São Paulo - Um "pombo", como é chamada a carta escrita por presos, interceptado por agentes da Penitenciária 2, de Presidente Venceslau no dia 11 de maio de 2015 deu a pista inicial para a investigação do esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo advogados e o PCC. A carta foi lançada na forma de "aviãozinho" de uma ala para outra do presídio, mas o "pombo" acabou caindo sobre o telhado. A Operação Ethos, do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil, prendeu ontem 35 pessoas, na maioria advogados, suspeitas de ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em várias cidades do Estado de São Paulo. Ao todo, a força-tarefa cumpria 41 mandados de prisão, busca e apreensão dados pela Justiça contra o crime organizado.
Entre os presos está o vice-presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Luiz Carlos dos Santos. O subprocurador-geral de Justiça de Políticas Criminais e Institucionais do Ministério Público de São Paulo, Mário Sarrubbo fez questão de ressaltar a importância e seriedade do trabalho desenvolvido pelo Condepe para a proteção aos direitos humanos, reforçando que não existe indício do envolvimento de outros funcionários do órgão.
A correspondência foi apreendida durante uma varredura nas coberturas das alas 3 e 4 da penitenciária, realizada de forma rotineira para retirar drogas e celulares lançados de fora dos muros. Nesse presídio estão confinadas as principais lideranças da facção no Estado, como Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, que teria sido o responsável pela onda de ataques à polícia em 2006. A carta fazia menção a um advogado que traria informações a um agente penitenciário. Apesar dos códigos usados no escrito, os supostos autores e o agente passaram a serem monitorados. As investigações levaram a outro advogado que havia trabalhado como agente penitenciário na P2 de Presidente Venceslau. Ele chegou a chefiar o Grupo de Intervenção Rápida (GIR), que age em casos de conflitos ou rebeliões, e estabeleceu contatos com Marcola e outras lideranças do PCC. Anos depois, o agente se formou em direito e deixou a função pública, passando a atuar como advogado da facção.
O presidente do Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária do Estado de São Paulo, Daniel Grandolfo, informou que vai entrar hoje com pedido de proteção policial para os agentes e familiares incluídos na lista negra do PCC. "Tivemos a informação de que são mais de 100 pessoas entre agentes e familiares que estão nesse cadastro, com nomes, endereços, telefones e fotos deles e dos familiares. Pedimos acesso ao processo para ver quais são os agentes fichados e pedir proteção, pois eles estão correndo perigo." Segundo Grandolfo, o envolvimento de advogados que têm acesso aos presos num esquema que envolve, além da corrupção, o risco à segurança dos agentes, é preocupante.
CONDEPE
Em nota, o Condepe afirmou que a prisão de Santos causou surpresa, uma vez que ele "possui reconhecida trajetória de contundente defesa dos direitos humanos. Nos últimos anos, tem se dedicado a denunciar práticas de violência policial, a cobrar apuração de chacinas em São Paulo, bem como a apontar violação de direitos humanos no sistema prisional".
A presidente do conselho, Maria Nazareth Cupertino, afirmou que o órgão não vai tomar nenhuma atitude contra Santos antes de ter acesso ao inquérito policial.