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Menos comida = mais vida: interessa? por Alberto Consolaro


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Somos um conjunto de "bolinhas de sagu" ou células com 206 formatos diferentes em um gel ou matriz extracelular. Cada um destes tipos de células faz uma parte do corpo e chama-se tecido ou órgão. Se somarmos, teremos 10 trilhões de células. Os grandalhões terão mais células que os menores, variando-se este número!

Algumas células vivem horas, outras meses e, até anos. Para se renovarem multiplicam, duplicam-se por mitose. Imagine que tenhas que duplicar sua casa com frequência! Que loucura, logo eu que detesto mudar de casa, imagine trilhões de células duplicando-se a cada momento.

Duplicar exige cuidado e muita energia, sem considerar a enorme chance de ocorrer defeitos. Todos os dias, repito "todos os dias", temos milhares de células duplicadas com defeito. Se sobreviverem darão origem a um câncer com vida autônoma livre de nossos controles, esses clones tomariam conta de nós internamente!

SEM CÂNCER

Se a célula com defeito perceber que algo está errado, por si só ou induzida, ativará o mecanismo de suicídio celular chamado apoptose comandado pelo gene p53. Se não fizer isto, sobreviverá como célula atípica e cancerosa!

A célula com defeito pode chamar a atenção de células que zanzam pelo corpo à procura de células atípicas e defeituosas para matá-las: são as células NK ou "natural killer", verdadeiros assassinos profissionais que nos livram do câncer todos os dias! São eficientes e poderosos, mas podem falhar e a célula sobreviverá como atípica e cancerosa!

Ainda circulando pelo sangue e tecidos temos os linfócitos T que também reconhecem célula com defeito e induzem sua morte, eliminando-se a possibilidade de sobreviver como célula atípica e cancerosa! Estes três mecanismos de defesa contra células defeituosas atuam diuturnamente. Ao rezar, sejam precisos nos seus pedidos ao sagrado: peçam para os fluidos e as benções fortalecerem o gene p53, as células NK e os linfócitos!

O INTERRUPTOR

Quanto menos células proliferarem na vida, diminui-se muito a possibilidade de células com defeitos escaparem dos mecanismos de controle e possam dar origem ao câncer.

Existe um complexo de proteínas/enzimas dentro das nossas células chamado de mTOR1. Em um ambiente rico em recursos nutritivos, o mTOR1 é acionado e a célula entra em duplicação, criando novas organelas, deixando muitas proteínas e partes não usadas e defeituosas para trás acumulados no seu interior. A reciclagem não ocorre como deveria, nem dá tempo, e os músculos perdem força, as veias e artérias perdem eficiência no transporte de sangue e o organismo vai envelhecendo mais rapidamente.

Quando os sinais externos da célula, via complexo mTOR1, capta que tem poucos recursos nutritivos, ele não instrui a célula a proliferar, ele segura a onda e a duplicação não acontece com velocidade igual quando há abundância de alimentos. Dá tempo para as proteínas e partes não usadas e defeituosas em cada duplicação ser recicladas dentro de vacúolos ou autofagossomas. Os músculos e os vasos agradecem, pois suas células e estruturas ficarão preservados e o tempo de vida aumentará, postergando o envelhecimento.

No solo da ilha de Páscoa ou "Rapai Nui" descobriu-se uma substância que bloqueava a proliferação de fungos: a rapamicina! Ela bloqueia o mTOR1 fazendo as células proliferarem menos. Os camundongos que tomaram rapamacina viveram 25% mais tempo de vida do que os normais: seus músculos e vasos ficam mais eficientes por muito mais tempo! Iahuuuuuu!

O complexo mTOR1 é um "interruptor" do envelhecimento e pode ser desligado por uma ingestão controlada de alimentos ou pela rapamicina! Esta deve ser a razão das dietas pouco calóricas prolongarem a vida. Talvez a frase: "devemos comer para viver e não viver para comer", esteja mais do que certa! Eu também sempre ouvi dizer que os obesos não envelhecem, pois o tempo de vida se reduz!

Talvez seja mais interessante as famílias e amigos se reunirem para conversar e trocar experiências de vida e não para comer! Se não for assim, com o conhecimento gerado, vai dar-nos a sensação de que reunir-se para comer faz parte de um ritual tétrico de suicídio lento e coletivo!

Eu heim, sai pra lá!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. 

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