As chaves para destravar o município
Vocacionada para serviços e comércio, Bauru precisa criar segmentação tecnológica com alto valor agregado para começar a reverter baixa renda per capita
Como uma cidade que tem a melhor das logísticas, é um dos maiores centros universitários diversificados do País e possui ligações com todas as rotas de grande fluxo de riquezas, Bauru agora precisa superar suas limitações quanto a receber plantas industriais de grande porte. A criação de polos tecnológicos é uma saída estatégica para atrair investimentos com alto valor agregado, apostam economistas ouvidos nesta edição.
Investir em produção de tecnologia com alto valor agregado é a alternativa apontada por consultores em negócios e economistas para que Bauru rompa o ciclo de estagnação e reverta, a médio prazo, a baixa renda per capita (R$ 1.363,81, conforme o IBGE 2010) para uma cidade de porte médio. Mas esta é uma tarefa que terá de ser exercida por mais de uma frente e depende de vários atores sociais.
Sem gerar movimento sincronizado – envolvendo poder público, universidades, representações políticas e de classe -, que foque a criação de polos tecnológicos – começando por demandas potenciais já ativas, como os derivados de serviços de saúde e tecnologia de informação – e sem avançar na mesma direção vocacionada da remodelação e criação de cursos superiores para suprir e alimentar o mercado da mão de obra, esta tarefa ficará mais distante.
Para especialistas, Bauru tem de romper mais de um cordão, diversificar atividades e, ao mesmo tempo, perseguir alto valor agregado. O contraditório é que a Cidade sem Limites dispõe de gama de cursos, da formação técnica à superior, nas mais variadas áreas, vocação educacional que atrai cerca de 40 mil jovens para cá. Derivado disso, o município tem destaque em formação e desenvolvimento de tecnologia de informação, por exemplo. Mas, isoladamente, essa característica tem peso ínfimo nos índices de riqueza interno.
Bauru também conta com uma rede hospitalar referenciada que abriga especialização, em leitos e profissionais, igualmente diversos. Mas, inversamente, não conta com plataformas de desenvolvimento de insumos no setor. E também não tem planta industrial de fabricação de produtos no ramo. Tudo vem ou é feito fora no segmento.
Na outra ponta, a cidade é a última, entre as médias paulistas, que ainda não conta com tratamento de esgoto, não tem disponível a política de manejo de áreas de proteção para seus entornos, está “ilhada” por municípios muito próximos de sua parte já urbanizada em seus estreitos 600 quilômetros quadrados de área e conta com uma máquina pública com ferramentas ultrapassadas e cuja morosidade – pela desídia ou vício – tornam a abertura de empresas e regularização e aprovação de atividades e empreendimentos tarefa morosa.
O desafio de buscar renda interna se confirma com os dados de vulnerabilidade social. Bauru mantém 105 mil pessoas dependentes do programas de transferência de renda ao valor de até meio salário mínimo mais que dobrou sua população carcerária na última década e tem, instalada, a disputa pela terra com mais de 3.200 famílias de integrantes de movimentos urbanos pela agricultura familiar e sem teto.
Assim, o desafio se impõe sobre uma cidade empobrecida, que perdeu pelo menos 8.000 postos de empregos públicos – das mais diferentes estatais aqui sediadas – na década de 90 e que, de lá para cá, não sofreu intervenções governamentais ou de movimento de atração de negócios que gerasse novas oportunidades ou pudesse potencializar as vocações disponíveis. Mas há como reverter essa lógica, defendem especialistas em consultoria e economia.
É preciso plano e ação para atingir ‘movimento de reversão’ no cenário
| Malavolta Jr./JC Imagens |
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| Pinho: “Precisa de plano, focando polo industrial e atração de negócios” |
“Entre os empresários com quem convivo profissionalmente há um ambiente de desmotivação e de falta de perspectiva. Por qual razão o empresário vai tirar dinheiro, que tem rendimento seguro em aplicações, para investir na insegurança e na desesperança política, econômica?”, questiona o economista Fernando Pinho. “O País todo está e vai sentir esse ciclo, mais uma crise cíclica. Em Bauru, em particular, a inação da gestão prejudica ainda mais este cenário. Falta dinamismo, falta plataforma, projeto político de desenvolvimento local. Mesmo com a crise macro, uma cidade bem posicionada regionalmente e com as ferramentas estruturais de logística tem condições de, mesmo a médio prazo, iniciar o movimento de reversão disso”, avalia.
