| Malavolta Jr. |
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| Dentista Eduardo Rollo Duarte também destaca a importância de se cuidar da saúde bucal |
Como uma droga para combater o Alzheimer pode ser usada para tratar cárie? O periodontista de Bauru, graduado pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP) e doutor pela USP de São Paulo, Eduardo Rollo, aborda a descoberta revelada por pesquisa na Universidade de Londres e que pode revolucionar o tratamento dentário.
Para o especialista, a descoberta da possibilidade de regeneração da dentina (camada que protege o núcleo do dente - nervo) abre caminho para uma nova concepção do tratamento em consultórios. Ele conta que cientistas da Universidade de Londres testaram uma droga nova para o tratamento do Alzheimer, que é o envelhecimento dos neurônios, das células nervosas no cérebro.
“Como o dente também tem nervo, os pesquisadores de Londres colocaram uma esponja dentro de um dente com cárie, em ratos, com essa mesma droga para o Alzheimer. Esse remédio para a doença provocou uma diferenciação de células tronco que existem dentro dela. Ela também existe no nervo do dente. Célula tronco é uma célula pronta, mas que nasceu e está quieta. Ela tem a capacidade de se diferenciar em vários tecidos dos órgãos do corpo humano. Ela precisa de estímulo para se diferenciar, um choque, uma chave. E isso aconteceu”, descreve.
REVOLUCIONÁRIO
Rollo observa que, a partir dessa experiência, o sistema de proteção do dente então pode ser criado. “Essa célula tronco pode receber um estímulo para se diferenciar e, com isso, gerar dentina, o que é revolucionário para o futuro da odontologia. Não significa que não teremos os tratamentos hoje convencionais. Mas significa que poderemos ter uma ferramenta a mais, uma alternativa moderna, que gera proteção através da própria dentina e isso é fantástico”, pontua.
Ou seja, como boa parte das descobertas em ciência, ao mergulhar em um estudo, os cientistas chegaram a outro caminho. “E nessa pesquisa a chave foi por essa esponja biodegradável em cima da polpa dental com a droga. E essa parte gerou uma camada de dentina protegendo a polpa dental e, com isso, tirando a cárie de perto do nervo. Será um tratamento revolucionário após ser desenvolvido”, comemora.
O especialista em gengiva reforça: “O tratamento restaurador promete revolucionar. Se você protege o dente, gerando nova dentina, você terá menores possibilidades de tratamento de canal, ou menos dor no tratamento e a possibilidade biológica de tratar cárie”.
Eduardo ainda adverte para outra questão. “Não significa tratar a cárie e resolver o Alzheimer. É você usar uma droga usada para tratar nervos no cérebro com problema, típicos do Alzheimer, servindo para fazer a célula tronco criar outro tipo de célula, gerando dentina”, finaliza.
A boca é a ‘porta’ para todo o corpo
Para Eduardo Rollo, o comportamento humano com higiene bucal precisa avançar. A desinformação ou questões culturais arraigadas prejudicam a compreensão de que a boca é a porta e o elo para “alimentar” o desenvolvimento de uma diversidade de doenças e, o que é pior, em outros órgãos do corpo. “A boca produz milhões de bactérias e é a porta de entrada para todo tipo de produto, sólidos e líquidos. Ela integra o corpo humano e tem suas doenças. E isso é provocado por infecções, por bactérias. Ter microrganismos na boca é normal. Mas quando se quebra o equilíbrio desse sistema, com a defesa natural do corpo humano, instalam-se infecções como cárie, gengivite, cistos, canal”, explica.
E aqui reside o maior perigo comportamental. Ter inflamação na boca não é algo normal, como em qualquer outro tecido do corpo. “Se você perde o controle das bactérias que estão na boca, se tem uma inflamação e você não cuida, o organismo pode sofrer com isso. Esse componente cai na corrente sanguínea e circula. Vai para o cérebro, para a próstata e para outras partes do corpo. Um exemplo: mulheres na fase pré-natal e as que querem engravidar. É um risco enorme ter gengivite. Podem ter bebês prematuros e de baixo peso. A boca está ligada aos outros órgãos do corpo e a corrente sanguínea é que faz essa conexão”.
Especialista em gengivas, ele insiste que gengivite é situação crônica, mas de baixa intensidade. “E o leigo não compreende ou entende isso. E como ela demora para se manifestar, as pessoas não ligam. E a inflamação fica na boca muito tempo e sem a pessoa perceber. Existem sinais a observar, como sangramento espontâneo, mudança de cor da gengiva, sangramento repetido ao escovar ou usar o fio dental, inchaço. Se você cuida de sua saúde bucal indo regularmente ao dentista, esses sinais são checados e resolvidos”, orienta.
O alerta é sobre problemas silenciosos. “Inflamação em qualquer parte do corpo precisa ser resolvida. E inflamação não é para ter em lugar nenhum, nem na boca. E, se isso fica silencioso, o problema vai se manifestar anos depois. É difícil relacionar entupimento de artéria, câncer de próstata, com origem em bactéria da boca. Mas é provado a relação entre inflamações nessas e em outras partes do corpo com as bactérias da boca que circularam na corrente sanguínea”, aponta.
“Essas bactérias proliferam e produzem toxinas, que são seus venenos. Essas toxinas caem na corrente circulatória (bacteremia). Isso é bactéria presente no sangue. E a circulação sanguínea vai para todo o corpo. Por isso, as bactérias da boca podem provocar doenças por todo o corpo por esse processo. São doenças, portanto, provocadas pela boca, mesmo à distância da boca. Podem se alojar nos órgãos do corpo humano, inclusive no cérebro”, enfatiza.
E a ciência avança na constatação das correlações entre doenças. Segundo Rollo, já está catalogado que indivíduos saudáveis, que não tinham Alzheimer e desenvolveram a doença depois, apresentaram bactérias da gengivite nos neurônios. “As relações ainda estão sendo estudadas. Mas a literatura é vasta em detectar que as doenças têm componente infeccioso, inflamatório. E várias dessas doenças contam com presença de bactérias da boca. Portanto há relação entre doenças em diferentes órgãos e a constatação da presença de bactérias bucais”, reitera o doutor.
