Tribuna do Leitor

Tela da ilusão

Salete Cortez - www.saletecortez.com.br
| Tempo de leitura: 2 min

Já em meados do século XIX, o filósofo norte-americano Ralph W. Emerson dizia que: “ (...) O mundo se transformou em um grande lago congelado. Quando você está deslizando sobre uma fina camada de gelo, se você andar devagar, você morre. Se você parar, o chão racha. O mundo em que a gente vive é o mundo que demanda tamanha agilidade, tamanha aceleração, tamanha leveza, tamanha superficialidade, que qualquer profundidade pode colocar a sua vida em risco.”

   

Trazendo esta metáfora para a nossa paisagem atual, desacelerar o ritmo da vida e entrar em contato com suas emoções, limites e dificuldades pode provocar muito desconforto. Alguns encaram como masoquismo, coisa de gente tonta.


O que muitos pedem hoje são soluções fáceis e rápidas. É a tal tirania da felicidade que o filósofo Luiz Felipe Pondé nos aponta. Um narcisismo generalizado da nossa cultura, que prega a felicidade como um objetivo cego a ser alcançado. Só para relembrar, o narcisismo retrata a tendência do indivíduo de alimentar uma paixão por si mesmo.

É claro que o narcisismo existe independentemente das redes sociais, mas é impressionante o quanto o estimula a se reproduzir. Nas páginas, vemos uma sucessão de fotografias que mostram as pessoas sempre alegres, projetando uma independência que não têm, se mostrando como as celebridades que não são, numa busca frenética por atenção e plateia. Segundo o sociólogo polonês Zygmund Bauman, a fragilidade nas relações aponta que a solidão é a nossa epidemia atual.


Uma pesquisa com a finalidade de conhecer os hábitos das pessoas no Facebook realizada pela Universidade de Western foi publicada pelo jornal The Guardian e apontou os seguintes comportamentos predominantes: obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas agressivas a supostas críticas recebidas, vaidade extrema, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas.

Fico intrigada com esta carência afetiva extrema manifestada pelas pessoas, com a adolescência cada vez mais tardia e o pavor do envelhecimento. O lado sombrio deste momento da história, como diz Pondé, é que provavelmente seremos lembrados como as gerações dos ressentidos e ofendidos. Acrescento também a dos decepcionados.


Mas, voltando no raciocínio do primeiro parágrafo, pode ser que um dia alguém se canse de fazer o jogo de superficialidades e passe a correr o risco de deixar o chão rachar, de ver suas verdades absolutas se desmancharem, de se deparar com as questões, que, por exemplo, ele se sente meio perdido, que as pessoas não estão aqui somente para nos aplaudir, que é normal ter medos, que temos limites, que não dá pra ter tudo o que desejamos e que isso é bom, nos torna mais resilientes e dedicados.  


Não podemos generalizar, mas também não podemos negar. Não se deixe iludir com os personagens que vê nas fotos ou pessoalmente nas baladas. Muitos estão completamente submetidos a estes jogos de forças do tipo “beijinho no ombro”. Acho que vale muito mais à pena deixar o marketing social e abraçar quem é real com suas virtudes e limitações. Até porque temos muitas também.

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