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A guerra na Síria

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

O petróleo e seus subprodutos respondem por quase 15% do comércio de commodities do mundo. A demanda por petróleo e gás vai, certamente, continuar crescendo nas próximas décadas, apesar da evidência esmagadora de que a queima de combustíveis fósseis está desestabilizando o clima do planeta. O Oriente Médio detém mais da metade das reservas comprovadas de petróleo do mundo e esta riqueza está na raiz de muitos dos problemas econômicos, sociais e políticos que assolam aquela região. Países como a Noruega, o Canadá, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, que têm receitas elevadas, economias diversificadas e instituições democráticas sólidas, extraem muito petróleo com poucos efeitos nocivos.


Desde o final da Segunda Guerra Mundial a Síria enfrenta períodos de instabilidade por conta do petróleo. O foco inicial dessa turbulência foi a construção da Trans-Arabian Pipeline, que atravessaria o território sírio e levaria petróleo por 1.214 quilômetros, da Arábia Saudita para o porto de Sidon, no Líbano. Construído à revelia dos sírios, entre 1947 e 1950, foi operado, plenamente, pela companhia norte americana Bechtel até 1976 e totalmente desativado em 1990. Em 1970, o general da Força Aérea, Hafez al-Assad, ligado ao Partido Socialista Árabe (Ba’ath), assumiu o poder e estabilizou o país após a guerra do Yom Kippur, em que Israel derrotou a Síria e o Egito. Hafez al-Assad morreu ao sofrer um ataque cardíaco em 2000 e seu filho Bashar al-Assad assumiu o governo.


Telegramas diplomáticos secretos, publicados pelo WikiLeaks (http://wikileaks.org/wiki/CRS-RL32727), revelaram que, pelo menos desde 2005, os Estados Unidos financiam grupos de oposição na Síria. De 2005 a 2010, o valor do financiamento à oposição chegou a 12 milhões de dólares, visando a derrubada do regime de Bashar al-Assad com o intuito principal de viabilizar a construção do gasoduto South Pars (da National Iranian Oil Company) / North Dome (da Qatar Petroleum), através da Síria.

Um gasoduto com extensão de 1.500 quilômetros, ao custo de 10 bilhões de dólares, que levaria gás, principalmente, das águas do Qatar, no Golfo Pérsico, aos mercados da União Europeia. Como era previsto, em 2009 o presidente Bashar al-Assad recusou-se a assinar o acordo, inviabilizando a passagem do gasoduto, muito provavelmente em função dos interesses da Rússia em comercializar seu próprio gás aos europeus.


Em 2011 sai o anúncio da negociação da construção de um gasoduto islâmico, saindo do Irã (campo de South Pars), passando pela Síria até o Líbano, aumentando a influência de Teerã no Oriente Médio e na Europa. Esse gasoduto islâmico faria do Irã, xiita, e não do Qatar, sunita, o principal fornecedor de energia para o mercado europeu. A partir de então (março de 2011), inicia-se o conflito na Síria. O Qatar se empenhou em impedir a construção desse gasoduto e em derrubar o regime de Bashar al-Assad, canalizando para os grupos rebeldes da Síria, no mínimo, 3 bilhões de dólares entre 2011 e 2013, além de oferecer 50 mil dólares como recompensa aos desertores das Forças Armadas sírias (http://www.foreignaffairs.com/articles/syria/2015-10-14). Esses desertores, treinados pela CIA, formaram o Exército Livre da Síria.


Ao que consta, até recentemente, as brigadas islâmicas haviam recebido mais de 400 toneladas de armamentos, desembarcadas na Turquia, dos países do golfo e dos Estados Unidos (http://agora-dialogue.com/intervention-en-syria-derneirs-developpements). A Turquia desempenhou papel crucial na promoção da guerra contra o regime de Bashar al-Assad, quiçá mais do que o Qatar e a Arábia Saudita. Aliada à quase intransponível resistência da União Europeia à admissão da Turquia, existe a vontade do presidente Erdogan em restaurar, ainda que de modo informal, o Império Otomano e para concretizá-lo há a necessidade de submeter a Síria.


O fato político mais importante em relação ao petróleo, porém, e o motivo pelo qual ele causa tantos problemas em tantos países, é que as receitas que proporciona são extraordinariamente vultuosas, não advém de impostos, flutuam de forma imprevisível e podem ser facilmente escondidas. A maioria dessas características pode ser alterada se o poder for dado ao povo, através de seus representantes legitimamente eleitos em um ambiente de total transparência.


O autor é professor titular aposentado do Dpto de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp

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