Tribuna do Leitor

O legado de dom Paulo

Valmor Bolan
| Tempo de leitura: 3 min

Dom Paulo Evaristo Arns tinha carisma. Assim como dom Hélder Câmara e outros, fez parte daqueles que queriam uma Igreja mais próxima do povo, mais em sintonia com o que propunha o aggiornamento do Concílio Vaticano II, até hoje não tão bem compreendido pelas novas gerações. O que o Concílio pedia era mais proximidade com as pessoas para que os padres entendessem melhor a realidade do dia a dia numa sociedade cada vez mais secularizada com novas exigências e apelos.


Era preciso uma linguagem mais adequada para suscitar nas pessoas o sentido da fé, dos princípios e valores cristãos. Por isso, os padres e bispos buscaram mais pastoralidade, como queria o papa bom, João 23. Mas a velocidade das transformações trouxeram novos desafios e ainda hoje há dentro da Igreja incompreensões sobre o que significou o Vaticano II. Dom Paulo Evaristo Arns procurou então viver, na prática, a nova postura de ser Igreja, mais sensível à cultura atual, dando apoio a novas formas de expressões, para que a fé fosse vivida com mais engajamento. Por isso lutou pela liberdade, sendo uma voz respeitada contra a ditadura e na promoção dos direitos humanos.


Pe. Zezinho lembrou que ele também o ajudou, nos tempos da ditadura, o que evitou dele ter sido torturado, dentre outros conselhos que recebera de dom Paulo para seu trabalho evangelizador especialmente junto aos jovens (http://www.arquisp.org.br/padre-zezinho-devo-demais-a-dom-paulo-o-padre-que-eu-sou-hoje). Há, evidentemente, críticas em relação à aproximação de dom Paulo com lideranças políticas e de movimentos populares da esquerda. No seu último ato público, que ocorreu na PUC-SP para comemorar seus 95 anos, foi saudado por João Pedro Stédile e chegou a colocar um boné do MST sobre a cabeça, o que valeu críticas dos setores mais conservadores da Igreja.

De qualquer modo, não podemos ser reducionistas e deixar de ver o conjunto da vida de dom Paulo, para não ficar com uma visão estreita de sua atuação, somente por causa de suas convicções políticas. Na verdade, muitas lideranças da sociedade brasileira, após o movimento das Diretas-Já, acreditaram no PT e nas propostas dos partidos de esquerda, principalmente nas promessas de inclusão social, o Fome Zero etc., até mesmo na defesa da ética na vida pública (e quem não acreditou nisso?). Na hierarquia católica quantos padres e bispos acreditaram no projeto do PT, de inclusão social, ética e demais melhorias! Mas, no conjunto, a vida de dom Paulo foi toda dedicada à Igreja, ao povo, à liberdade, na promoção da paz.


O papa Francisco, em sua mensagem à Arquidiocese de São Paulo, lembrou que dom Paulo, “no seu ministério eclesial se revelou autêntica testemunha do Evangelho no meio do seu povo, a todos apontando a senda da verdade, na caridade e do serviço à comunidade em permanente atenção pelos mais desfavorecidos”. Assim foi dom Paulo, trabalhando junto aos mais pobres, os doentes, os fragilizados da sociedade, indo até as periferias, fazendo - muitos anos antes - o que pede hoje o papa Francisco, para que padres, bispos e cardeais estejam junto com o povo e sintam o cheiro das periferias e das comunidades in loco. Assim agiu dom Paulo, dando exemplo de um sacerdote com respostas firmes aos desafios da modernidade. Dom Paulo deixa o legado da justiça, da liberdade e da paz. Rezemos pela sua alma e por toda a Igreja de São Paulo.

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