Conquistei minha carteira de motorista quando tinha 20 anos, mas meu pai dizia que possuir habilitação para dirigir não me tornava uma motorista. Levei um bom tempo até conquistar a confiança dele e conseguir permissão para passear nas cidadezinhas da região de Mineiros do Tietê. Sair sozinha de carro era bem raro, dirigir durante o período da noite era algo que não fazia parte dos meus planos. Meu pai repetia que confiava em mim, só que não conseguia confiar em quem iria cruzar meu caminho. Eu achava que tudo isso era apenas uma desculpa para não me dar a chave do carro. Ele vivia colocando obstáculos, dizia que eu não saberia dirigir em um trânsito pesado. “Você não é capaz de dirigir em lugares maiores e com fluxo intenso de carros”. Eu me revirava de raiva cada vez que ouvia isso. Reconheço que exista uma preocupação paterna e carinho por trás de cada palavra. Entretanto, eu sempre me senti capaz de realizar o que eu quiser e fazer tudo aquilo que desejar. É que sou o tipo de ser humano que não aceita respostas negativas ou pessimistas.
O tempo foi passando, aos poucos fui conquistando a liberdade para dirigir. Comecei indo até Jaú, depois eu já estava em Bauru, voltava da Unesp por volta das dez e meia da noite. Quando minha vovó ficou doente era eu quem levava ela para o hospital, a dona Alcina dizia que eu dirigia muito bem. Mas eu conquistei a confiança do meu pai apenas oito anos depois de tirar minha CNH. Fizemos uma viagem para Goiás, eu dirigi de Ribeirão Preto até Cristalina.
Dias depois eu estava dirigindo no centro de Brasília, meu pai estava ao meu lado apreciando a paisagem. Foi neste momento que ele percebeu que a menina que ele achava ser incapaz de dirigir em um trânsito pesado estava se virando na capital do país como se estivesse em casa. Lembrei das vezes em que ele disse que eu não conseguiria. Ele sorriu sem graça e disse que naquela época não conseguia ver o meu potencial, que era mais fácil me deixar em casa do que me entregar a chave do carro. Meu pai reconheceu que hoje eu dirijo melhor do que ele, inclusive sou muito mais paciente. Eu ainda deixo ele me corrigir e orientar, jamais vou tirar o direito dele para me ensinar o que ele acha melhor. O mais engraçado foi ele contando para a minha mãe que eu sou uma “cobrinha criada no trânsito”.
Contei esta história para você se recordar da quantidade de vezes em que alguém falou que você não era capaz de realizar algo. Seja estudar, dirigir, viajar, emagrecer, casar ou fazer o que quiser. Ninguém tem o direito de limitar seu dom, quem capacita é Deus e quando Ele quer até o bicho feio obedece. Por favor, continue acreditando em si mesmo, da mesma maneira que um dia eu acreditei em mim e consegui dirigir durante uma noite chuvosa. O tempo irá revelar suas capacidades. Até lá, procure absorver apenas o que acrescenta. Você é o único que precisa acreditar em si mesmo.