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| Lucas Basso discute história do Brasil com jovens em programa voluntário na Estação Ferroviária |
Como resgatar o interesse da parcela de jovens que muitas vezes chega à adolescência com frustração, ansiedade a galope e intolerância? Qual a fórmula para contornar o bombardeio do universo tecnológico, virtual, digital ou eletromecânico, desde a infância, o incentivo comercial a modismos de consumo e comportamento e atrair adolescentes e jovens para o mergulho no aprofundamento, no conteúdo?
Não há, diante da complexidade da discussão, uma só bandeira a ser fincada e, também, nenhuma vara de condão capaz de dissipar todas as angústias. O que há de concreto é que a sociedade tecnológica, de consumo, das convivências líquidas (superficiais) está alimentando focos de desinteresse, desestímulo e frustração de jovens estudantes exatamente em sua fase de maior efervescência biológica e comportamental.
Ao discutir a problemática em torno do relacionamento do público jovem, a psicóloga Carmem Neme, por exemplo, advertiu para a necessidade de percepção do pertencimento, do jovem ser ouvido e compreendido por adultos que, regra geral, foram formados em outra dimensão (da geração não tecnológica, por exemplo).
Em outra contribuição, o coordenador de formação de conselhos escolares da Secretaria de Educação e psicólogo social Celso Zonta colabora com a observação em torno da importância das ações multifacetárias do tema. Ou seja, uma interação entre escola, comunidade, família e modelos de gestão inter-relacionais.
ACOLHER
Para educadores de giz e caneta em mãos, a escola precisa deixar de construir o conhecimento de forma vertical e, no processo pedagógico, ouvir e discutir os conteúdos com o aluno horizontalmente. Atravessar o muro e inserir os pais nessa lógica também é essencial.
Para quem atua em clínicas com agenda lotada de pacientes jovens 'rebeldes', dispersos e desinteressados, a essência está na ausência de afeto na relação entre pais e filhos ainda na primeira infância, condição primeira que se aprofunda em abismo logo depois, onde a "creche-escola" vira depósito de gente e os pais, atribulados, encerram seus dias sem "tempo de convivência" com sua prole.
Para pesquisadores de diferentes matizes, fisgar o interesse do jovem estudante para conteúdos de vida e de conhecimento exige, além de romper com a escola tradicional atual e a falta de convivência afetiva entre pais e filhos, enfrentar o bombardeio de informações que a sociedade gera sobre crianças e adultos, provocando o que uma corrente classifica como "síndrome do pensamento acelerado" de Augusto Cury, também como outro exemplo.
ESTUDO
Em mais de uma pesquisa na universidade pública, como em reflexões em psicologia por Flávia Asbhar na Unesp Bauru, sem prejuízo em levar-se em conta aspectos já indicados, está a sugestão de que a formação dos filhos modernos precisa estar acompanhada do oferecimento de estímulos multiculturais, da leitura à música, do desenho à pintura, da dança ao folclore, do lúdico às brincadeiras que estimulam reações sensoriais naturais.
Qual dessas questões está sob sua mira na criação de seus filhos? Quais ações deixaram de ser acionadas ou quais ferramentas você utiliza ou não tem sequer acesso na tarefa de fisgar o interesse do jovem estudante?
Para Lucas Faccin Basso, 21 anos, que coordena estudo gratuito de história com jovens na Estação Ferroviária, há um paradoxo a ser enfrentado. "Os jovens têm extrema facilidade com a tecnologia e muitos usam essas ferramentas para aprender algo. Mas, por outro lado, esta informação rápida é oferecida fragmentada e o jovem pode ser desestimulado a refletir, a pensar sobre mais de um ponto de vista em torno dos assuntos que estão ao seu redor".
Estímulo e convivência
Para a psicóloga Michela Kauffmann Pires, que reúne experiência em convivência com jovens na escola e, nesta fase, no consultório, os pais abriram mão de educar e conviver com os seus.
“Vamos ser sinceros, regra geral, os pais não convivem com tempo qualificado com seus filhos. Nos primeiros anos, a criança ou fica com a babá para o público com poder aquisitivo ou sob a atenção da creche-escola. Os pais que planejam ter filhos têm de inserir na mudança de suas rotinas tempo diário especial, de qualidade, para a vivência com o filho, desde bebê”, aponta.
Para Michela, sem a correção desse processo de relacionamento em casa, o resultado futuro tende a ser ruim. “A escola precisa mudar conceitos e forma. Ela fala em construtivismo, mas na prática não funciona assim. A creche vira depósito de gente. Mas o fato é que os filhos convivem pouco ou quase nada com os pais. Eles apelam para entreter os filhos para não ter trabalho. E os aparelhos tecnológicos estão à mão”, defende.
Incentivo ao debate
Do ponto de vista da escola, o professor Roberto Magalhães contribui em duas direções. Romper a transferência hierárquica de informação pela escola e compreender o mundo dos jovens.
"A transferência de informação no modelo de educação é hierárquico, estanque. O professor deve alimentar o debate, mas cuidar para não interferir tanto no conteúdo para não gerar ruídos e nem obstruir o incentivo ao pensamento que vai brotar nesses jovens aos poucos, naturalmente".
De outro lado, o professor fala da compreensão com a geração tecnológica. "Não deve ser tirado do jovem o universo tecnológico. Ele nasceu nesse mundo. Os pais e jovens precisam é aprender como usar essa tecnologia, entender que ela não é o fim, mas uma ferramenta de apoio. Outra questão é respeitar e entender o mundo desses jovens. Reconhecer o modo de vida deles, os valores, a dinâmica de pensar e de como usam a tecnologia para se comunicar", sugere Magalhães.
De formação em humanas, o professor de português e redação, complementa: "Não se engessa a vida. Não dá para encarcerar a vida. É preciso não ficar achando que as coisas estão se degenerando, estão mudando. E isso é bom", enfatiza.
O que eles dizem
Laís Fonseca da Costa, 17 anos:
"Vejo que juventude atual, em sua maioria, não possui mais o mesmo interesse e disposição em aprender. Com a mídia, possuem as informações e noticias em mãos de forma muito rápida, banalizada e, muitas vezes, errônea. Isso pode gerar certa acomodação dos jovens e "preguiça" em buscar aprofundamento sobre o que estão lendo ou ouvindo. Já que acreditam estarem aprofundados no assunto em questão".
Giovana Lourenço Crudi, 17 anos
"Existe sim o interesse dos jovens em aprender coisas novas a todo o tempo, mas com pressa e informações "mastigadas". Nossa geração tem muita informação em mãos, então muitas vezes o conhecimento é banalizado por acharmos que sabemos tudo sobre tal assunto, quando na verdade sabemos apenas o título de forma mais complementada".
Ezequiel Rocha Semenzato, 20 anos
"Vivemos em uma era em que somos bombardeados o tempo todo com informações. Cabe a nós as filtrar e aderir para nós o que for útil. Antes da explosão da Internet, os jovens ouviam mais os mais velhos e sábios. Hoje em dia isso se perdeu um pouco, as pessoas preferem estar com seus smartphones em sites de pesquisa ao fazerem a pesquisa com pessoas reais".
