Na internet, o debate sobre a chamada “escola sem partido” persiste. Nas redes sociais, ainda hoje, vemos defensores fervorosos dizerem que colégio não é lugar de ideologia, colégio não é lugar de doutrinação. De certo, muitos desses apoiadores da “escola sem partido” não são pessoas mal-intencionadas, pessoas que querem que os nossos jovens brasileiros recebam uma educação alienada ou anti-cidadã. Ou seja, na melhor hipótese, há quem acredite realmente que a “escola sem partido” seja uma forma de melhorar significativamente a educação no nosso país.
No entanto, é preciso esclarecer alguns pontos centrais nesse debate. Primeiro, a questão da ideologia e doutrina. É preciso saber que ideologia ou doutrina não é apenas a visão proposta pela esquerda, pelos sociais-democratas, pelos socialistas, pelos comunistas. Não. O projeto de direita, conservador e capitalista, por exemplo, também é uma forma ideológica e doutrinária.
Pontuado isto, a segunda questão é sobre a qualidade da educação brasileira. Os apoiadores ou os críticos da “escola sem partido” precisam ter clareza para entender as razões de a educação brasileira ser ruim como é. As nossas escolas são ruins não por causa de um ou outro professor de história apaixonado por Cuba e por Che Guevara! Elas são ruins porque esse professor de história é extremamente desvalorizado e, ainda, os alunos desse professor de história estão amontoados em salas de aula superlotadas.
Em terceiro lugar, uma questão mais abstrata: a liberdade do ser humano, a liberdade dos alunos. É importante lembrar o essencial aqui, que as pessoas são dotadas de racionalidade. As pessoas pensam, os alunos têm capacidade de questionar. E esses alunos que hoje são jovens, amanhã serão adultos! E a maturidade traz junto consigo um aumento da capacidade de questionar e criticar. Ou seja, reafirmar esse essencial é útil para ajudar a entender que os alunos, mesmo as crianças e adolescentes, não são máquinas sendo programadas por seus professores. Os alunos não são animais incapazes de, ao longo dos anos, refletir sobre as lições que vão aprendendo de seus professores na escola.
Para dar um exemplo histórico muito interessante, nós lembramos aqui do caso da filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986). Atualmente, Simone é conhecida por seus livros que defendem o feminismo e a esquerda. No entanto, o que poucos sabem é da vida pessoal de Simone. Poucos sabem que Simone passou toda a sua infância e juventude estudando em colégios católicos de Paris. Colégios, aliás, dedicados exclusivamente para moças.
Enfim, certamente o debate sobre a “escola sem partido” ainda continuará por bastante tempo. Mas que nós pelo menos lembremos desses pontos centrais. Lembremos que ideologia não é apenas coisa de esquerda, mas também de direita. Lembremos que a educação brasileira está péssima por causa de sua desvalorização e desorganização e não por causa de alguns professores filiados a partidos políticos. Lembremos, por fim, que os seres humanos são livres! Os alunos um dia crescem! E mesmo que os alunos estudem a juventude inteira em uma escola católica conservadora, eles são capazes de livremente se opor a tudo o que aprenderam quando se tornam adultos.