Bem próximo a uma grande mata, na recente pavimentação e extensão da rua Jorge Laurindo Ferreira, existe uma pequena praça que salta aos olhos de quem se dirige rumo à Vila Tecnológica. Trata-se de um espaço livre apropriado pela comunidade e que quase sem querer pode servir de exemplo para uma discussão importante a respeito dos espaços públicos em nossa cidade. Com bancos simples de madeira e uma placa com grafia torta, mas honesta, ali se lê “Praça Isso Memo”, mas bem poderia estar escrito “nossa praça”. Um grande “NOSSO” é a mensagem implícita.
É claro que planejadores descuidados podem olhar com desdém para aquele conjunto de mobiliário rústico e plantas desordenadas desejando ardentemente substituir o calçamento de terra por um piso do tipo “paver” (que tem se alastrado por nossas cidades como uma erva daninha) e com muita sorte manter uma ou outra árvore, substituindo no processo, o mobiliário rústico por bancos de concreto armado com furos geométricos.
Na década de 1970, entrou no radar daqueles que pensavam a respeito da qualidade do espaço urbano o conceito de espaços defensáveis (defensible spaces), nome cunhado pelo arquiteto britânico Oscar Newman em livro de mesmo nome. Em linhas gerais, consistia basicamente em que a defesa de espaços públicos (como praças p.ex.) poderia ser realizada a partir do momento em que os indivíduos sentissem-se responsáveis e no controle destes espaços, transformando-se assim nos principais agentes de sua segurança e manutenção.
A teoria é simples, mas a prática difícil, pois exige a retomada ou a continuidade saudável de uma relação afetiva entre a comunidade e o espaço público. Este pulo foi dado por moradores do Geisel ao se apropriarem de uma área de “sobra” e convertê-la para uso próprio: uma praça espontânea.
As praças espontâneas surgiram como resposta natural da população à necessidade de um local de convivência, uma vez que espaços comuns como praças podem se tornar raros no planejamento inicial de muitos conjuntos habitacionais.
Longe de serem consideradas ingênuas, estas ações deveriam ser levadas em conta na hora de discutirmos espaços públicos em nossa cidade. Há grande variedade de pequenos espaços convertidos em hortas ou áreas de descanso da comunidade.
O que não significa uma panaceia para os problemas urbanos, uma vez que em muitos bairros o espaço apropriado nada mais é (ou tornam-se) depósitos de lixo a céu aberto.
No final, não se trata de uma defesa de grandes praças com muito verde ou de um ativismo popular de retomada de espaços livres, mas de uma tentativa singela de colocar as coisas em ordem. E, por isso, a praça merece nossos elogios e desejo que continue por muitos anos como patrimônio do bairro e longe das ideias mirabolantes de planejadores descuidados.