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Os gols contra da Otan


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O mundo depois do final da Guerra Fria já não é o mesmo. Depois do 11 de setembro é irreconhecível. Enquanto Fidel Castro mantém uma áspera disputa com o Kremlin sobre a base de Lourdes e acusa seus antigos aliados e protetores de serem lentos na ajuda, uma bela russa foi eleita Miss Universo. Ao mesmo tempo, Vladimir Putin assinava uma aliança com a Otan e a União Européia declarava a Rússia economia de mercado, preparando o caminho para seu futuro ingresso no bloco. Do império diabólico por antonomásia, segundo afirmava Ronald Reagan nos anos 80, a Rússia converteu-se em foco dos carinhos do ocidente, ao mesmo tempo em que irrita um dos últimos irreformáveis revolucionários do planeta.

Tudo isto acontece em pleno contexto do Campeonato Mundial de Futebol na Coréia e no Japão. É outra novidade da globalização. Antigamente, o Mundial era disputado somente em países razoavelmente futebolísticos da Europa e da América Latina. A mudança começou com a Copa dos Estados Unidos, terra bárbara. Agora, a ascendência da Rússia lembra a surpresa com que os espanhóis receberam a seleção da União Soviética, em 1964, para que fosse derrotada pelo selecionado da anticomunista Espanha franquista, na final da Eurocopa. Os velhos participantes da guerra civil não podiam acreditar: os republicanos marxistas haviam prometido que os “seus” voltariam um dia. Voltaram, a jogar futebol, e perdendo.

Tudo começou a mudar radicalmente quando o final da Guerra Fria confirmou as suspeitas: a pretendida fortaleza da União Soviética foi uma invenção do complexo militar-industrial dos Estados Unidos para justificar os gastos armamentistas. O Pacto de Varsóvia foi uma piada que não agüentaria por alguns dias a Otan, com a máquina letal das Forças Armadas dos Estados Unidos. Agora, como por milagre, ao antigo inimigo estende-se o tapete (vermelho) e, em Cuba, ele é repreendido. E a bela Oxana Fodorova supera todas as belezas do planeta.

Enquanto os otimistas e a maioria dos chefes de governo da Otan e União Européia estão muito felizes, os desconfiados se perguntam se tanta delícia não implica riscos. No início foi a febre da ampliação da Otan e a incorporação de checos, poloneses e húngaros. Apenas pelo tempo de mudar as munições dadas pelos próprios soviéticos, entraram velozmente na Aliança, paradoxalmente, para se proteger da instabilidade de seu antigo protetor. Mas, se lhes fosse dado escolher, teriam preferido ser aceitos como sócios da União Européia, onde, ao que parece, ingressarão em 2004.

A incorporação desse trio à Otan foi o primeiro dos gols contra que podem desembocar em sua derrota e queda para a segunda divisão. O segundo foi justamente depois do 11 de setembro, quando os Estados Unidos solicitaram a ativação do crucial Artigo 5 sobre defesa conjunta de todos os membros da Otan em caso de ataque contra um deles, para, em seguida, ignorar a organização e conduzir a guerra no Afeganistão por sua própria conta. Foi o pênalti e a sentença de morte da Otan. A entrada da Rússia como sócia sem poder de veto pode ser o segundo cartão (vermelho, claro) para a organização que começou com três missões fundamentais. Primeiramente foi criada para manter a URSS fora (out) da Europa, em segundo lugar para que a Alemanha continuasse prostrada (down) e por último para que os norte-americanos estivesse dentro (in). Com relação à União Européia, o insólito convite que o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, fez a Putin está em sintonia com a frivolidade e o oportunismo com que alguns líderes europeus estão conduzindo os assuntos da União Européia. Margaret Thatcher não poderia ter feito melhor, ela que tanto se irritava com o aprofundamento da integração européia e, em contraste, apostava na ampliação do mercado comum. Nessa linha está a declaração oficial da União Européia reconhecendo a Rússia como uma economia de mercado, e sua democratização se dá como certa. Daí à ampliação da União Européia até as fronteiras da Coréia é apenas um passo, passando de longe pelo arco de nações impecavelmente européias que desde a Lituânia até a Turquia (incluindo a antiga e desintegrada Iugoslávia) ainda fazem fila para entrar na União Européia.

Enfim, parece que a Otan já encontrou uma missão: a luta contra o terrorismo internacional. Espera-se que, finalmente, justifique os gastos, porque na Guerra Fria não teve oportunidade. Espera-se, também, que se deixe tranqüila a União Européia. Quem sabe mostre o cartão (vermelho) a todos. (IPS) (Joaquín Roy é diretor do Centro da União Européia e pesquisador sênior do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami)

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