| Marcele Tonelli |
| Calçadão deserto: fotografia tirada por volta das 12h40 na quadra 5 mostra os efeitos do medo |
A onda de boatos que envolveu a fuga de reeducandos do CPP 3, nessa terça-feira (24), gerou temor e pânico por toda a cidade. Nas primeiras horas de rebelião, a Polícia Militar (PM) designou quase toda sua força patrulha para o local com objetivo de controlar os detentos. Enquanto isso, uma sequência de informações mentirosas sobre rebeliões em outros presídios do município e de crimes variados por Bauru, difundidos por meio de redes sociais e aplicativos de celular, deixou a população com medo e o 190 da PM congestionado.
O resultado de tanto temor combinado com a boataria e a desinformação gerou uma espécie de fechamento em série de estabelecimentos.
80% das lojas no Centro e também de vários bairros como o Vista Alegre, Vila São Paulo, Bela Vista e zona sul fecharam as portas. Algumas redes bancárias, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil também emitiram orientação para que todas as unidades suspendessem os atendimentos entre 10h e 13h. Ainda não foi informado o que será feito a quem não conseguiu pagar suas contas nessa terça-feira (24).
No final da manhã, o prefeito Clodoaldo Gazzetta também interrompeu o atendimento ao público nos serviços municipais.
| João Jabbour |
| Funcionários escondidos em loja na rua Primeiro de Agosto, no Centro, nessa terça-feira (24) por volta das 11h |
| Fotos: Marcele Tonelli |
| Temor: com a loja de portas fechadas, a gerente Adriana Mandelli observava o vazio no Calçadão nessa terça-feira (24), no início da tarde |
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| Por segurança, o Poupatempo também fechou a porta principal durante toda a manhã |
SEGURANÇA AUMENTADA
O Poupatempo também não foi poupado. Por decisão administrativa, a unidade fechou suas portas principais por volta das 10h. Na ocasião, o atendimento à população foi feito por meio de uma entrada lateral, da garagem do prédio. Por volta das 14h, o funcionamento normal da unidade foi retomado.
Em alguns condomínios da cidade e em universidades, porteiros e seguranças redobraram a atenção.
CALÇADÃO DESERTO
Enquanto os aplicativos e redes sociais ajudavam pessoas mal intencionadas e mal informadas a espalharem boatos de assaltos, reféns e até mesmo mortes, no Calçadão da Batista de Carvalho, uma sensação de insegurança tomava conta de lojistas e funcionários.
Entre 10h e 13h, “a maioria dos estabelecimentos fechou”, segundo Aldemiro José Alves, o Zé do Cuecão, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).
O vazio de consumidores no Calçadão também colaborou para que algumas lojas fechassem. “Nós também abaixamos a porta, mas não dispensamos os funcionários. Esperamos a situação acalmar e a Polícia Militar aparecer”, conta Adriana Mandelli, 40 anos, gerente de uma loja na quadra 5 do Calçadão.
Proprietário de uma banca há 35 anos no Centro, Adilson Chamorro, 52 anos, conta que nunca viu uma cena assim no Centro. “Todos abaixaram as portas por causa dos boatos de que a rebelião teria atingido também os outros presídios da cidade. Eu imaginei que era boato, até fiquei com receio, mas não fechei a banca”, comenta o comerciante.
Por volta das 13h, equipes da PM iniciaram caminhadas pelo Calçadão, tranquilizando os lojistas que continuavam no local. Alguns policiais batiam às portas das lojas, dizendo a quem quer que estivesse ali, que estava tudo bem e que o estabelecimento poderia abrir.
MAIS BOATARIA
Entre a enxurrada de boatos, também surgiu o de que houve reféns em shoppings e supermercados. As informações, no entanto, foram logo desmentidas.
No Boulevard Shopping, houve interrupção do atendimento na portaria da rua Condé Francisco Matarazzo apenas para que a segurança fosse reforçada na entrada principal. O local funcionou normalmente, sem intercorrências.
