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"Até que a morte nos prepare"

Sinuhe Daniel Preto
| Tempo de leitura: 3 min

O Cemitério do Redentor está repleto de vivos à procura de mortos, as velas estão à venda do que ninguém desvenda, flores são de plástico, como diriam Titãs ou ambulantes, água, refrigerante, naftalina, adrenalina, sabatina, quem morreu?

É Dia de Finados e os destinados pensam estar afinados por rezar por aqueles que seguiram outro caminho e, portanto, estão desafinados! Mas, afinal, e a final, quem realmente morreu? Os túmulos chegam aos cúmulos de serem remorsos de quem viveu e nunca morreu, mas não sabe se está vivo ou morto, quem dera fosse a brincadeira de criança que precedia ou sucedia todo dia "Mamãe da rua" ou "Queima" ou "Pique", sim, era fácil e espontâneo sem pranto e sem tanto, falar: "vivo, morto!"

A verdade é que ninguém se preparou para a morte, no entanto, ela existe, persiste e insiste, enfim, não se quer o fim! Como pensar em morrer se nem se viveu, a morte é a sorte que deixou de acontecer, só se quer morrer de rir, ou ser linda de morrer, mas morrer mesmo que não é bom, ninguém quer, o mundo mudou, "Navegar é preciso e viver também é preciso!", Fernando Pessoa, que jaz com seus heterônimos e todos os possíveis seres, morreu mesmo?

A verdade, se é que há verdade, é que Jobs disse: "Não queira ser o cara mais rico do cemitério." Mas quem não quer? Mas não se quer morrer, Steve, quer-se Iphone dízima periódica, o material é mais que espiritual, é o cúmulo o meu túmulo não ser superior ao seu, enterram-me de terno para ser eterno, não se doam roupas aos vivos, precisa-de de elegância sem tolerância!

O avião da Chapecoense trouxe à tona a morte, morre-se do nada, morre-se de tudo, há tempos câncer não é mais signo ou trópico, é rotina na vida de vivos que não estão mortos! Câncer, que paroxítona mais sílaba última do que penúltima, que léxico mais disléxico!

O avião ia para a Colômbia, nem Pablo "Narcos" Escobar preveria tamanha desgraça, o futebol não pode ser um caixão de surpresas! A bola está murcha, o futebol teve W.O. póstumo, o Verde caiu sem estar maduro, os vivos mais uma vez têm que falar da morte! A "Chape" não fazia mal a ninguém, a não ser em suas vitórias dentro da Arena Condá, tinha um índio a quem devem ter dado um espelho também e visto um mundo doente, um time querendo divulgar sua cidade com felicidade, um povo que quereria ser novo de novo!

As mortes trarão ausência a quem tenta entender de ciência, consciência ou inteligência, o destino perguntar-se-á se ainda é divino ou cretino, as mães privilegiadas desde o útero, perguntar-se-ão de quem era o seu filho, indagar-se-ão porquês da escolha, quererão, momentaneamente, morrer também, nunca saberão se "a alma não é pequena", e no meio de tantos pronomes no meio, viverão para um fim: amar, como se devem as mães, seus entes conhecidos!

Entre tantas gerações, procura-se aquela que explicará a morte, na história da Chape, penso: "Todo homem é mortal, porém, o homem todo não é mortal!"

Ou, ainda, sem entender nada, o torcedor, o jornalista, o parente, o mundo irá desdizer: "Abre o túmulo e dize-me: quem de nós morreu mais?"

 

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