Confesso que não é fácil ser economista no Brasil. Mesmo considerando a chamada condição “ceteris-paribus” (que todos os demais fatores permaneçam constantes) para definição dos modelos e lógica econômicos, é extremamente difícil sustentar projeções e análises para a economia brasileira e o horizonte de sua recuperação.
Todos devem se lembrar que desde a eleição da ex-presidente Dilma Rousseff a variável política nos atormenta. Problemas de toda ordem tiraram o foco das questões econômicas. Saída da presidente da República, cassação do presidente da Câmara, políticos presos com delações premiadas, instabilidade de toda ordem e agora atingindo o Senado Federal, inclusive com questionamentos da posição do Supremo Tribunal Federal, são alguns exemplos do quanto convivemos com incertezas no campo político.
Como fica o comportamento dos agentes econômicos diante de tantas mudanças e da crise institucional vivenciada em nosso País? No mínimo inseguro. Diante de tantas incertezas, como projetar com alguma possibilidade de acerto o que podemos esperar da economia brasileira? Sem dúvida não é tarefa fácil. Alguns indicadores sinalizam para uma mudança de direção, para melhor, e outros nem tanto. É certo que a inflação está em queda. Também é certo que o Banco Central entende que é possível afrouxar a política monetária e com ela promover novas quedas na taxa básica de juros (após duas quedas consecutivas, operando atualmente em 13,75% ao ano).
O problema maior é que somente afrouxando em parte a política monetária não haverá recuperação da economia brasileira na magnitude necessária. A recessão é verdadeira e atinge a todos, notadamente os trabalhadores que amargam o desemprego. Juros menores são paliativos para um pequeno estímulo ao consumo das famílias, mas como estas estão endividadas, não é possível imaginar e projetar que se lancem fortemente às compras.
A volta mais forte do crescimento virá na retomada dos investimentos. Mas a questão é: com tantas incertezas políticas como resgatar a confiança dos investidores? E a questão aqui não é somente a retomada da confiança e sim se há disposição em apostar seu capital em projetos que incorporam riscos adicionais. Incertezas políticas, com crise institucional, vão no sentido contrário ao desejo de quem aposta em retorno a longo prazo. A roda da economia não gira e quanto mais incertezas, mais lenta será sua recuperação.
Por sinal, boa parte dos problemas econômicos vivenciados no Brasil pode ser solucionado com a volta do crescimento da economia: mais vendas, mais lucro, mais contratações, mais dinheiro circulando, mais poupança, mais tributos (capazes que minimizar o déficit das contas públicas), entre outros.
Não é tarefa fácil isolar as questões políticas da econômica, e certamente tudo que passamos pode ser contabilizado ao preço que pagamos pela nossa jovem democracia, mas é preciso foco, ter um executivo com firmeza de propósitos e que as questões estruturantes sejam enfrentadas, uma a uma.
Se não é tarefa fácil projetar o que podemos esperar para a economia brasileira e qual a velocidade da retomada do crescimento, é preciso ao menos estabelecer uma estratégia que blinde a equipe econômica comandada pelo ministro Henrique Meirelles garantindo que as variáveis definidas para novo modelo econômico efetivamente sejam colocadas em prática.
O que está em jogo não é a disputa pelo poder e tampouco o bem-estar deste ou daquele político, mas sim a melhoria dos indicadores sociais, entre eles a queda no desemprego.
É preciso pensar nisso!
O autor é economista e articulista do JC