e o que é o errado, ele cresce humilhando o próximo como se isso fosse natural.
JC - Aos 51 anos, quais são as lembranças que você tem da sua infância?
Selma - Nasci em Bauru com cinco irmãos, no Jardim Bela Vista. Hoje moro no Núcleo Gasparini, mas já morei no Beija-Flor, Pousada da Esperança, Mary Dota... Minhas lembranças da infância são marcantes. Uma delas diz respeito à história da Mara Lúcia, a menina estuprada e morta há mais de 40 anos. Lembro-me que eu buscava água na mina, era bem pequena, e passei a ter medo de buscar água depois do que aconteceu com a menina. Fiquei amedrontada por muito tempo. Mas eu era alegre, gostava de desfilar em escolas de samba, um primo tinha a Camisa 10, depois saí na Imperatriz, do Bela Vista. Ah, eu também tive um time de futebol feminino.
JC - E quando foi isso?
Selma - Tudo começou em 2005 e durou oito anos. O nome era Bauru Esporte Clube - Futebol Feminino. Foi uma época muito gostosa. Jogávamos dentro e fora de Bauru. E ganhávamos todas. Mas não tínhamos ajuda de ninguém e o futebol feminino era muito criticado. A prefeitura não nos apoiava. Pedíamos ajuda para muita gente. Era muita humilhação. Nas cidades vizinhas, as prefeituras ajudavam e a gente passava vergonha quando as meninas vinham até Bauru. As pessoas nos diziam que lugar de mulher era na cozinha, aí eu já ficava nervosa e queria brigar. Também ficava nervosa demais com os juízes (risos).
JC - Foram muitas as histórias em campo?
Selma - Nossa, demais. Algumas engraçadas e outras nem tanto. Certa vez, outro time da nossa cidade perdeu para o nosso e um cara voltou depois do jogo com um revólver para nos matar. Ele chegou a colocar a arma na cabeça de uma das meninas. Eu me ajoelhei e comecei a orar. Depois, a história até virou piada, mas foi um sufoco na hora. Meu Deus. Chegamos a ganhar o Campeonato Paulista de Futebol Feminino por Piratininga. Bons tempos.
JC - Você tem sangue de uma família bastante festeira e tradicional em Tibiriçá, a família Baté.
Selma - Sim. Baté era meu tio, irmão do meu pai. Esse orgulho e luta pela valorização da cultura negra vêm de família. Minha bisavó foi escrava e meu avô contava as histórias dela para a família. Era para termos feito um livro com essas histórias, mas fomos deixando e os mais velhos morreram e levaram as histórias com eles.
JC - Além do seu trabalho no Conselho Municipal da Comunidade Negra, quais são suas demais atividades?
Selma - Eu sou diarista e captadora de clientes para advogados. Conheço muita gente, principalmente porque já fui presidente de uma associação de moradores na região do Mary Dota. Então, as pessoas que precisam de advogados para resolver os problemas do dia a dia me procuram para isso.
JC - Sobre família.
Selma - Sou casada com Salvador há 34 anos. Tivemos quatro filhos, mas perdemos dois. Um ainda no meu ventre e outro com um ano de idade. São lembranças muito tristes. Não desejo essa dor para ninguém. Hoje, além de um casal de filhos, temos quatro netos.
JC - Um sonho.
Selma - Eu gostaria muito de colocar em prática, junto do Conselho, um projeto chamado ‘Mães da Fé’, para ajudar mulheres com filhos dependentes químicos. A ideia é que as mães se ajudem mutuamente. Também gostaria de escrever um livro com as histórias delas. O projeto ofereceria cursos para essas mães, além de outros tipos de serviços, como terapia. Outro sonho é montar uma creche. Eu já cuidei de crianças e até tenho um estatuto para isso, mas falta todo o resto.
Perfil
Selma de Fátima Cosmo Celestino
Tem 51 anos e é do signo de Áries
Nasceu em Bauru e é casada com Salvador Pedro Celestino
Tem um casal de filhos: Kelly e Claudinei
Hobby: passear
Cinema: Gosta de filmes de terror e com o tema gospel
Estilo musical predileto: Gospel
Livro de cabeceira: Bíblia
Nota 10: Para as entidades assistenciais que lutam para sobreviver
Nota 0: Para a saúde no Brasil
