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| 'Sempre fui muito envolvido com a estética da poesia' |
Sempre questionador, o personagem da Entrevista da Semana deste domingo (8) passou a militar pelo movimento hip hop e tudo o que ele representa ainda na adolescência. Renato Franco Bueno, conhecido como Renato RapNobre, é poeta, organizador do Sarau do Viaduto, coidealizador da Biblioteca Móvel Quinto Elemento e integrante da Casa do Hip Hop.
"Eu tinha uns 13 anos quando descobri o hip hop, na década de 1990. Descobri que havia um movimento negro gritando, uma organização política e um conteúdo artístico além do rap", grifa.
Nascido e crescido no Geisel, RapNobre comenta sobre as oportunidades que o conhecimento e o próprio movimento cultural proporcionam para os jovens, e se mostra um exemplo de tal força: "Muitos de meus amigos de infância se envolveram com a criminalidade ou drogas, infelizmente. O salvar socialmente é abrir outros caminhos. E o hip hop e a literatura são capazes disso. Meu primeiro livro eu peguei na Biblioteca Ramal do Geisel, olha a importância desses projetos", enfatiza. Leia mais.
Jornal da Cidade - Como você descobriu o hip hop e fez dele o seu estilo de vida?
Renato Franco Bueno (RapNobre) - Eu nasci e cresci na periferia, no Geisel. E, nos anos 90, o rap começou a ganhar força. Havia uma casa noturna chamada Sandália de Prata, na cidade, onde eu tive um contato realmente com o que era o rap e descobri os demais grupo da cidade. Em 1997, o grupo Racionais MC's veio a Bauru e eu me apaixonei pelo estilo de vida. Também via muito pela TV. Eu tinha uns 13 anos quando descobri o hip hop. No final dos anos 90, nasceu a revista Rap Brasil, que também me mostrou um movimento que eu não conhecia. Mostrou-me que havia um movimento negro gritando, uma organização política e um conteúdo artístico além do rap.
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| 'Eu gosto de falar do nosso tempo, do hoje, da nossa maneira de amar e da crises humanas, que são muitas' |
JC - De certa forma, você faz parte do grupo que fortaleceu o movimento em Bauru. Quando você passou a militar pela causa?
RapNobre - Não posso dizer que não. O movimento já existia em Bauru e eu fui conhecendo, fazendo amizades e tudo mais. Ativamente, eu passei a integrar o hip hop em 2002. Com uns amigos, montei um grupo chamado De la honra. Começamos a gravar e a ter contato com produção musical. Conhecemos muita gente bacana. Gravamos um CD em 2006, mas nunca foi lançado.
JC - Qual é a sua vertente do hip hop?
RapNobre - Eu sempre cantei. Sempre fui muito envolvido com a estética da poesia, com a estética da escrita, de colocar as ideias, revoltas e angústias no papel. Cheguei a fazer um pouco de grafite e de dança, também (risos).
JC - Você é coidealizador da Biblioteca Móvel Quinto Elemento.
RapNobre - Na verdade, este é um projeto que envolve muita gente. Começamos em oito professores, todos da periferia, que venceram os obstáculos buscando informação e viram na leitura uma saída. E a Biblioteca Móvel foi pensada e formulada justamente na expectativa de que o outro pudesse ter acesso aos livros. A antiga Casa do Hip Hop tinha uma biblioteca, e passamos a levá-la para fora, para fazer a informação circular. No hip hop há quatro elementos e o conhecimento é visto por muitos como o quinto elemento, por isso este é o nome dessa biblioteca móvel, que existe desde dezembro de 2014.
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| Renato RapNobre é o organizador do Sarau do Viaduto |
JC - Quais serão as novidades de 2017?
