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Todo bandido já foi criança

Lucas Dias
| Tempo de leitura: 2 min

Todo bandido já foi criança, daquelas que engatinham ainda de fraldas e que nascem feias, com a cara do pai. Todo bandido já chorou de medo do barulho de uma tempestade e já chamou pela mãe aos berros quando a fome apertou o estômago. Antes mesmo de ser criança, todo bandido já foi um feto de sete, cinco ou três meses.

    

Foram concebidos pelos mesmos métodos que os demais seres humanos, sentiram as mesmas necessidades fisiológicas, foram e são suscetíveis às mesmas doenças e aos infinitos males da alma.  Mas, então, o que faz do bandido tão diferente do que somos hoje? O que corrompe o bebê das bochechas rosadas a se tornar, no futuro, um terrível sanguinário?


Se toda vida, no instante máximo do seu nascimento, carrega consigo um absoluto estado de pureza; o que é capaz então de destruir tamanha alma angelical? Será que somos nós - os inquisidores da moral - que somos omissos às ações brutais do mundo que criamos e fazemos questão de piorá-lo? A maldade assume o lugar da pureza quando o “eu” faz mais sentido que o “nós”, deixando o senso de humanidade, já tão romantizado, esquecido em razão da sua visível inutilidade.

Como manter a pureza juvenil nas cinzentas ruas da cidade, nas noites frias de baixo de um viaduto, na cena do pai sendo preso, da mãe se drogando e dos irmãos crescendo e desaparecendo aos poucos? Talvez, ser criança no mundo dos homens é coisa de gente grande. E somos nós, a tal “gente grande”, responsáveis pelos bandidos que criamos e queremos eliminar, como aquela sujeirinha que empurramos para baixo do tapete da sala.


O crime e sua natureza cruel são indefensáveis. Mas, se somos nós os responsáveis por criarmos um mundo que condiciona crianças ao crime, é também de nossa inteira responsabilidade promover ações – mesmo que isoladas - que evitem o, então, inevitável. A vida e sua natureza sagrada não se encontram somente no feto azarado que insistamos que nasça: a vida está também nos olhos daqueles que estendem os braços e nada fazemos.

O autor é geógrafo, professor e pesquisador

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