| Samantha Ciuffa |
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| Mural de alunos da EE Carlos Chagas demonstra que pratos saborosos fazem parte da lista de desejos dos estudantes |
Uma das principais festas cristãs, o Natal também é o ápice dos sonhos de consumo de qualquer criança, justamente pela alegria em receber presentes. Porém, a escassez de renda provocada pela crise econômica atingiu de forma tão contundente as famílias, que os brinquedos têm sido substituídos por alimentos na lista de pedidos de muitos pequenos, em Bauru.
A troca de prioridades vem sendo percebida por pessoas que promovem ações sociais e têm experiência de anos nesta prática. A demanda por cestas básicas na prefeitura, por exemplo, aumentou 40% (leia mais abaixo). Já na Escola Estadual Carlos Chagas, Vila São Paulo, um episódio chamou atenção da professora Juliana Xavier, que leciona para alunos entre 8 e 9 anos.
Durante atividade, a docente lançou a seguinte questão no mural: "O que nós crianças queremos?" Para a surpresa dela, a maioria ansiava por "comidas gostosas". A reação dos pequenos mobilizou uma ação solidária realizada na última quinta-feira, quando a criançada ganhou um presente de Natal bastante saboroso.
Ao todo, 25 crianças comeram à vontade no Habibs da avenida Comendador Joaquim da Silva Martha, na zona sul de Bauru. Muitos, infelizmente, nunca tinham experimentado algo que fosse diferente do básico arroz com feijão. Uma das alunas até listou o cardápio dos sonhos: pastel, batata frita, guaraná, coxinha, esfirra e pizza de presunto e queijo.
"Eu tinha vontade de comer essas coisas", disse, ao justificar o pedido feito durante a atividade escolar. "Minha avó não tem dinheiro para comprá-las", revelou, sem, contudo, perder o sorriso no rosto propiciado pelo café da manhã que acabara de ganhar.
Esta realidade, porém, não se restringe somente a ela. Outras tantas crianças que vivem em situação vulnerável no município temem a falta de alimento na mesa, preocupação, antes, de encargo somente dos adultos.
MISÉRIA NOVAMENTE
Há mais de 20 anos empenhada em ações para ajudar os mais necessitados, a bauruense Maria Inês Faneco alerta: "Caímos novamente na miséria". Conforme o JC divulgou em outubro, mais de 700 famílias de Bauru voltaram à condição de vulnerabilidade.
O reflexo da crise tem sido bem impactante. "Dois anos atrás, a criança ainda preferia brinquedo, roupa. Hoje, chegamos em uma comunidade com bolachas e elas ficam fascinadas", conta Faneco.
Para entrega de comida e brinquedos, as filas são formadas separadamente. "Antes, as crianças nem entravam na fila do alimento. Hoje, é difícil vê-las em outra fila. Elas recebem um prato de comida com a mesma alegria como se tivessem ganhado uma bicicleta".
FÉRIAS PREOCUPADAS
Coordenadora da Casa da Sopa da Vila Dutra, Rose Lopes disse estar com o "coração partido" com a realidade de miséria das famílias. "Ontem (quinta) mesmo, uma criança me perguntou: "Você vai dar comida no Natal?", diz.
Imagina-se que qualquer criança fique feliz com o recesso escolar, uma vez que o tempo para brincar será maior. Infelizmente, não é o pensamento de alunos de algumas escolas públicas assistidas pela entidade.
"As crianças estão preocupadas com a chegada das férias porque não terão mais as merendas. Isso é muito grave e triste", lamenta Lopes.
'É gostoso comer coisas diferentes', diz aluno de 9 anos
"Às vezes, falta comida em casa. Desta vez, não quero brinquedo no Natal". A frase é de uma menina de 9 anos, uma das crianças beneficiadas pela ação solidária impulsionada após atividade na EE Carlos Chagas revelar que a maioria dos alunos ansiava por alimentos ao invés de bicicletas ou equipamentos eletrônicos.
Outro aluno, também com 9 anos, comemorava a variação de cardápio. "É gostoso comer coisas diferentes. Estou muito feliz", diz, visivelmente emocionado.
Professora que questionou o desejo dos pequenos, Juliana Xavier afirma que se surpreendeu com as repostas. Tanto que contou para sua cunhada Fabiana Francisco, que é chefe de cozinha do Habib's da avenida Comendador.
A notícia logo se espalhou. Fabiana comentou com a colega de trabalho, a operadora de caixa Camila Fernanda Lopes, e as duas decidiram presentear as crianças bancando um café da manhã. Faltava, porém, a condução para transportá-las.
"Foi quando eu falei com o meu primo, o empresário Rick Ferreira", diz Camila. Rick, juntamente com o vereador Markinho da Diversidade (PP), conseguiu um ônibus com um amigo, sem custo algum. Na manhã da última quinta, a criançada, então, desembarcou no Habib's.
Em clima de muita festa, os 25 alunos lotaram as mesas e tiveram direito a qualquer item do cardápio. Lanches, esfirras e refrigerantes foram o grande presente deste Natal.
"A maioria escreveu comidas gostosas no mural. Outros queriam paz, saúde, felicidade. Nenhum deles, porém, pediu bens materiais", conta a professora Juliana.
"Ganhei meu ano. Estou muito feliz em ver essas crianças se deliciando", dispara a funcionária Camila. "É o pouco que poderíamos fazer por elas", completa Fabiana.
Ao final, a conta foi divida entre as duas, o gerente do estabelecimento, Diego Vicentini; um dos proprietários Nelson Scarpelli; além do empresário Rick e do vereador Markinho.
"Tanto eu quanto o Rick viemos de famílias humildes e sabemos as dificuldades delas. Hoje, estar em uma condição de ajudar as pessoas é muito gratificante", ressalta Markinho.
"É uma mudança de comportamento significativa ver uma criança pedindo comida na era da tecnologia, ao invés de computador ou celular", destaca Rick.
Dez toneladas
Coordenadora da Casa da Sopa, Rose Lopes revelou um dado preocupante. De fevereiro para cá, o número de procuras por alimentos aumentou cerca de 200%. "Antes, três toneladas de comida garantiam o mês. Agora, está sendo preciso preparar entre nove e dez toneladas".
A preocupação de Lopes é conseguir atender a demanda. "Não sei mais o que fazer. Estou indo atrás de mais empresas e pretendo ampliar as campanhas".
Aliás, o foco das arrecadações para este Natal mudou. "Estamos focando mais em alimento do que em brinquedo. Além da cesta básica, deveremos entregar uma guloseima para as crianças".
Maria Inês Faneco seguirá o mesmo esquema. "A ideia é angariar mais alimento mesmo", afirma a ativista.
SERVIÇO
Quem quiser colaborar nas ações, pode entrar em contato com Rose Lopes pelos telefones (14) 9 9162-6811 ou (14) 3238-7702. Já o contato de Maria Inês Faneco é o (14) 9 9675-5495.
Cestas básicas
Segundo a titular da Sebes, Darlene Tendolo, o número de pedidos de cestas básicas à prefeitura saltou de 500 para 700 no último mês, o que representa 40% de aumento. "Com a baixa de 7 mil postos de trabalho, perdeu-se poder de compra. As crianças percebem a preocupação dos pais, o que explica o fato do pedido de alimento ao invés de brinquedos", avalia.
De acordo com ela, apesar do aumento, toda a demanda é atendida.
