Diz um velho ditado que “papel aceita tudo”. É uma crítica aos meios impressos de divulgação que sempre procuram o extraordinário para vender jornal nas bancas sem se importar com a realidade objetiva. Isso não é privilégio dos produtos impressos. Os ingleses acham que a diferença entre jornal e rádio é que o primeiro dá para embrulhar arenques, o peixe defumado obrigatório no café da manhã das famílias britânicas.
A televisão faz parte da vida dos brasileiros e os canais se digladiam para conseguir alguns pontos no Ibope a qualquer custo. É tão importante que todos os jornais são obrigados a ter várias páginas e até suplementos dedicados às fofocas envolvendo artistas e enredos de telenovelas. Outro dia houve movimentações da chamada “sociedade organizada” (imagine se não fosse) em relação a morte anunciada de um personagem da novela “Mulheres Apaixonadas”. Como não assisto novelas porque histórias seriadas são muito enroladas e isso me deixa nervoso fiquei sem saber se morreu ou não de bala perdida em plena Copacabana. Até as coisas banais como o cabelo chapinha da Fátima Bernardes provocam mais discussões que a reforma da Previdência elaborada para estrepar todos os brasileiros para o resto da vida.
Todo esse intróito foi para comentar a entrevista do Sílvio Santos. Nem é preciso dar muito detalhe porque o brasileiro que não esteve na semana passada internado na UTI sabe a que me refiro. O dono do SBT mora em um condomínio construído pela Disney Corporation chamado Celebration, junto da Disneyworld, na Flórida. As casas custam a partir de US$ 250 mil e são muito requisitadas pelos velhinhos norte-americanos bem aposentados. Lá, a segurança é absoluta e ninguém aporrinha o vizinho. Pode-se passear ao pôr-do-sol e uma placa no portão de entrada do condomínio anuncia que “Aqui a América é mais amável”. O dono do SBT vai ao supermercado sem ser abordado e nem precisa de mordomo em casa para atender a porta o dia inteiro. Pelo menos enquanto não pisar na grama do jardim alheio ou invadir as narinas de qualquer morador com a fumaça do seu churrasco. Os únicos vizinhos requisitados ali são o Mickey Mouse, o Pluto e o Pato Donald.
O Sílvio Santos deveria estar rodeado por esses ícones da ficção quando deu aquela entrevista à “Contigo”. Achou engraçada a pegadinha aplicada à repórter quando disse que estava doente, que se submetia todos os dias a transfusões de sangue, que só tinha seis anos de vida, que não daria tempo de escrever uma biografia, que estava se locomovendo numa cadeira de rodas, que já tinha vendido o SBT.
A “Contigo” esgotou uma edição de 170 mil exemplares e rodou uma segunda impressão. Caíram as ações da mexicana Televisa, que teria comprado o SBT. Para os investidores deve ser uma fria investir num país em recessão. O programa do Gugu conseguiu ultrapassar o Faustão no Ibope depois de meses perdendo audiência, justamente pelo privilégio de ouvir as explicações do patrão, com exclusividade.
Para Sílvio Santos o mundo deve ser uma espécie de Disneylandia. No mínimo um circo. Lembra o tempo em que a gente era criança e ligava para o Dias Martins perguntando para o balconista se tinha sardinha em lata. Diante da reposta afirmativa: “então solta a coitadinha...” Hi,hi,hi,uuuu!
Agora entendo porque o Sílvio Santos mora no Celebration junto com outros 20 mil privilegiados. Os condôminos têm direito a ingressar na Disneyworld antes que os portões sejam abertos para o grande público. Assim evitam as filas de até 40 minutos que se fazem diante de cada atração. Sílvio Santos certamente vê “Os piratas do Caribe” todos os dias.
Isso é que é vida. Bem melhor que o Lula e dona Marisa obrigados a fumar no banheiro do Palácio Real de Madrid, longe dos fotógrafos, para respeitarem a liturgia do cargo. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)