Polícia

Rebelião destrói presídio em Bauru e recaptura de presos continua

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

Policia Militar/Divulgação
Dois helicópteros Águia, da Polícia Militar, foram mobilizados durante a rebelião e auxiliaram nas buscas dos fugitivos 
Fotos: Policia Militar/Divulgação
Presos são capturados após rebelião e fuga em massa no CPP 3 de Bauru
Aerofoto JC/Aceituno Jr.
Imagem aérea registrada pelo Jornal da Cidade dá dimensão do incêndio no CPP 3

Bauru foi sacudida logo nas primeiras horas da manhã dessa terça-feira (24) por rebelião e fuga em massa registradas no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) 3, o antigo IPA, que abriga detentos do regime semiaberto.

Ao todo, 152 dos 1.430 reeducandos da unidade se evadiram e 110 haviam sido recapturados até a madrugada desta quarta-feira (24), segundo a Polícia Militar.  

Durante a confusão, um fugitivo e também três agentes se feriram, mas sem gravidade. Não houve reféns e nem mortes. 

Embora a Secretaria das Administrações Penitenciárias (SAP) atribua uma apreensão de celular como motivação da rebelião, autoridades, familiares dos presos e pessoas de dentro do presídio não descartam o envolvimento de facções criminosas e também as péssimas condições carcerárias, como a superlotação.

Inclusive, na semana passada, o JC recebeu várias ligações de parentes dos detentos, alertando que o CPP 3 poderia “virar” a qualquer momento. 

Imediatamente após a circulação da notícia da rebelião, a cidade foi tomada por pânico e teve sua rotina alterada com fechamento de algumas lojas e repartições públicas. Boatos sobre diversos crimes ajudaram a reforçar o medo da população. 

Assim que a reportagem do JC chegou em frente ao CPP 3, pôde constatar que três pavilhões da unidade haviam sido tomados por incêndio provocado pelos presos, sendo possível ver de longe a fumaça preta que se espalhou pelas imediações. Segundo a Polícia Civil, 80% da estrutura do prédio foi comprometida. Inclusive, não foi possível realizar a perícia técnica no local, em razão do risco de desabamento. 

MOVIMENTAÇÃO INTENSA 

Era intenso também o vai e vem de viaturas do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, que contou com apoio do efetivo de várias cidades da região. Dois helicópteros Águia, da PM, passaram a sobrevoar a área para auxiliar nas buscas pelos fugitivos. Alguns começaram a ser recapturados logo após a fuga. 

Ainda na frente do presídio, o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Sistema Prisional Paulista (Sindcop), Gilson Pimentel Barreto, detalhou que a rebelião teria começado em um dos alojamentos, por volta das 8h, após apreensão de um celular. 

“A revolta começou devido a isso. Os funcionários apreenderam o aparelho e estavam retirando esse preso, mas o retante não aceitou. Eles, então, investiram contra os agentes e iniciaram o motim, queimando colchões e danificando a estrutura do prédio”, disse. 

Barreto informou que três funcionários sofreram escoriações enquanto tentavam deixar a unidade. “Eles tiveram que correr para a saída e pularam o alambrado. Porém, foram ferimentos leves e passam bem”.

O Grupo de Intervenção Rápida (GIR), que age em casos de conflitos e rebeliões, também foi acionado. A situação começou a ser controlada por volta das 13h, quando o procedimento de retomada da unidade e de contagem dos presos começou a ser realizado.

Alguns detentos foram capturados em cidades da região, sendo que um deles chegou a Avaí. À tarde, outro se apresentou voluntariamente na CPJ, com um advogado.

TENSÃO

Malavolta Jr.
Mãe de preso, Simone revela temor do filho: “Ele disse: ‘ou a gente foge ou morre’”

Segundo a reportagem apurou no local, o clima na unidade já estava tenso há alguns dias e haveria, inclusive, ordem de facção criminosa para “quebrar” a cadeia. A apreensão do celular, entretanto, teria sido o estopim para a rebelião e fuga em massa dessa terça-feira (24). 

Durante a manhã do mesmo dia, familiares dos reeducandos começam a se aglomerar na frente da unidade, em busca de informações. Mãe de um dos presos, Simone Pereira Gabriel, 38 anos, conversou com o JC e disse que, em visita no último domingo, o filho chegou a relatar temor ao falar sobre a possibilidade de um motim nos próximos dias. 

“Ele disse: ‘ou a gente foge, ou morre’. A pressão é grande aqui”, contou a mulher, ao lado da filha Tainara Pereira Rodrigues, 21. As duas choravam muito enquanto aguardavam notícias dos presos.  

“Eu até falei pra ele não fugir, que ia ser pior. Agora, a gente não consegue nenhuma informação e nem sei se meu irmão está bem. Estamos todos muito apavorados”, acrescenta Tainara, ao definir o sentimento dos parentes dos detentos.

30 mil litros de água

A rebelião no CPP 3 de Bauru mobilizou 32 bombeiros entre o efetivo operacional e administrativo, 11 viaturas e, ao todo, foram utilizados cerca de 30 mil litros de água para conter o incêndio, que atingiu 7 mil metros quadrados de área, informou a corporação.

Detentos regredirão ao regime fechado

Em nota, a SAP disse que o tumulto desta terça (24) aconteceu durante revista de rotina e que o incidente iniciou-se após um agente ter surpreendido um preso se comunicando através de celular.

“A situação foi rapidamente controlada pelo GIR, enquanto que a PM atua na recaptura dos evadidos. Não houve reféns. Todos os presos envolvidos no episódio e os apreendidos regredirão ao regime fechado”, destaca. 

O órgão estadual ressalta ainda que as unidades de regime semiaberto, conforme determina a legislação brasileira, não dispõem de muralhas nem segurança armada, sendo cercada por alambrados.

“A permanência do preso nesse regime se dá mais pelo senso de autodisciplina do que a mecanismos de contenção. Os presos que cumprem a pena em regime semiaberto podem obter permissão para trabalhar e estudar fora da unidade penal e pela Lei de Execução Penal poderão visitar os familiares em cinco ocasiões do ano”, finaliza a SAP.

Ministro fala

Na tarde dessa terça-feira (24), após a situação mais tensão ter sido resolvida, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, comentou sobre a situação. Ele reafirmou que o problema do celular motivou a rebelião. “Ele recolheu esse celular e outros detentos se revoltaram com esse agente.”

Moraes ainda falou sobre a anormalidade do fato, uma vez que o perfil do antigo IPA é. “Lá é uma unidade onde normalmente há tranquilidade, em razão de ser de semiaberto. Houve esse episódio que gerou tumulto, mas já retomou a normalidade”, reforçou o ministro da Justiça.

Agradecimento

As imagens aéreas publicadas na edição impressa do JC e no JCNet foram feitas em colaboração com o Aeroclube de Bauru. Agradecemos ao presidente do Aeroclube, Renato Fanton, que, por meio da parceria, possibilitou que um avião levasse nossa equipe para as fotos e vídeos aéreos no antigo IPA e região do conflito.

O JC agradece também aos inúmeros leitores que, ao longo do dia, mandaram fotos e vídeos para a Redação.

Veja os vídeos:

 

 

 

 

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