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'Idade de iniciação com drogas tem influência na dependência'

Por Wilson Marini | Rede APJ
| Tempo de leitura: 6 min

Divulgação
João Paulo Becker Lotufo participará do 4.º Congresso Internacional Freemind, em Campinas

A idade em que o adolescente começa a ter contato com o álcool ou drogas ilícitas pode aumentar a chance de torná-lo um dependente químico na vida adulta. A afirmação é do médico João Lotufo, especialista brasileiro do tema da drogadição, que tem desafiado governos, estudiosos e a sociedade. Lotufo será um dos nomes mais requisitados em Campinas, entre os dias 7 a 11 de dezembro, para o evento apresentado como o maior do gênero em todo mundo.

Trata-se do 4.º Congresso Internacional Freemind, que elegeu desta vez como mote principal o tema "Álcool e outras drogas: por um mundo melhor, vamos tocar neste assunto". Quanto mais cedo, maiores são os riscos. Se alguém começar a beber aos 12 ou 13 anos, diz ele, a chance de tornar-se dependente químico é grande, porque a maturação do cérebro não está totalmente formada nessa faixa.

Diferentemente, se ocorrer após os 21 anos de idade, a chances diminuem, segundo mostram os estudos, mostrando a gravidade da iniciação precoce. Lotufo discorre sobre o assunto com a autoridade de doutor em Pediatria pela Universidade de São Paulo e responsável pelo Ambulatório e Projeto Antitabágico do Hospital Universitário da USP e pelo Projeto Dr. Bartô - Drs. da Saúde, que é focado na prevenção de álcool, tabaco e outras drogas para o ensino fundamental e médio.

Também é responsável pelo tema das drogas nas Sociedades Brasileira e Paulista de Pediatria (SBP e SPP). Ao trabalhar com cerca de seis mil jovens em escolas, conseguiu ampliar em até 60% a discussão sobre a droga entre as famílias nesses estabelecimentos. Por isso, ele afirma que o diálogo é a forma mais eficaz de evitar o uso precoce do álcool e outras drogas.

Quando começa em casa

Lotufo tem duas convicções. A primeira, a de que o maior problema social que existe é o álcool. E, em segundo lugar, que este continua sendo o fator de iniciação de outras drogas. Infelizmente, diz ele, muitas vezes o início do álcool começa em casa. "É muito comum ver um pai molhando a chupeta do bebê na cerveja e é assim que se começa", afirma.

Estudo da USP aponta que jovens que bebem a partir dos 14 anos têm 46% de chances de se tornarem dependentes químicos. Ele constata que existe desconhecimento sobre os efeitos do álcool e das drogas na saúde das pessoas.

"Em todas as palestras que faço, quando se pergunta qual a droga que faz menos mal, a resposta é sempre a mesma: álcool e maconha", relata. "Como pediatra, tenho atendido coma alcoólico aos 14 anos de idade, após a fatídica festa de 15 anos. Raras são as festas deste tipo sem bebida alcoólica".

Lotufo lembra a respeito da diminuição do tabaco de 30 para 10% da população em poucas décadas. Retirou-se a propaganda do cigarro da mídia, legislou-se contra o fumo em ambiente fechado, aumentou-se o imposto no cigarro e considerou-se o tabagismo uma doença. "Todos sabem o que precisa ser feito para diminuir o uso precoce e abusivo do álcool: as mesmas medidas", recomenda.

E acrescenta. "Entre as estudantes de medicina para quem dou aula, indagadas sobre voltar para casa com o namorado que bebe, pegar um táxi ou pedir para que seus pais fossem lhe buscar, a resposta preponderante foi a de que voltavam para casa com o namorado, a não ser que ele tenha bebido muito!". Não é preciso ir longe, finaliza o médico. Uma única dose de álcool já diminui a noção de distância e velocidade.

Freemind quer despertar sociedade

Os efeitos do álcool e drogas ilícitas são devastadores e muitas famílias perdem o chão quando um de seus membros é envolvido. A boa notícia é que há muita gente séria, competente e dedicada, que faz de seu ofício a missão de colaborar na prevenção e tratamento. O congresso Freemind é uma esperança nesse sentido.

Uma das prioridades para discussão em Campinas serão as crianças que usam substâncias psicoativas. No Freemind haverá um curso voltado ao assunto. O principal conceito do Freemind é a mobilização, ou seja, um movimento com ação. Os organizadores partem da premissa de que não adianta a sociedade cobrar uma solução sem colocar a mão na massa e se envolver diretamente na solução dos problemas das drogas no Brasil.

"Numa guerra, a mobilização é rápida, em função do sofrimento que ela representa. Esta guerra é de todos e é preciso enfrentá-la com as armas da educação, do amor e da espiritualidade", declaram.

Estarão presentes ao encontro mais de uma centena de personalidades ligadas às áreas de saúde, educação, esporte, prevenção, tratamento e assistência social, entre outras, que irão discorrer sobre o problema da drogadição, suas causas, consequências e possíveis soluções.

Iniciativa

A Mobilização Freemind, criada no Brasil em 2012, tornou-se uma referência de unidade no setor e faz parte de uma rede mundial de organizações, que reúne os maiores especialistas e instituições que atuam nesta área no País.

O congresso terá 30 painéis, que vão desde a dependência digital, passando pelas drogas lícitas e ilícitas, a educação e a comunicação. Estão sendo aguardados três mil participantes, brasileiros e estrangeiros, entre eles palestrantes internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização dos Estados Americanos (OEA) e governo americano.

Entre os palestrantes brasileiros, destacam-se especialistas de renome como Augusto Cury, Anthony Wong, Ronaldo Laranjeira, João Lotufo e o ex-jogador de vôlei Giba, que atua na prevenção a partir do esporte.

A proposta do congresso é estimular o envolvimento e a reflexão da sociedade para debater um tema difícil, porém, de fundamental importância, uma vez que envolve vários segmentos do cotidiano e que, muitas vezes, passam despercebidos pelos cidadãos em todo o mundo.

Resultado

De acordo com os idealizadores do evento, após investir US$ 13 bilhões no combate às drogas nos últimos 10 anos, o governo norte-americano constatou que o percentual de 5% de dependentes químicos no mundo permaneceu estável justamente pela atuação de entidades e ONGs que trabalham com prevenção e tratamento.

Graças a isso, segundo os organizadores, percebeu-se que é mais barato, eficiente e necessário investir em capacitação científica de voluntários e profissionais para manter e, principalmente, diminuir este índice. 

Maconha em debate 

Você acha que legalizar resolve? Esse é um dos painéis temáticos mais aguardados do congresso de Campinas, programado para o sábado (10/12). Segundo os organizadores, é esperado um grande público, já que é um assunto muito debatido no Brasil e no mundo. A legalização da erva será discutida, bem como a diferença entre fumar maconha e usar uma substância presente em sua composição para fins medicinais, entre outros assuntos relacionados a esse tipo de droga.

Restriçõesao álcool

Medidas que passarão a ser discutidas em São Paulo para o combate precoce da bebida alcoólica, segundo o Freemind:

- Aumento do ICMS da bebida alcoólica.

- Restrição dos pontos de venda, em especial retirada de venda em postos de gasolina e proximidade de escolas.

- Fiscalização e punição severa à venda de bebidas alcoólicas para menores de idade

Serviço

Evento: 4.º Congresso Internacional Freemind

Data: 7 a 11 de dezembro de 2016

Horário de abertura: 19h

Local: Expo Dom Pedro

Endereço: Av. Guilherme Campos, 500 - Jardim Santa Genebra, Campinas - SP

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