Além da passagem pela convulsão da crise, Pinho acrescenta que o País vive seu processo de envelhecimento. “Além da falta insegurança na questão política e econômica, o País envelhece e quem está com a situação acomodada, ou com sua vida profissional resolvida, não vê sentido em se arriscar em algum projeto ou negócio. A pessoa levou anos para construir uma situação confortável e vai colocar isso em risco? O movimento de saída disso passa pelo País, mas, em nosso caso, depende da ação do poder público e de uma visão articulada dos processos. Qual é nosso projeto regional, nosso plano local de desenvolvimento ancorado em vocações claras, com começo, meio e fim?”, indaga.
Nesse contexto, Pinho comenta que está preocupado com o novo governo. “O despreparo que permeou o ambiente do atual governo para agir na política de desenvolvimento local me preocupa com o novo governo. Não significa prever o pior. Mas temo que o novo governo seja uma versão atualizada do mesmo. E isso seria muito ruim. E que não seja”.
O ambiente na cidade não é de atração de negócios, na visão do economista. “Ao contrário, o empresariado que atua aqui está desmotivado. Não há regras claras para investir, quem vai se instalar fica preso, há demora sem precedentes para ter seu projeto, sua empresa, liberada. E essas pessoas migram de Bauru. Essas empresas estão se alocando em cidades vizinhas. Isso é muito ruim”, complementa.
HÁ SAÍDA?
Para Fernando Pinho, a Prefeitura de Bauru precisa fazer sua “lição de casa” em pontos fundamentais. “Falta método, falta regra, falta segurança jurídica para o empresário investir em Bauru. A prefeitura não cobra seus devedores corretamente, perde R$ 200 milhões de dívida ativa por falhas básicas com cadastro, com processos manuais, com procedimentos realizados de forma precária na dívida ativa. É problema básico, do cadastro, da fiscalização, da inscrição da dívida, da falta de controladoria eficiente, de gestão, de fiscalização, de procedimento. Tem de mudar isso e estabelecer rotinas, controle e responsabilidades. Isso é básico, regra e controle”, elenca.
A correção dos empecilhos da máquina e da gestão garantiriam justiça e eficácia tributária, com ingresso de recursos no caixa. “Corrigir os vícios da máquina é urgente e básico. O plano de desenvolvimento com ações de curto, médio e longo prazo, focando potenciais de atividades existentes e outras a serem desenvolvidas, é igualmente crucial. Quando não se tem nada, o básico é urgente”, reforça.
O empobrecimento da cidade (renda per capita) exige ação direcionada para a atividade industrial. “Não há expansão de produção, receita e de renda per capita se você não focar a atração industrial, que é onde se paga melhor. Mas precisa de plano para isso, focando polo industrial, atividades potenciais e atração de negócios. No comércio e serviços, continuaremos sendo fortes, mas onde a qualificação e o salário são inferiores”.
Para Pinho, é necessário ação de governo para entender o que está acontecendo no movimento da economia e como atuar no processo a partir de Bauru. “Sem profissional com capacidade de visualizar o cenário e onde e como agir não se consegue avançar. É coisa para quem sabe. Tem de criar polos de desenvolvimento e atrair alta tecnologia para mudar essa rota. É nossa única chance. E as universidades têm de ser atraídas para essa ação. E sem perder tempo. O diagnóstico existe. Agora é gerar o plano e ir pra ação”, reforça.
Por fim, o economista sentencia: “Se a gestão municipal continuar de costas para a iniciativa privada, vamos todos naufragar”.
Mão de obra e produção
Para o prefeito cessante Rodrigo Agostinho, a sociedade civil, protagonizada pelo poder público, terá de atuar em várias frentes. “Nós temos o novo marco da lei do ISS a ser sancionado pelo presidente Temer, que vai acabar com a guerra fiscal e, com isso, igualar as ações nesse setor. Então. a atração de empresas vai exigir foco em outros eixos, como melhorar nosso IDH que já é bom para cidades de porte médio, ver o perfil de formação de mão de obra e atrativos do ponto de vista de qualidade de vida pra se morar, com parques lineares urbanos, o tratamento de esgoto resolvido, novo desenho do zoneamento e regras para contrapartidas”, aborda.
