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Um Natal para dividir por todos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Divulgação
Na ponta do lápis e do afeto: a família Dionízio, do Jd. Tangarás, fez "vaquinha" e o valor para comilança e bebidas foi dividido por igual

O espírito de Natal pede que as pessoas sejam mais fraternas, mais solidárias e, na prática, exercita a dimensão de que o encontro permita a distribuição de afeto. Mas, de outro lado, há a exigência de que a contribuição de todos garanta a mesa farta na ceia saboreada, nesta madrugada que passou.

O fato é que a crise econômica, se não aprofunda os laços entre famílias, acaba por pedir, naturalmente ou não, que a despesa seja distribuída de maneira a não gerar sacrifícios adicionais apenas sobre um ou outro membro do clã. O JC acompanhou essa movimentação ao longo da semana.

Assim, reunir a família em noite de véspera de Natal teve outros ingredientes além da tradição.

DIVIDIR PARA SOMAR

É, de fato, um calendário consolidado no Brasil. E de tão habitual, o encontro da esperada ceia permite reunir também gente que passou quase todo o ano em outras localidades. Mas, em relação à tarefa de garantir a mesa farta para a noite de celebração, o mais comum entre as famílias vinha sendo cada um levar um prato. O "dificultador" deste formato é que exige que alguém coordene a distribuição dos pratos entre os integrantes da família. Se não houver alguém com habilidade - ou disposto - para exercer a função de "organizador da ceia", em geral, a reunião natalina acaba gerando esforço - e despesa - maior para um.

Não raro, o bolso ou as tarefas acumuladas recaem sobre o anfitrião. E mesmo que todos levem o prato previamente definido, se a gestão não estiver compartilhada com habilidade, sempre fica para o anfitrião uma "atribuição extra", como a limpeza da casa no dia seguinte, completar o estoque de bebida, acrescentar algum item que faltou...   

E também é certo que esse papel de "gestor da ceia coletiva" pede "jogo de cintura": como fazer com o familiar que perdeu o emprego? Como lidar com o "folgado" que costuma arrumar um jeito de "escorregar" da obrigação de contribuir? A crise econômica acrescenta ingredientes a essa tarefa. Sem vã filosofia, o reconhecimento da dificuldade no bolso de todos acaba impondo, ou facilitando, a necessidade de divisão da despesa.

Porém, em muitas famílias, dividir não é um problema, mas uma forma de interagir. E aqui, cada família contorna a questão a seu modo. Em algumas, dividir a despesa - já com antecedência - não é problema. Ao contrário. A fixação de uma regra objetiva torna a solução, no mínimo, mais simples. Isso vem ficando mais comum.

É o que fazem os integrantes da família Dionízio, no Jardim Tangarás, em Bauru. De uma turma de oito irmãos vivos, Sérgio Dionízio conta que a solução foi simples: "Olha, a gente resolveu com uma vaquinha. Vimos com antecedência o que teria na ceia, sempre alguém faz a conta do que vai gastar e dividimos pelo número de famílias o valor", cita.

Nos anos anteriores, conta Dyonísio, os irmãos, filhos, tios, tias, sobrinhos, primos e agregados se reuniram em Bauru. "Neste ano nós decidimos passar o Natal na casa da minha irmã em Piracicaba. A ceia também lá. Então fizemos as contas e deu R$ 250,00 para cada família. Depositamos o valor da vaquinha na conta dela e ela comprou tudo lá mesmo, para ficar mais fácil. É um valor para garantir a comida e bebida para dois dias, a noite de Natal e o dia seguinte [hoje]. Acho que funciona bem para todos", diz.

JUNTO E MISTURADO

Sérgio comenta que não importa quem come mais ou quem não bebe. "É uma família e como toda família, a gente faz a previsão que atenda a todos para fazer a 'vaquinha'. Claro que um não bebe, outro bebe mais, tem irmão que tem mais filho que o outro. E é todo mundo junto. O que for decidido fazer para a comilança e as bebidas é dividido igual por família. Acho mais prático e não pesa pra ninguém", complementa.

Amigos sempre unidos

Uns tem parentes longe, outros não vão se encontrar com seus familiares na noite de Natal. E ai? Eles ficam sem ceia, sem celebração? De jeito nenhum!

Um grupo de amigos aproveitou o festejo de 25 de dezembro para promover mais um encontro, embora se reunir seja mesmo um hábito entre eles. 

Para André Duarte, trata-se das "turma dos perdidos". "Temos entre os amigos alguns que não têm família por perto. Outros não costumam passar essas datas com a família. E, no fundo no fundo, a maioria da moçada se reúne porque tem afinidades. Criou-se uma turma e os encontros são normais, muito comuns. Então se reunir no Natal é mais um encontro. Mas já mantemos o hábito de se reunir e com isso virou costume rachar despesas. Rachamos bebida, mas rachamos também o valor da faxina para que a casa de quem recebeu a turma não fique bagunçada depois", informa.

Ao pé da letra, é uma turma que se acostumou a estar sempre junto. "E como estamos sempre juntos, a gente aproveita essas datas para ficar sempre juntos. E é tão comum a gente se encontrar que basta um acionar o grupo que já rola. E isso acabou ficando como se fosse uma família", acrescenta Duarte.

Membro da turma, Bruno Oliveira confirma que os amigos preferem estar juntos. "Eu por exemplo moro sozinho e já não passo datas com minha família. Então o grupo foi se juntando e há sete anos que sempre estamos juntos. Eu pessoalmente não faço tanta questão do Natal. Pra mim é uma data como outra. Acho até que a coisa do comércio que envolve a data atrapalha o espírito do Natal que as pessoas tanto falam. O que me incomoda é que por haver incentivo a presentes, consumo, o Natal acaba sendo triste para muita gente que não tem condições financeiras. Então o apelo por presente, comer uma comida especial, acaba favorecendo só quem comercializa e causando a tristeza de muitos. Ficar com a turma porque a gente se curte é muito melhor", profetiza o jovem.

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