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Inédita para garotos, vacina contra HPV tem baixa adesão

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 6 min

Agência Brasil
Meninos, agora, também são alvo da campanha de vacinação contra o HPV: ideia é quebrar a cadeia de disseminação do vírus

Meninos de 12 a 13 anos já recebem a vacina contra o vírus HPV em qualquer unidade básica de saúde de Bauru desde o dia 1 de janeiro. Inédita para o sexo masculino, a imunização, contudo, ainda registra baixa procura, informa a Secretaria Municipal de Saúde. A pasta não forneceu o balanço específico dos primeiros dias de vacinação, uma vez que os números são fechados mensalmente. 

A vacina deve reunir duas doses com intervalo de seis meses para este grupo, cuja faixa etária irá regredir anualmente até 2020, quando o mínimo será 9 anos. O público-alvo de meninos que devem ser imunizados no município é de 6 mil, com expectativa de cobertura de 80% deste total durante o ano todo, período em que a vacina estará disponível. Serão contemplados também meninos e homens de 9 a 26 anos, vivendo com HIV/Aids.

Esta categoria, entretanto, deverá tomar três doses, com intervalo de dois e seis meses após a primeira dose, mediante apresentação de prescrição médica. Já para as meninas, a imunização continua indicada na faixa etária entre 9 a 13 anos. Em Bauru, espera-se vacinar 10.500 meninas.

Porém, aquelas que chegaram aos 14 anos sem completar as duas doses da vacina contra HPV ainda podem se imunizar. Ao todo, no Brasil, 500 mil meninas nessa faixa etária não tomaram uma ou duas doses. A estatística para Bauru não foi fornecida pela prefeitura.

Desde 2014 até junho do ano passado, 5,7 milhões de meninas de 9 a 15 anos foram imunizadas com as duas doses no País, número que corresponde a 46% do total. A vacina para o sexo feminino contribui com a redução da incidência do câncer de colo de útero e vulva.

EXPANSÃO

De acordo com o diretor da Divisão de Vigilância Epidemiológica do município, Ezequiel Santos, a baixa procura não é preocupante porque a vacinação é oferecida o ano todo. Ele explica ainda que a expansão da vacina para os meninos, além de prevenir contra os cânceres de pênis, ânus e verrugas genitais, visa aumentar o índice de proteção às meninas. 

"Na maioria dos casos, é o homem que transmite o HPV para as mulheres, por manter relação sexual com múltiplos parceiros ou não usar preservativo. A mulher, por sua vez, acaba sendo a mais prejudicada, pois o câncer de colo de útero é bastante agressivo. Por isso, a vacina era oferecida somente para o público feminino", explica.

Ezequiel observa que o Ministério da Saúde não vinha atingindo a cobertura de vacinação esperada para as meninas, o que culminou na inclusão da imunização também ao grupo do sexo masculino. "Se os meninos estão vacinados, o risco de transmitir o vírus que causa o câncer é menor", frisa.

O Brasil é o primeiro País da América do Sul e o sétimo do mundo a oferecer a vacina contra o HPV para meninos em programas nacionais de imunizações.

MENINGITE C

Também entra em vigor agora a inclusão da vacina contra meningite C para meninos e meninas de 12 a 13 anos, informa Ezequiel Santos. Até 2020, a vacina deverá estar disponível a crianças de 9 a 13 anos.

Antes, a imunização era oferecida apenas para o público dos 3, 5 e 12 meses de idade. A meningite C é o subtipo mais frequente da doença, que é considerada grave e de rápida evolução, com potencial caráter epidêmico.

Vacinação pode quebrar cadeia de infecção e prevenir câncer

Desde 2014, a vacina anti-HPV está disponível no SUS para as meninas de 9 a 13 anos. A decisão do Ministério da Saúde de incluir a imunização dos meninos quebra a cadeia de infecção deste vírus e previne também contra tumores de boca, pênis e ânus.

A decisão atua como uma estratégia para quebrar a cadeia de transmissão, já que o HPV é um vírus transmitido sexualmente. Estudo publicado pelo A.C.Camargo Cancer Center mostra que um em cada três tumores de boca em adultos jovens tem associação direta com o HPV, chegando a 80% nos casos de câncer de amídala. A imunização dos meninos ajudará também na proteção contra câncer de pênis e ânus. Para as meninas, cuja principal incidência associada ao vírus é o câncer de colo do útero, a vacina está disponível na saúde pública desde 2014 para a faixa etária entre nove e 13 anos.

Além de identificar a forte ligação de HPVs oncogênicos com tumores na região, o estudo, publicado na International Journal of Câncer, identificou uma mudança no perfil dos pacientes. De acordo com o cirurgião oncologista e diretor do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do A.C.Camargo Cancer Center e um dos autores do trabalho, Luiz Paulo Kowalski, historicamente esses tumores afetavam essencialmente homens mais velhos, tabagistas e/ou alcoólatras. 

“Vemos que, hoje, esses tumores também atingem os mais jovens (entre 30 e 45 anos), que não fumam e nem bebem em excesso. Entre eles, alguns praticam sexo oral desprotegido”, explica. Somado a isso, acrescenta Kowalski, está o fato de que a incidência esteja aumentando também porque a tecnologia que permite o diagnóstico melhorou em razão do desenvolvimento de exames de biologia molecular capazes de detectar o HPV.

MITOS DIFICULTAM

Ser um incentivo aos jovens para que tenham uma iniciação sexual mais precoce é um dos mitos que dificultam a adesão às campanhas de vacinação contra o vírus HPV. “Pelo que já se viu da campanha junto às meninas, sabe-se que é fundamental que os pais e responsáveis por estes jovens sejam orientados quanto à importância da vacinação tanto para meninas quanto para os meninos”, ressalta Kowalski.

Ainda segundo o especialista, é importante reforçar a comunicação a eles das evidências científicas de sua segurança e eficácia. “São estratégias que podem contribuir para melhorar a adesão dos jovens. Tanto para eles, quanto para os demais, é fundamental também falarmos sobre o papel do sexo seguro como medida de prevenção”, acrescenta.

Por sua vez, Kowalski ressalta também que ter sido contaminado com o vírus está longe de ser uma certeza de que o câncer se desenvolverá. “Queremos deixar claro que o HPV é um vírus muito presente na pele ou em mucosas e afeta homens e mulheres. Muitas pessoas já se infectaram, mas não tiveram verrugas nem câncer. Há mais de 200 subtipos de HPV, sendo que apenas 30 a 40 deles podem causar verrugas genitais e tumores no pênis, ânus, vulva, boca, garganta e, o mais comum, no colo do útero”, explica.

O especialista acrescenta que os tumores de garganta relacionados ao HPV têm melhor prognóstico em relação aos provocados pelo fumo. Eles respondem de forma mais efetiva à quimioterapia e à radioterapia e, muitas vezes, não há necessidade de cirurgia. “Vamos também reforçar que o cigarro segue sendo um fator de risco importante e, quando associado ao álcool, esse risco se potencializa e ambos causam tumores que costumam responder pior ao tratamento”.

Você sabia?

As vacinas protegem contra os dois subtipos do vírus mais associados com câncer e outras doenças nos genitais. Há cerca de 40 tipos de HPV que infectam a região genital, sendo 14 relacionados com o câncer. Porém, os do tipo 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo de útero e também os mais frequentes em tumores relacionados ao HPV na população masculina. A vacina não protege pessoas já infectadas pelo vírus.

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