Entre as demais vertentes, inclui-se rediscutir com os reitores das universidades instaladas em Bauru o perfil da mão de obra para nossa vocação. “A Unesp e USP pararam no tempo e têm câmpus enormes aqui. Somos fortes em serviços, mas será preciso discutir com as universidades a qualificação. Somos a capital em call center, com maciço uso de jovens para o primeiro emprego, mas isso pode ser sazonal. A área de tecnologia de informação pode ser uma frente que mereça ênfase”, defende.
A administração municipal acrescenta que Bauru reúne um dos principais centros de logística de transporte do Estado, possui 40 mil universitários, uma rede de hospitais e diversos cursos técnicos. “Mas será preciso buscar alternativas que não dependem somente do poder local. A busca de instalação industrial com alto valor agregado é uma ótima alternativa, mas será preciso encaixar projeto pra isso. Não vejo o Aeroporto Regional como alternativa para cargas porque a expansão do Aeroporto de Campinas tem capacidade para agregar volume por mais 20 anos. E não é fácil tirar o volume de cargas próximo do mercado consumidor, São Paulo, e próximo de onde tem matéria prima. E Bauru não tem matéria prima para as principais áreas que atuam com cargas pela via aérea”, considera Agostinho.
Ocupação de solo e vocações
Economistas sugerem que prefeitura defina regras a investidor; escassez de área exige ação rápida
| Douglas Reis |
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| Carlos Sette: ‘É preciso visualizar necessidades’ |
Se o cenário é reconhecidamente ruim para a economia, a cidade não pode perder mais tempo para a regulação das regras de ocupação do solo, tanto para evitar a fuga de investimentos quanto para dar o mínimo de segurança jurídica para o instalação ordenada no perímetro urbano. De outro lado, há ansiedade por ações que busquem gerar novas frentes de vocações para projetos tecnológicos. Esta visão está presente na avaliação de empreendedores, economistas e consultores em Bauru.
No tema “terra”, uma das questões aponta para a reconhecida limitação territorial do município. Os 600 quilômetros estão, no limite, já interligados com a vizinhança, por Agudos, Piratininga e Pederneiras. Nas demais áreas, como na saída para o Aeroporto Regional Bauru-Arealva, já estão previstas regras de proteção do entorno, mas falta regulamentar ou redefinir programas como as instalações ao longo das margens das rodovias, as chamadas Zonas de Indústria, Comércio e Serviços (Zics).
De outro lado, o mercado imobiliário escolheu a região da rodovia Bauru-Ipaussu como a “bola da vez” para o vetor de instalação de condomínios de alto padrão. Neste setor. há duas informações relevantes. Primeiro que, do trevo da Eny até o Condomínio Lago Sul, já estão estabelecidas as condições de parcelamento do solo. Esta parte da ocupação residencial pertence à Bacia do Rio Bauru, portanto livre as implicações de proteção da Área de Proteção do Rio Batalha, mais à frente.
O prefeito cessante Rodrigo Agostinho, esclarece a dimensão da “disputa pela terra” nesse eixo. “Temos nessa região da Bauru-Ipaussu uma área de uns 200 hectares, um trecho de não mais que 3 quilômetros de extensão, que concentra projetos com o maior valor do metro quadrado da cidade. E isso pertence à bacia do Rio Batalha. É nessa região, muito pequena em extensão, mas de grande valor de mercado, que será preciso definir o que pode ser feito. E o Plano de Manejo tem edital para contratar o levantamento em janeiro agora”, conta.
MOVIMENTO SETORIAL
O economista Carlos Sette reforça a espera por dificuldades em 2017. Mas, de outro lado, igualmente chama a atenção para a necessidade de se “visualizar oportunidades”.
“Vamos sofrer no primeiro semestre, que é uma continuação de 2016. No caso de Bauru, como temos forte percentual de atividade em comércio e serviços, a pressão dependerá de cada tipo de atividade. Mas o fato é que alguns setores ainda crescem mesmo nesse cenário. Mas os resultados gerais esperados não são bons nesse cenário”, avalia.