O Bauru Shopping também registrou funcionamento normal e apenas teve o número de seguranças reforçado para garantir a tranquilidade.
O temor também chegou ao Villaggio Mall, onde algumas lojas e restaurantes fecharam logo após 13h. O atendimento seria retomado entre o final da tarde e início da noite ontem, segundo a gerência.
Os supermercados envolvidos nos boatos, Tauste e Confiança Rodoviária, informaram, por meio das assessorias de imprensa, que nenhum incidente foi registrado e as unidades funcionaram normalmente.
NA REGIÃO
Para se ter uma ideia, até estabelecimentos comerciais em Agudos fecharam as portas ontem por conta da boataria.
Arrastão na Nações Norte?
Via de ligação entre a zona urbana e a região do Distrito 3, onde está localizado o CPP 3, a avenida Nações Norte também foi palco de boatos. Informações davam conta de um arrastão cometido no local por presos em fuga, mas o fato foi desmentido pela PM. A movimentação de equipes naquela área ocorreu somente por causa do cerco feito aos presos fugitivos.
Também não houve tiroteio na avenida Duque de Caxias e nem arrastão nas lojas do Centro. A informação de que houve assalto em uma galeria de lojas na quadra 21 da Gustavo Maciel também é mentirosa.
Vale esclarecer ainda que, de acordo com o policiamento, não houve mortos, mas sim alguns feridos durante o motim ocorrido nessa terça-feira (24) no CPP3.
Medo no Distrito 3
Durante a rebelião, um carro foi roubado de uma empresa no Distrito Industrial 3, com objetivo de auxiliar na fuga de alguns presos. Na sequência, houve perseguição e a PM conseguiu capturar os acusados e recuperar o veículo. A movimentação de policiais pelo Distrito, no entanto, trouxe temor aos trabalhadores do local.
“Extraoficialmente, soube que algumas empresas fecharam e dispensaram os funcionários porque o pessoal entrou em pânico com a situação. Até porque alguns fugitivos foram capturados ali no Distrito Industrial”, relata Domingos Malandrino, que é diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp).
Temor também atinge poder público
O pânico que tomou a cidade também afetou repartições públicas. A Câmara Municipal, que, durante o recesso funciona até meio-dia, fechou as portas às 11h. Quase 30 minutos depois, o prefeito Gazzetta determinou a suspensão do atendimento à população em todos os prédios ligados à administração. Os serviços foram retomados às 14h. Só não houve interrupções nas unidades de urgência de Saúde.
O governo justificou que a medida de segurança fora tomada por orientação do comando da Polícia Militar, que negou a informação. Confrontada, a coordenadoria de Comunicação da Prefeitura de Bauru reafirma que Gazzetta havia recebido a orientação do “setor de inteligência, em caráter preventivo, até que todas as informações fossem apuradas”.
Mesmo com os alunos em férias, a Secretaria Municipal de Educação orientou o deslocamento de funcionários lotados em unidades próximas da região do CPP 3 para escolas de outros bairros.
Pela manhã, enquanto havia tumulto no Distrito Industrial 3, a linha do transporte coletivo que atende o local passou a fazer ponto final na quadra 4 da rua Gabriel Rabelo, no Parque Jaraguá. Outras linhas que circulam pelas imediações operaram com pequeno atraso na tabela horário. À tarde, contudo, o serviço foi normalizado.
REEDUCANDOS
A Prefeitura de Bauru informou que os 158 reeducandos do regime semiaberto que prestam serviços para a administração municipal, a partir de convênio entre o município e a SAP, trabalharam normalmente nesta sexta-feira, em atividades externas ou internas.
São 58 vinculados à Secretaria de Administrações Regionais (Sear), 25 à de Obras, 40 à do Meio Ambiente (Semma), 20 ao DAE e 11 à Emdurb.
O governo não informou quantos deles vivem no CPP 3, mas ponderou que os serviços não foram afetados porque são iniciados às 7h, horário que antecedeu o início do motim na unidade.
