Quem não teve sensibilidade nos dentes por alimentos, mesmo com gengivas perfeitas e sem exposição da raiz na boca? A parte exposta dos dentes é esmalte com 96% de cristais e 4% de água e proteínas. É tecido vivo, microporoso, com circulação de um líquido na sua estrutura mineral que a modifica e caracteriza um metabolismo próprio. É uma coroa tão cristalizada que deixa passar luz, refletindo a cor da dentina subjacente, dando tonalidade branco-amarelada aos dentes.
O fino esmalte reveste a dentina na boca e termina logo abaixo da gengiva. Escovação incorreta, periodontites crônicas e descuidos diários com os dentes podem expor o término do esmalte e pequenas partes da raiz no meio bucal. A dentina na raiz é revestida por uma tênue camada de tecido chamado cemento. A dentina tem 60% de mineral, o restante é proteína e água; o cemento tem 50% cada.
Cada mm3 de dentina tem 10 a 90 mil túbulos vistos apenas no microscópio. Dentro de cada túbulo tem-se um prolongamento citoplasmático, filiforme como fio de cabelo, das células odontoblásticas da polpa ou o “nervo do dente”. Em 10% dos túbulos mais próximos da polpa têm-se pequenos “filetes neurais”, prontinhos para doer, que se ligam em sinapses com os prolongamentos, formando uma rede de sensibilidade. Esmalte e cemento não têm nervos.
Dentes restaurados, com próteses, exposição de raiz ou com trincas e fraturas do esmalte, podem ter dentina exposta em imperceptíveis regiões, justificando a sensibilidade que muitos reclamam nos dentes. Aqui vamos considerar apenas a sensibilidade de dentes e gengivas perfeitos ou hígidos.
Dentina e cemento são flexíveis, deformáveis, com relativa capacidade de absorver forças aplicadas nos dentes, amortecendo-as como esponjas bem duras. O esmalte não, é cristalino, não deformável, é muito duro. Nem cremações com mais de mil graus o desfaz!
Quando uma força mastigatória atua sobre um dente, as pequenas deformações que sofre não tem consequências maiores. Mas, quando uma força oclusal muito exagerada e excêntrica atua no dente com oclusão defeituosa ou “mal encaixado”, a dentina e o cemento se deformam ainda mais e o esmalte não consegue acompanhar.
O resultado são microfraturas do esmalte na região próxima da gengiva onde é mais fino do que nas demais partes (foto). Isto ocorre muito nos pacientes com apertamento dos dentes ou com bruxismo, como é conhecido o ranger noturno. Estas microfraturas não são visíveis e detectáveis, o esmalte e a gengiva estão perfeitos, mas a pessoa tem sensibilidade exagerada e desconforto ao ingerir alimentos quentes ou frios, salgados ou doces. O que fazer?
1º) Detectar as interferências oclusais antigas com facetas de desgaste no dente. O profissional bem treinado fará um diagnóstico preciso e ajuste oclusal, eliminando-se o problema;
2º) Detectar os vícios de apertamento e/ou de bruxismo e usar diariamente as placas acrílicas individualizadas e feitas pelo profissional e seu protético. Muitos “acham” que seus dentes não tem interferências oclusais ou que não apertam ou rangem os dentes. Estes dois vícios são comuns e muito agressivos para os dentes, chegando até fraturá-los.
A eliminação das forças excessivas ou excêntricas faz com que as microfraturas não se movimentem mais e nem se crie novas microfraturas. Se continuar o processo, pode se perder o esmalte cervical (foto). Removidas as forças, as microfraturas se estabilizam e, abaixo delas, a dentina não capta mais as agressões crescentes dos alimentos, ela se esclerosa e fecha seus túbulos naturalmente, dificultando a geração de estímulos sensoriais. Em semanas, pode-se ter eliminado o problema!
Este processo com a perda irregular de esmalte na região cervical se chama “abfração”. Aqui, descreveu-se apenas sua fase inicial representada pelas micro-fraturas (foto). Se intervir antes da perda de esmalte, a sensibilidade será corrigida e sem precisar de restaurações!
Se tens sensibilidade inexplicável nos dentes, mesmo que perfeitos, procure um profissional atualizado! Importante: 20% dos adolescentes e jovens brasileiros tem abfração clinicamente detectável; imagine quantos a têm ainda na fase subclínica como micro-fraturas! Uiii, que dor chata!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.