Sette posiciona que as áreas de alimentos, remédios e alguns segmentos de serviços (call center, por exemplo) terão crescimento. “A rede de supermercados tende a manter investimentos planejados. O setor de alimentos também continuará estável. Em farmácias e remédios, o faturamento continuará crescendo. As pessoas ficam mais doentes em ambientes de crise e isso virou dado histórico, infelizmente. Outro setor que continua bem é o ligado à beleza, cosméticos. Isso não para de crescer, conforme análise da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Estranho ou não, o fato é que a crise alimenta a busca por produtos que minimizem algo, e a auto-estima entra para fomentar esse setor”, enumera Sette.
Mas as demais áreas terão problemas sérios. “O segmento de máquinas, equipamentos, onde Bauru tem alguns importantes focos de atuação em planta industrial, vai continuar sofrendo. A questão para os setores que estão sofrendo com a crise é que continuará faltando dinheiro para investir e isso mantém o ciclo de estagnação. O setor de lazer também vai sofrer muito. As pessoas vão continuar a comer menos fora, a ir menos a passeios, a viajar, a visitar alguém com carro”.
Além dessas projeções setoriais, Carlos Sette lembra que as incertezas prosseguem em nível nacional. “Em fevereiro de 2017 está marcada a publicação das delações da Odebrechdt e isso deve balançar de novo o cenário econômico e político dependendo do conteúdo, da abrangência. É um movimento de incerteza que mantém e aprofunda a incerteza, por mais ameno que possa vir o conteúdo das delações”.
É preciso aprimoramento em governança
| Nelson Gonçalves |
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| Alexandre Previero sugere que a administração aproveite o período de dificuldades para avançar em governança |
| Malavolta Jr. |
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| Fernando Benjamin espera ações que ajudem no ambiente de atração a novos negócios |
Consultor com pós-graduação e formação em engenharia econômica, Alexandre Antonio Previero comenta que, a despeito de sentirmos em Bauru, no setor público e privado, as mesmas dificuldades que o restante do País, a administração municipal tem de realizar aprimoramento em governança.
“Os repasses de recursos serão mais escassos se a economia for pior do que já está. É certo que não haverá recursos para sustentar todas as despesas. Mas o que preocupa em Bauru é a pouca disponibilidade de verbas para investimento pela prefeitura. Isso significa que tem de desperdiçar nada, ter eficiência nos gastos e buscar ainda economia. E isso exige processos de governança, de pente fino. Estou apreensivo pelo País e apreensivo com nossa cidade. As ações terão de ser objetivas e rápidas”, arrisca.
Alexandre Previero repete que, na tempestade, não errar é essencial. “Os prefeitos terão de ser muito estratégicos. Escolher com pouco, priorizar, será mais do que necessário, uma exigência. Não errar nas decisões de porte, de impacto, e aplicar governança para se cobrir durante a ‘tempestade’. Se fizer isso, abre o leque para ter fôlego depois”, avalia.
Para o consultor de negócios e gestão de risco empresarial, Fernando Benjamin, falta definição de política para garantir participação por meio de empresas âncoras. “Temos atividades consolidadas em plantas industriais de baterias, em papelaria, em alguns tipos de máquinas, por exemplo. Mas o patamar da atividade industrial precisa esperar, buscar outras áreas que garantam empresas âncoras. Diversificar e atrair. Comércio e serviços vão continuar sendo fortes, é vocação. E os consumidores da região vão continuar comprando aqui. O governo novo, com vontade, energia, precisa sinalizar, deixar claro seu projeto para essa segmentação a partir da indústria porque o cenário é preocupante”, sintetiza.
Benjamin espera que as ações em desenvolvimento econômico municipal criem oportunidade para a fase posterior à crise. “2017 tem de ser usado como preparação, porque a crise é profunda. Mas, se a cidade tiver projeto de atração para desenvolvimento, vai colher isso depois. Não há política que ajude no ambiente para atração de novos negócios”, posiciona. Os números confirmam a preocupação dos especialistas. Metade das ocupações nos Distritos Industriais de Bauru são para serviços. Cerca de 300 empresas estão nos Distritos.
Para criar novos horizontes
Para o economista Carlos Sette, o novo governo precisa traduzir em ações o ambiente de esperança que se renova, naturalmente, com o início da gestão.
