Tribuna do Leitor

Muchas gracias

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 4 min

Se dependesse da minha vontade, eu já conheceria muitos lugares do mundo. Embora eu não tenha um espírito aventureiro, sendo uma pessoa que, no dia a dia, aprecia mais a estabilidade das coisas, a segurança da minha casa, gosto de conhecer lugares e culturas diferentes. Infelizmente, entretanto, o meu desejo de viajar, de globalizar meu conhecimento sobre lugares e pessoas acaba sendo tolhido por questões como trabalho e condições financeiras. Aos poucos, porém, conforme vou me organizando, vou ampliando meus horizontes.


E foi assim, pagando em várias prestações que vim parar no Uruguai. Nesse momento em que escrevo, estou na cidade de Montevidéu, na recepção do hotel no qual me hospedo, usando um dos computadores da recepção, já que me esqueci de trazer notebook ou tablet. Registro que, para isso, estou sofrendo um pouco: não consigo encontrar, no teclado, como colocar a cedilha e nem alguns acentos. Contarei, nesse tocante, com a boa vontade dos revisores dos jornais que publicam meus textos para que me façam o favor de, antes de publicar esse, fazerem as correções necessárias. Caso você, leitor, esteja lendo sem essa correção, peço que me perdoe, mas não encontrei meios de digitar corretamente.


Pois bem, a língua não se apresentou como barreira, ao menos. Durante minha vida, acabei estudando espanhol e, pela semelhança com o português, se os uruguaios tem a caridade de falar um pouco menos rápido, é possível entender e se comunicar sem maiores problemas. Desse modo, televisão, rádio e informações escritas são decifráveis com alguma atenção.


Achei o Uruguai, pelo que vi até o momento, um país bem diferente do Brasil em vários sentidos. Aqui, há uma campanha séria pela redução do sódio na alimentação e, para quem é acostumado com comida mais salgada, tudo parece meio sem gosto. Acredito, inclusive, que essa redução seja a responsável pela forma física dos uruguaios, já que a população quase não tem obesos, sobretudo obesos severos.


No verão, aqui em Montevidéu (nao sei se o mesmo se passa no restante do país), as pessoas começam trabalhar somente às 10h. Antes desse horário, é possível encontrar um número muito significativo de pessoas caminhando pela orla do Rio da Prata, usando as praias de água doce para prática de exercícios, lazer e descanso. Notei também que há muitas pessoas idosas, mas o que mais me chamou a atenção foi notar o quanto delas disputa o espaço entre os corredores e ciclistas.


Em um dos dias da minha estadia fui conhecer a cidade de Colonia Del Sacramiento. Para quem pensa em vir ao Uruguai, acredito que esse seja um passeio imperdível. O lugar é repleto de história, charme e conservação. A estrada até lá, partindo de Montevidéu, no entanto, além de monótona, é mal sinalizada e fiscalizada. Incomodou-me a imensa quantidade de corpos de animais que, atropelados, ficam apodrecendo nos acostamentos, sem que ninguém os retire. Cães, tatus e outros pequenos mamíferos que não consegui identificar ficam expostos em um retrato bem cruel da morte.


A comida aqui é muito baseada na carne e em batatas fritas, o que é um tanto sofrido para mim que, aos poucos, venho me abstendo da carne vermelha e de frituras. O curioso é que os pratos são enormes, a comida calórica e as pessoas não são gordas... Exercícios, dormir até tarde e a diminuição do sal talvez sejam, juntos, a explicação para isso.


Uma coisa assusta muito os recém-chegados: a moeda deles. O peso uruguaio é desvalorizado frente ao real e, assim, 1000 pesos são cerca de 100 reais. Então, para o brasileiro, em um primeiro momento, assusta ir comer um simples lanche e pagar 500 pesos. Quando se converte ao real, porém, muitas vezes se percebe que certas coisas aqui custam menos do que no Brasil. Só para se ter uma noção, um almoço em um restaurante, para quatro pessoas, facilmente fica 2 mil pesos, o que é assustador se pensado em números absolutos, mas não tem o mesmo efeito quando se entende a proporção e já se converte tudo automaticamente.


No geral, os uruguaios são um povo muito agradável, cortês e bonito. Como não viajo muito, creio ser pouco provável que eu volte para cá, ao menos a curto e médio prazo, mas irei embora levando boas impressões. Como acontece com os países da América do Sul, muito há a se corrigir e ajustar, mas ficou para mim a aparência de que o povo aqui é mais feliz do que em muitos lugares do mundo.


“Mucho gusto”, Uruguai! Até qualquer hora dessas, “si Dios” quiser...

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