RapNobre - A gente vem tocando o Sarau do Viaduto desde 2015, com a dinâmica que já acontece há um tempo em São Paulo, como uma ação mais ativa. E fizemos sob o viaduto da Nações Unidas com a Duque de Caxias, um espaço marginalizado. Trouxemos um poeta de fora e, de lá para cá, o formato vem crescendo. Conseguimos um apoio da Lei de Estímulo à Cultura, do município, e queremos fazer parceria com alguns coletivos para fazer um projeto de slam de poesias, que são competições de poesias. Depois, queremos fazer uma antologia poética do Sarau do Viaduto.
JC - Por falar em livro, você escreveu um, certo?
RapNobre - Sim. Estou montando um livro com meus textos, o Escrita Quebradas, mas talvez ainda mude o título. Minhas poesias falam sobre tudo. Há duas artes, acredito: uma que é puro entretenimento e outra que faz refletir. Eu gosto de falar do nosso tempo, do hoje, da nossa maneira de amar e da crises humanas, que são muitas.
JC - A sua paixão pela leitura o levou até a faculdade de Letras, imagino.
RapNobre - Sim. Estou no último ano da faculdade, mas não quero parar de estudar.
JC - Quais são suas atividades profissionais rentáveis, hoje?
RapNobre - Eu trabalho como assistente de departamento pessoal.
| Cuba Fotografia |
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| RapNobre com a esposa Karoline |
JC - Como você analisa a evolução do hip hop em Bauru?
RapNobre - Quando falamos em evolução no movimento, acabamos nos esquecendo do que evoluiu e do que ainda não. Penso que ainda falta sabermos nos organizar estruturalmente e, de certa forma, politicamente. Em relação aos próprios trabalhos, evoluímos muito, e a tecnologia nos permitiu isso em grande parte. O acesso aos agentes públicos da cultura também melhorou muito.
JC - Você também se envolveu ativamente com o Carnaval e futebol do Geisel?
RapNobre - Há um ano não moro mais no bairro, porque me casei e me mudei. Mas eu sempre participei do Carnaval e do futebol, sim. Há um tempo, havia o bloco Flor da Laranjeiras, onde eu desfilei, isso ainda na década de 1990. Também desfilei na bateria da Coroa Imperial. Torci muito pelo Geisel Futebol Clube, mas já fui um torcedor mais ativo nos jogos. Também torcia pelo Laranjeiras Futebol Clube.
JC - O que o hip hop represente para você, pessoalmente falando?
RapNobre - A literatura e o hip hop não me salvaram, mas sim as pessoas que fazem a literatura e o hip hop. Não é bem o movimento que salva, mas as pessoas. Eu me salvei em todos os sentidos, principalmente no social. Meu pai faleceu em 1998, não tenho o nome dele no meu registro. Fui criado pela minha mãe (que também já faleceu), assim como meu irmão. Éramos muito pobres, ela sempre trabalhou como merendeira para nos sustentar e contou com a ajuda da vizinhança, porque é assim que funciona na periferia, você empresta um copo de açúcar, dá um litro de óleo e assim vai. Meu pai estava preso e eu só o via em "saidinhas". Minha mãe tinha medo do caminho que pudéssemos tomar. Muitos de meus amigos de infância se envolveram com a criminalidade ou drogas, infelizmente. O salvar socialmente é abrir outros caminhos. E o hip hop e a literatura são capazes disso. Meu primeiro livro eu peguei na Biblioteca Ramal do Geisel, olha a importância desses projetos.
Perfil
Renato Franco Bueno (RapNobre)
Tem 32 anos e nasceu em Bauru
É casado com Karoline e tem a literatura como hobby
Time: São Paulo e Geisel Futebol Clube
Indicação de leitura: "Incidente em Antares", de Érico Veríssimo; e "A Rosa do Povo", de Carlos Drummond de Andrade
Filme: Documentários, como a 13ª Emenda
Música: Rap e MPB
Nota 10: Para os saraus
Nota 0: Para o governo de Michel Temer
E-mail: renatofrancobueno@hotmail.com