“Governo novo supõe entrada com grau de credibilidade e com percentual maior de confiança das pessoas. A questão é aproveitar esse ambiente e agir, com foco e plano. O que eu li sobre a Secretaria de Desenvolvimento é que ela vai agregar ação em tecnologia. Isso é positivo e necessário. Não há como criar novos horizontes sem mexer nisso em Bauru”, aborda Sette.
Nesse particular, o economista sugere ações voltadas, no início, para vocações já estabelecidas. “Temos uma rede de hospitais públicos e privados todos referenciados. Apostar em projeto para esse setor, para serviços e demandas naturais, é natural. Temos boa mão de obra e produtos em softwares, em tecnologia de informação. Mas isso hoje gera serviços para demandas de fora. É um setor potencial para desenvolver, também com polo tecnológico, um projeto definido. Somos fortes em logística de transportes, um dos maiores do Interior. Mas não precisamos ser só transporte nessa área”, sugere.
A avaliação global segue a tendência apontada por outros economistas. “Quem emprega com melhor salário é a indústria e temos de recuperar a capacidade industrial para recuperar a renda per capita que é muito baixa na cidade”, finaliza Sette.
Em busca da integração regional
Discutir estratégias de desenvolvimento conjunto é apontada como medida essencial para a pavimentação do desenvolvimento sustentável
A cidade coração do Estado, há muitos tempo, abdicou do papel de liderança regional na pavimentação de um caminho rumo ao desenvolvimento integrado. A retomada dessa óbvia e natural vocação é um passo essencial para que novas possibilidades e perspectivas se consolidem, inclusive no caminho para a formação da tão sonhada região metropolitana, já realidade em Ribeirão Preto.
Essa construção de médio e longo prazo depende de intensa ação política, oportuno ambiente de negócios, investimentos em infraestrutura, planejamento estratégico, além do espírito empreendedor.
A contribuição de especialistas, empresários e representantes da sociedade civil organizada, capazes de refletir globalmente as vocações e possibilidades regionais, desponta como necessidade primeira para a solidificação do projeto de desenvolvimento que a cidade espera, com a geração de emprego e renda.
O papel do poder público é, sem sombra de dúvida, fomentar esse diálogo, superando a viciada rotina administrativa.
Rodrigo Agostinho, que deixa hoje o cargo de prefeito após oito anos, faz a autocrítica. Segundo ele, quando a “economia vai bem”, a atração de novos investimentos e empreendimentos pouco depende da atuação da máquina.
“Em cenários de estagnação e retração, por outro lado, recai sobre a administração a expectativa de que caminhos sejam apontados, mas ela também fica mais vulnerável nessas situações, quando diminui a arrecadação. Por isso, não tenho tantas certezas sobre nossa capacidade de realização porque nosso planejamento é de curto prazo”, avalia.
Clodoaldo Gazzetta toma posse como prefeito neste domingo e aposta, além de em reformas administrativas e na revisão de leis que, hoje, travam a cidade, na ampliação do debate sobre o futuro da cidade.
Inspirado no modelo do “conselhão”, instituído pelos governos petistas em âmbito federal, o sucessor de Rodrigo quer criar o Fórum de Desenvolvimento e Sustentabilidade, propondo que o setor empresarial, representantes da comunidade e de entidades organizadas reúnam-se bimestralmente para discutir a Bauru que se busca.
Planejamento conjunto
Sobre a liderança regional, Clodoaldo Gazzetta acredita que, em nenhum momento, a cidade deixou de exercer este papel.
“Vista de fora, a cidade ainda é compreendida desta forma. Nós é que, por alguma razão, deixamos de acreditar. Temos que romper paradigmas e fazer o que todo mundo espera da gente”.
Gazzetta diz que já deu início a conversas com outros prefeitos eleitos de outros municípios, sugerindo a criação de um grupo permanente que pensa a região estrategicamente.
Ele pontua que muitas cidades têm problemas semelhantes e, articuladas, terão mais força de diálogo junto a outras instâncias governamentais.
