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Ameaçadas de morte no tráfico, até 7 crianças são protegidas por programa

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Reprodução
Obrigados pelo Estado a inciar tratamento, os menores são encaminhados ao Caps infanto-juvenil, que funciona 24 horas

Dados revelados pelo Conselho Tutelar de Bauru apontam que, do total de crianças e adolescentes que iniciaram batalha contra o vício de drogas, neste ano, até sete estão inclusas no chamado Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM).

Entre elas estão crianças e jovens de 7 a 17 anos, usuários de drogas que passaram por tratamento no Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD-3), conhecido como Caps infanto-juvenil, e que, após o atendimento inicial, precisaram de acolhimento em outras cidades por risco de morte.

"Essas crianças e adolescentes foram inclusas na rede de proteção por deverem dinheiro para traficantes ou até por furtarem os próprios traficantes", detalha Graziela Aparecida da Costa Galvão, presidente do Conselho Tutelar 2, responsável pelo atendimento a regiões periféricas de Bauru na favela São Manoel, no Parque Jaraguá, no Fortunato Rocha Lima, no Ferradura Mirim, no Parque Real e no Santa Cândida, por exemplo.

TRATAMENTO

Crianças de 7, 9 e 10 anos. A mais velha é descrita até como atuante direto no tráfico. É este o perfil de parte dos menores que frequentam, hoje, as reuniões semanais do Caps infanto-juvenil.

Obrigados pelo Estado a inciar tratamento, os menores são encaminhados ao Caps infanto-juvenil, que funciona 24 horas. Este é o único local preparado para atender menores viciados na cidade. Por lá, eles passam por um tratamento terapêutico e ambulatorial, podendo ficar internados por até 14 dias. Após esse período, alguns usuários iniciam participação nas reuniões semanais do Caps. Já os casos mais graves são encaminhados para unidades hospitalares na região, onde continua com a internação. No caso dos envolvidos diretamente com o tráfico e que estão ameaçados de morte, essa opção torna-se obrigatória. "Eles vão para um acolhimento em outra cidades. É um programa extremamente sigiloso. Não posso fornecer mais detalhes", resume Graziela.

A inserção do menor no PPCAM depende da comprovação das ameaças, que são documentadas pelo Conselho Tutelar por meio do relato dos próprios menores ou dos pais e familiares.

PROTEÇÃO

Instituído em 2007 pelo governo federal, O PPCAM é encarado como uma das estratégias para o enfrentamento da letalidade infanto-juvenil.

Além do Conselho Tutelar, outros órgãos como o Poder Judiciário e o Ministério Público, considerados como portas de entrada para o enfrentamento ao vício, também incluem menores no PPCAM. Estas instituições são responsáveis ainda pela fiscalização e aplicação da garantia dos direitos dos jovens.

"O programa é algo que ajuda essas crianças e adolescentes a enfrentar o vício. Na medida em que eles deixam o ambiente em que viviam e são integrados em outra realidade, tudo fica mais fácil", acrescenta Graziela. A proteção ocorre em tempo integral e com convivência familiar. Ou seja, ao saírem de Bauru, os menores são recebidos por famílias acolhedoras ou abrigos.

O programa custeia a permanência da família em outra cidade. Mas, em nenhum dos casos atendidos pelo Conselho 2, as famílias dos usuários aceitaram ir com os filhos. Elas apenas os visitam...

Por dia, seis pais procuram os conselhos para tratar filhos dependentes de drogas em Bauru

De cada 35 atendimentos diários no balcão dos Conselhos citados, ao menos seis são de pais desesperados por ajuda para tratarem os filhos. 

"São pais que, geralmente, tiveram percepção tardia do vício e que não sabem o que fazer, ou chegam aqui até querendo entregar os filhos, porque não os aceitam mais, não os querem mais em casa por causa do uso abusivo de drogas", aponta Graziela.

Presidente do Conselho 1, Márcia Benevenuto destaca que o encaminhamento ao Caps AD-3 é feito com urgência. Lá, além do tratamento, a unidade promove atividades terapêuticas, educativas e preventivas, proporcionando a reabilitação psicossocial dos usuários.

Na maioria das vezes, no entanto, o menor volta ao vício, causando efeito "boomerang".

"A recaída é muito comum. Sem estrutura social, econômica  e da família para recomeçar, ele acaba voltando para a droga. Sem a família, o sucesso no tratamento é quase nulo. Então, esse menor acaba sendo reencaminhado", afirma Márcia.

Um dos métodos que se mostra mais eficaz quando o assunto é tratamento, é o acolhimento do pós-internação no Caps. "Nos abrigos, eles têm acompanhamento integral e não precisam voltar para o ambiente de violência. Acabam se fortalecendo e se reestruturando para enfrentar o vício", avalia Márcia.

POUCO TEMPO

A falta de uma comunidade terapêutica ou de internação com tempo de tratamento maior em Bauru também colabora com o problema. 

"A maioria quando sai de lá (Caps infanto-juvenil), a primeira coisa que faz é usar droga", comenta Márcia. 

Para ela, um tempo de desintoxicação maior deveria ser considerado.

Crescimento há 5 anos

Atuante no combate direto ao tráfico de drogas, a Polícia Militar de Bauru diz que há 5 anos tem notado o aumento de crianças e adolescentes no tráfico na cidade. "Além de usar, eles também colaboram com o tráfico, muitas vezes porque convivem com isso na família", comenta o tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, comandante da PM em Bauru. A preocupação aumenta a medida que cresce também o número de crianças que surgem em meio às operações policiais. "Eles não têm noção do certo e do errado porque vivem em um ambiente violento. Chegam a enfrentar a própria PM", pontua o comandante.

13 anos e uma vida de gente grande

Foi aos 12 anos que José, nome fictício, conheceu o mundo das drogas, aliás ele deu seu primeiro trago na maconha junto com uma turma de amigos. A partir daí, o lança perfume, a bala, o pó (cocaína) e o vício foram consequências. "Eu queria sempre algo mais forte", cita. Hoje, um ano e meio depois, já longe dos semáforos, onde angariava trocados para alimentar o vício, ele enfrenta suas primeiras sessões de desintoxicação no Caps AD-3 e vive cercado de limites.

Limites que tiveram início há dois meses, quando foi detido em um assalto à mão armada e passou a encarar a semiliberdade da Fundação Casa. "Eu fumava uns cinco baseados por dia e devia uma peça de R$ 700,00 de maconha na biqueira. Não teve jeito, tive que partir para o crime, eu era cobrado todo dia", lembra.

Ainda viciado em maconha, ele comemora ter deixado o pó. "A droga me transformou. Não temo mais nada na vida, a não ser morrer ou perder de vez minha família", conta o garoto de apenas 13 anos.

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