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Adolescente supera crises de convulsão com arte

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos: Malavolta Jr.
Angela Maria Rodrigues deixou a mesa para o filho desenhar
Paulo André mostra os desenhos que faz como sua terapia

Há três meses, a enfermeira Ângela Maria Jacinto Rodrigues, 54 anos, não consegue usar sua mesa de passar roupa. O móvel virou mesa de desenho em tempo integral de seu filho Paulo André Jacinto Rodrigues, de 17 anos, o caçula da casa. Mas, por lá, nada de reprimendas. Pelo contrário, o jovem recebe todo incentivo da família para ocupar o espaço.

Diagnosticado com a síndrome Sturge-Weber, uma má-formação artério-venosa que acomete um dos hemisférios do cérebro, Paulo André tem superado os efeitos da doença por meio da reprodução de personagens de desenhos animados. Entre os avanços Ângela destaca a interrupção das crises de convulsão do filho, agora mais calmo e determinado.

Por meio de um tablet, Paulo procura os personagens de desenhos animados, a maioria exibida em canais fechados, e os reproduz em maior escala em folhas de papel A3.

“Antes, ele tinha as crises e saía quebrando tudo. Depois que descobriu os desenhos ficou mais calmo, parece outra pessoa. Ele se envolve com a história dos personagens que desenha”, comenta a mãe.

DIAGNÓSTICO

Paulo foi diagnosticado tardiamente, aos 7 anos. Até então, seu caso era tratado como refluxo, explica Ângela. Sem tratamento adequado, o menino apresentava crises convulsivas constantes, o que ajudou a lesionar o cérebro. Glaucoma, trombose, atrofiamento dos nervos e hipotiroidismo foram vários os efeitos causados pelos anos de incertezas. Aos 8 anos, Paulo já estava acamado e completamente debilitado.

“Ele perdeu quase todos os movimentos. E, tudo que ele tinha aprendido na escola quando pequeno, desaprendeu. Foi um retrocesso muito grande”, comenta Ângela.

Pouco tempo depois do início do tratamento, os primeiros resultados surtiram efeito e Paulo pôde voltar à escola. “Foi difícil encontrar um local que o aceitasse, depois que ele terminou o ensino fundamental”, lembra Ângela.

Foi na Escola Estadual Professor Luiz Zuiani que Paulo André conseguiu cursar o colegial no ensino especial e, há três meses, teve seu primeiro contato com a reprodução de desenhos. “Os professores o influenciavam a desenhar na lousa e ele foi gostando. Teve um dia que chegou em casa com uns desenhos bonitos de personagens e me perguntou o que eu achava. Todos nós o incentivamos, postamos até no Facebook. Daí pra frente, ele não parou mais”, lembra a mãe.

Entre as poucas e tímidas palavras que trocou com a reportagem, Paulo se mostrou feliz e consciente do seu próprio avanço. “Hoje, vejo que desenhar, que é uma coisa simples, melhorou minha vida. Gostaria muito de fazer um curso e aprender grafitagem”, diz Paulo. Terapia que trouxe também um novo horizonte ao rapaz. “Ele até já vendeu alguns desenhos para amigos do bairro”, finaliza a mãe.

A síndrome

A síndrome de Sturge-Weber é uma doença extremamente rara, congênita, neurológica e também é uma desordem de pele. É causada por uma má-formação artério-venosa que acontece num dos hemisférios do cérebro, do mesmo lado dos sinais físicos descritos acima. Normalmente, só um lado da cabeça é afetado. É freqüentemente associada com glaucomas, manchas de coloração vinhosa, ataques apopléticos e retardamento mental.

Arteterapia

Psiquiatra que acompanha o caso de Paulo, Demétrio Romão Torres destaca a evolução do quadro do garoto pouco tempo após o contato com o universo dos desenhos, aliás, com o que ele chama de arteterapia. “Houve melhora no comportamento e a patologia foi amenizada, depois que ele começou a fazer algo que lhe dava prazer”, comenta Demétrio.

A arteterapia consiste no uso de recursos artísticos, visuais ou expressivos como elementos terapêuticos. “O Paulo começou a colocar para fora todos os seus conflitos ao desenhar. Observamos isso nos traços, ora marcantes, ora confusos”, comenta o psiquiatra.

A satisfação e reconhecimento que o jovem no desenvolvimento da arte também auxiliaram na melhora de seu quadro de saúde.

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