“Seremos os protagonistas desse chamamento regional. Vamos pensar em uma carta de princípios e discutir com quem entende para definirmos qual será nossa vocação. Será a logística? Então vamos centrar esforços nesse sentido. Vamos chegar à conclusão de que é o turismo? Pode ser. A questão é: não nos reunirmos para apenas discutir os problemas, mas sim pensar em ações futuras. Para chegarmos, no futuro, na Bauru como o polo de uma reunião metropolitana, temos que avançar, inclusive na interligação entre municípios por outros modais, além do rodoviário”.
Apesar da sinalização de uma série de medidas de transição, Gazzetta acredita que 2017 já será um ano de realizações.
“Não será só um ano de transição. A Bauru do atraso ficará para trás. A prefeitura, a cidade e a região podem ir bem, mesmo sem recursos. Vamos nos valer de criatividade, eficiência, melhorias na gestão, informações precisas e informatização. Não vamos trabalhar a reboque do dinheiro”, finaliza.
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Tecnologia em Saúde é aposta
O almejado polo especializado na área pode estar aliado à instalação de cursos de Medicina, ainda inéditos em Bauru
Nunca foi tão grande a expectativa de que Bauru tenha seu primeiro curso de Medicina. Projeto selecionado e aprovado pelo governo federal na gestão findada nesse sábado (31) viabilizou a autorização para a abertura de um curso privado, com 100 vagas. Agora, o novo governo dialoga com a Uninove, instituição selecionada pelo Ministério da Educação para a empreitada. No melhor dos cenários, as atividades começariam no segundo semestre de 2017, ano em que as apostas apontam também para o início da instalação de um polo tecnológico na cidade.
Ao menos é nisso que acredita o prefeito Clodoaldo Gazzetta, que já havia anunciado, durante a campanha eleitoral, a conquista desse antigo sonho. À época, ele atribuiu o “trunfo” à relação com Gilberto Kassab, presidente nacional do partido ao qual é filiado e ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
“Esse movimento, agora, está mais intenso do que na campanha. Ganhou viés mais realista, inclusive com a indicação da Aline Fogolin [que será nomeada nesta domingo como secretária municipal do Desenvolvimento Econômico]”, afirma.
Gazzetta diz que, além da sinalização positiva de Kassab, a escolhida para o posto iniciou tratativas para viabilizar o projeto junto à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.
“Diante da chegada do curso de Medicina, a ideia é tirar do papel o polo tecnológico voltado para a área da Saúde. Temos ainda mais convicção de que este é um caminho a ser trilhado em função da grande possibilidade de vinda de mais uma faculdade de formação de médicos, só que pública. Todo esse cenário aponta para que o polo torne-se realidade ainda em 2017. Inicialmente, imaginei que fosse demorar um pouco mais”, afirma.
Antecessor do novo prefeito, Rodrigo Agostinho reitera que a cidade precisa encontrar sua vocação e também aposta na maior interação junto ao parque universitário de Bauru e no valor agregado pela tecnologia como caminhos.
Após governar Bauru por oito anos, ele acredita ainda que estratégias antigas podem ser alternativas para o futuro. “A ferrovia não pode sair da cidade. É um modal que voltará a crescer. Já está acontecendo em outros lugares do mundo. As cidades que retiraram seus trilhos podem ter cometido um grave erro”.
Raio-X da cidade
Bauru: uma cidade que se aproxima dos 400 mil habitantes e, aos 120 anos de autonomia político-administrativa, apresenta imenso potencial de desenvolvimento, mas sofre com barreiras e travas. O município cresceu na rota dos trilhos ferroviários e vivenciou processo de explosão demográfica a partir da década de 1970, mas empobreceu, inclusive, em consequência do fechamento de milhares de postos de trabalho vinculados aos serviços públicos, que tinham por aqui suas referências regionais, após as privatizações de 20 anos atrás.
A população carcerária aumentou e, hoje, mais de 104.490 pessoas, de 42.716 famílias, com renda per capita de até meio salário mínimo, dependem de programas sociais. A média desse indicador (R$ 1.363,81) está abaixo da média estadual (R$ 1.432,00), a despeito do resultado satisfatório no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), classificado como muito elevado.
A demanda por habitação resultou no surgimento de um novo fenômeno, que reúne milhares de trabalhadores urbanos acampados no entorno da cidade.
“A prefeitura está parada no tempo, ficou no século passado. O tempo para a liberação de novos empreendimentos simboliza isso”, diagnostica Clodoaldo Gazzetta.
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