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Mortes por afogamento superam 2015 e rios e lagos são a grande armadilha

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

O Brasil detém a maior reserva de água doce do planeta. Porém, além de serem os mais procurados por banhistas para amenizar o calorão, principalmente nesta época do ano, os rios e lagoas aparecem também como “palcos” da maioria das mortes por afogamento.

O ano ainda nem acabou e o percentual na região de Bauru já supera 2015 inteiro, com 17 mortes, sendo apenas uma delas em piscina. No ano passado, foram registradas 14 vítimas fatais e 13 acabaram morrendo em rios, represas ou lagoas, áreas que concentram 94% dos óbitos, considerando a estatística total (2015 e 2016).

A informação foi prestada pelo 1.º tenente Victor Felix Tozi Bomfim, oficial de relações públicas do 12.º Grupamento de Bombeiros - que abrange 69 municípios, incluindo Bauru. Ele alerta para os perigos da água doce.

A beleza natural destes locais esconde verdadeiras armadilhas que são uma combinação de fatores quase sempre imprevisíveis: correnteza, obstáculos, desníveis no solo e redemoinhos perigosos para qualquer corpo na água. Inclusive, um afluente do Rio Batalha foi cenário de tragédia que abalou os bauruenses, em fevereiro deste ano. Pai, três filhos adolescentes e o namorado de uma das jovens morreram afogados durante passeio de domingo.

7 MIL MORTES

Casos como este ocorrem com frequência. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 7 mil pessoas morrem afogadas por ano no País, sendo 65% em águas doces. É como se a cada semana uma embarcação pequena naufragasse sem deixar sobreviventes.

Tozi aponta que a falta de prudência em rios e lagoas pode gerar acidentes fatais, uma vez que estes locais escondem uma série de “emboscadas”, como a existência de obstáculos ao longo do curso da água.

“Na nossa região não há muitas reversas naturais com fortes correntezas. É mais comum ter galhos de árvores, pedras e desníveis de barrancos, o que, associados à imprudência, podem resultar em tragédia”, frisa.

Ele cita, em ordem, as três principais causas de afogamento: banhistas embriagados, aventurar-se em áreas desconhecidas e crianças sem a supervisão de adultos. Conforme o JC divulgou no início do ano, 70% das vítimas haviam ingerido álcool antes de entrar na água.

O tenente explica que, devido à grande quantidade de rios e lagoas na região, acaba sendo impossível manter equipes de prevenção. “A orientação é não entrar na água. É preciso saber onde está pisando. Como diz o ditado: ‘água acima do umbigo, sinal de perigo’”, diz.

Em situações de afogamento, deve-se seguir certos cuidados durante o resgate, aponta Tozi. “O indicado é que se mantenha uma distância segura da vítima e lance algo na água em que ela possa se segurar”, detalha (veja outras dicas no quadro abaixo).

LAGOA PERIGOSA

Com aproximadamente 60 mil metros quadrados de área, a Lagoa da Quinta da Bela Olinda já foi “palco” de uma centena de mortes por afogamento em Bauru. “É a nossa maior preocupação na cidade”, revela o tenente dos bombeiros.

Ele cita que o local é repleto de desníveis, que chegam a variar de 1 metro para 8 metros de profundidade, saliências que aparecem repentinamente e surpreendem os banhistas. “Muitos objetos são descartados no local e as pessoas podem se enroscar em um deles e se afogar”, alerta. “O certo é não nadar ali”, completa.

REDEMOINHOS

Quando os desníveis estão no fundo do rio, chegam a causar refluxo, mais conhecido como redemoinhos. O fenômeno, inclusive, é apontado como a principal causa da morte do ator Domingos Montagner, no Rio São Francisco, em setembro.

Coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito explica que a tendência, por conta do redemoinho, é que o banhista seja puxado para baixo. “O movimento é circular e, mesmo sabendo nadar, é muito difícil voltar à superfície”.

‘Eles foram viver para Deus’, diz mãe de garoto que morreu afogado

Douglas Reis
Solange se apegou à religião após a morte do filho Luick: “Precisei segurar na mão de Deus”

Um afluente do Rio Batalha foi cenário de tragédia que abalou os bauruenses, em fevereiro. Pai, três filhos adolescentes e o namorado de uma das jovens morreram afogados durante passeio de domingo.

Oito meses depois, Solange Aparecida da Silva de Jesus, 48 anos, conta que se apegou à religião para superar a dor da perda do filho Luick dos Santos Claro, 15 anos, uma das vítimas da tragédia. “Precisei segurar na mão de Deus para continuar a caminhada”.

Ela revelou que jamais imaginou que uma simples diversão pudesse acabar dessa forma. “Sinto muita saudade de todos eles, mas agradeço a Deus por ter me ajudado a superar. Estou conseguindo respirar e seguindo a vida”.

No local, morreram Newton Mello Avante, 44, os filhos Natalia Gabriela dos Santos Avante e Thallyson Natan dos Santos Avante, ambos de 17, e Nataliely Mariana dos Santos Avante, 13, além do namorado de Natalia, Luick.

Solange releva que os dois se conheciam há 8 anos, mas começaram a namorar 15 dias antes da tragédia. Naquele domingo, foi a primeira vez que o casal saiu junto. “Acredito que foi plano de Deus. Eles não morreram, foram viver para Deus”, finaliza.

Crianças X piscinas

Afogamento é a segunda maior causa de mortes de crianças entre 1 e 9 anos, atrás somente dos acidentes de trânsito. Muitos casos acontecem nas residências quando os pequenos estão aprendendo a andar e caem dentro de baldes com água, banheiras, vasos sanitários. Outro alerta é para as piscinas. “Por não ter noção do perigo, as crianças são as mais vulneráveis. A monitoração dos adultos é fundamental”, destaca Álvaro de Brito, da Defesa Civil.

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