Tribuna do Leitor

REFLEXÃO E FÉ

Pe. Guido Mottinelli - Doutor em Teologia bíblica pela Faculdade Urbaniana
| Tempo de leitura: 3 min

Após uma atenta leitura do artigo publicado no Jornal da Cidade, quinta-feira, dia 17 de novembro, na página 19, com o título "Cristianismo não é comunismo", tomo a liberdade de esclarecer alguns itens doutrinais, que podem ajudar o leitor a ter uma melhor compreensão do que afirma o Credo católico e da estrutura da Igreja. O autor do artigo afirma que "em nosso entendimento evangélico histórico, a Escritura Sagrada é a única fonte de fé e suficiente suprema revelação de Deus à humanidade, acima até mesmo do magistério da Igreja que em nossa iluminação deve ser regida sob a revelação definitiva e autoritativa de Deus!"

Chamo a atenção sobre o peso moral que esta afirmação comporta, na medida em que a Igreja, em seu caminho histórico, em particular o Concilio de Trento (1545-1563), definiu a importância da Tradição Escrita e Oral, da Sagrada Bíblia e do Magistério. Os apóstolos pregaram o Evangelho por mais de 30 anos, não tendo nas mãos nenhum documento assinado por Jesus. Somente a partir dos anos 50 apareceram as primeiras Cartas e, em seguida, os primeiros Evangelhos.

O Magistério da Igreja, após atentos exames, classificou sejam as Cartas como também os Evangelhos como divinamente inspirados e os colocou na Bíblia, formando assim os 27 livros do Novo Testamento. Acreditamos plenamente na inspiração e atuação do Espírito Santo, que acompanhou os primeiros Apóstolos no mundo. A Igreja enfrentou os ventos contrários das perseguições, numa maneira direta por mais de 300 anos; os mártires preferiram doar a vida ao em vez de negar o seu Credo. O efeito da tradição oral, vivido com o exemplo da vida, fez com que se concretizasse a expressão de Tertuliano: "O sangue dos mártires se tornaria semente de novas vidas cristãs".

Não podemos esquecer também que foi exatamente no decorrer do Concílio de Trento que a Igreja aprovou como divinamente inspirados os textos bíblicos Dêutero-Canônicos, que, infelizmente, os Protestantes acabaram eliminando da Bíblia (livros de Tobias, Judith, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria e os dois livros dos Macabeus). Como justificar este gesto de "tirar" arbitrariamente livros da Bíblia, diante da afirmação de Pedro (2Pd1,20) quando diz que nenhuma profecia bíblica é sujeita a interpretação pessoal?

Será que a mensagem de Jesus, mesmo sabendo que foi exata, tornou-se incompleta ou "aguardou" o nascimento de religiões que usam o nome dele, mas que Ele na verdade não fundou, para ser conhecido no mundo? É só olhar ao nosso redor, aqui mesmo em Bauru, onde temos uma verdadeira proliferação de Igrejas, em todos os bairros da cidade e da periferia. Nelas se louva ao Senhor - e que o Senhor seja sempre louvado - mas não em comunhão com a única Igreja fundada por Jesus. O evangelista Mateus, (Mt 16,18-20) descreve a Instituição do Magistério da Igreja, quando Jesus entregou o primado a Pedro com as palavras: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja".

O Magistério da Igreja exerce sua tarefa, sob a luz do Espírito Santo, e apresenta aos fieis do mundo inteiro o caminho para alcançar a santidade. É sua tarefa também interpretar fielmente as palavras da Bíblia e anunciá-la aos fiéis com o catecismo e a meditação, pronunciar "Ex Cathedra" dogmas de Fé e proclamar Santos e Santas. Assim sendo, amemos a nossa Igreja, que, através da Tradição, da Sagrada Escritura e do Magistério, sustenta a humanidade com a doutrina revelada e ensinada, na íntegra e sem nenhuma modificação, em todos os lugares do mundo. Chamados por vocação a sermos continuadores dos Apóstolos, invoquemos juntos o Divino Espírito Santo, que com seus dons gratuitos ilumina nossa inteligência e boa vontade: nosso trabalho evangelizador será frutuoso, para a maior glória do Senhor.

 

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