A rebelião ocorrida no antigo presídio agrícola (IPA), teria começado depois que um agente penitenciário proibiu o "reeducando" de usar o celular. Trata-se de um caso de nomofobia (no-mobile-phobia), uma nova doença do pós-moderno já inscrita na literatura médica: o medo, ou fobia, de ficar sem celular. Fechamos o ano com 244 milhões de celulares no Brasil, mais de um por habitante, o que explica bem o que é a angústia de viver sem ele, em qualquer ambiente. Ainda mais quando se está confinado, mesmo parcialmente, como no caso de Bauru. Falou-se em "fuga em massa", mas os apenados apenas "renunciaram" ao benefício do semiaberto e ainda tocaram fogo nos colchões e instalações.
Nos últimos dez anos têm sido comuns rebeliões nas prisões brasileiras que deixam um rastro de mortes entre os presos. Essas mortes não derivam da ação policial de contenção, mas por outros presos em razão de conflitos internos e disputas entre grupos criminosos. A baixa capacidade do Estado em controlar a dinâmica prisional, permite a criação de facções que impõem a ordem interna entre a massa de presos. Daí surgem as extorsões, exploração de familiares (inclusive sexual), fontes de arrecadação de dinheiro com venda de locais para dormir, tráfico de drogas, entrada e uso de celulares, compra de armas. O ambiente é pior que o do sétimo círculo do inferno criado por Dante, reservado aos pecadores pelas bestialidades cometidas em vida. A paz interna somente é assegurada mediante acordos (o pacto com o Diabo) e delegação do dia-a-dia prisional às lideranças desses grupos criminosos. A administração sabe da sua impotência, com três agentes responsáveis pela disciplina de 500 a 600 presos degradados e profanados na sua dignidade.
Eis a questão, antes que se queira condenar o smartphone, as redes sociais e a mídia regular por enfatizarem a violência, adulterar números e vender o pânico como produto. A falta de opções ao jovem, a miserável distribuição de renda e a massa de quase 13 milhões de desempregados deveriam assustar muito mais. A inumanidade carcerária é só um dos problemas de uma sociedade extremamente complexa, onde o Estado fracassou na sua promessa de dar a proteção necessária aos indivíduos. Segurança, depois da Saúde, é o tema mais abordado nas campanhas eleitorais. Ambas, instituições falidas. A cultura do medo tem levado as pessoas a intensificarem suas próprias medidas, visando uma suposta diminuição de vulnerabilidade, como a construção de muros e barreiras, ou a se isolarem dentro de suas próprias casas. O comportamento beira à paranoia. Estudiosos dos fatos sociais chamam a atenção para o que denominam de "indústria do medo". O surgimento de um mercado novo e próspero que gera empregos para 1,3 milhão de trabalhadores na área de segurança privada e vem tendo incrementos de 30% ao ano. Quando se espalharam pelas redes sociais notícias sobre a rebelião do IPA, em Bauru, o comércio regular e as repartições públicas fecharam as portas e as ruas ficaram vazias. O pânico tomou conta da população. "Medo coletivo estimula o instinto de rebanho e tende a produzir ferocidade contra aqueles que não são considerados membros do rebanho" - advertia Bertrand Russell.
No imaginário dos ativistas, uma horda de bárbaros estaria invadindo a cidade pela av. Nações-Norte. A sociedade dominada pelo medo coletivo naturalmente passa a fabricar seus próprios inimigos, na medida em que elege algumas classes como sendo perigosas - pobres, condenados, viciados, pretos, prostitutas.
Daí os jargões: "criminoso bom é o criminoso morto"; "que durmam na sujeira que fizeram". Só agrava a segregação social. A hipercriminalização tem como alvo os jovens pobres, os economicamente menos privilegiados, demonstrando a seletividade do sistema penal. Enquanto não resgatarmos as nossas referências morais, a partir da família desagregada, o mundo estará cheio de perigos e não haverá muro que segure, nem o de Trump, avaliado em 20 bilhões de dólares. Bauman chamou de "medo líquido", esse vivido pela sociedade moderna, cheia de liquidez, fluidez, volatilidade, incerteza e insegurança. É nele que vamos nos afogar senão começarmos a rever o problema da violência, desde as suas bases.