Criada em 19 de novembro de 1889, alguns dias após a Proclamação da República do Brasil, a bandeira, símbolo nacional querido da gente brasileira, refletia, de início, a certeza de começo pacífico, alvissareiro para a novel nação republicana. O formato geométrico, figuras no plano e figura no espaço, distribuídas sob medidas estritas, com cores bem definidas e lema positivista, a lembrar de Augusto Comte, evidenciam, até hoje, o estado de ânimo dos “republicanos históricos” favoráveis ao desenvolvimento da nação. O padrão “auriverde” e a esfera de anil recoberta de estrelas demonstravam o desejo de união dos fundadores da República em torno da valorização, sem dúvida, da educação pública, único meio de tirar a nação da ignorância e do analfabetismo de 85% da população de 13 ou 14 milhões de brasileiros no final do século XIX, deixados sem instrução pública pelo Império.
A forte crença no poder da instrução pública significou, no limite, criar as condições para vencer o atraso político, educacional e cultural de um país de dimensões continentais. Para mudar a nação, pensavam os republicanos, seria necessário formar o ser humano (homem e mulher) para a alteração da vida social, pela via escolar. Ao acreditar na valorização do trabalho docente como fator decisivo de transformação, a ideologia republicana investiu na construção de imponentes prédios de grupos escolares até hoje encontrados, por exemplo, em vários municípios do Estado de São Paulo.
Ao longo de décadas esse ímpeto educativo da Primeira República, comandado pela elite rural conservadora, a partir de Prudente de Morais, somente se esgotou com o advento da Revolução de 1930, quando a fúria legislativa getulista criaria o Ministério da Educação e Cultura, um marco, sem dúvida, na área da Educação. As Reformas de Capanema estruturam o ensino secundário e somente em 1961, em pleno regime democrático de direito, após a queda da ditadura do Estado Novo, em 1945, o Brasil teve a sua primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 4.024/61), 461 anos após o descobrimento da nação. Lei sábia, sem o viés “economicista” da posterior legislação educacional do país.
A bandeira nacional ao longo do período republicano se manteve intocável no seu “verdeamarelismo”. “Retrato da nação”, ninguém ousou retocá-la ou modificá-la. Permaneceu colorida e geométrica. A revolução de 1930 cassou as bandeiras estaduais em 1932, em especial a bandeira das treze listras, da revolução constitucionalista de São Paulo. A ordem dada pela esfera federal era para queimar as bandeiras estaduais. Sabe-se de pessoas que esconderam os pavilhões estaduais como forma de desobediência civil ao poder varguista.
A bandeira nacional verde amarela permaneceu como símbolo nacional único. Mas, colorida, a bandeira nacional esqueceu da História pátria, do passado de luta da nação brasileira para se fazer presente como pátria soberana. A estética de suas formas geométricas nada lembra de o sangue de Frei Caneca, de Canudos, Tiradentes e Inconfidentes, a guerra do Contestado, a luta Farroupilha, Guerra do Paraguai, o massacre indígena, a terrível escravidão da qual o republicano Ruy Barbosa mandou queimar os registros históricos que desabonavam a nação.
Não há na bandeira querida, nenhum respingo de sangue dos pracinhas da FEB que lutaram na Itália contra as forças do Eixo ( composta de nazistas e fascistas). Muito menos, não há pequeno ponto vermelho para marcar o desaparecimento de jornalistas e políticos que se opuseram ao regime de 1964. Fico perplexo quando pessoas, por várias razões, têm preconceito em relação à cor vermelha que a fazem lembrar de regimes pretéritos implodidos nas mãos de líderes invertebrados. Países sem qualquer tendência à esquerda não revelam preconceitos em relação à cor vermelha.
Suas bandeiras ostentam a referida cor como símbolo de sacrifício, de luta por ideais maiores, por valores humanitários reconhecidos por todos. No caso do Brasil, tudo indica, a bandeira nacional continuará colorida com o lema desafiador, a esconder na geometria fria de seu traçado, a História do país. Há, entretanto, uma saída republicana: muitos Estados incorporaram a cor vermelha nos respectivos pavilhões de modo a evidenciarem o sacrifício de muitos na afirmação da cidadania. Mire-se no exemplo das Minas Gerais.