| Fotos: Divulgação |
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| No elenco, Laura Kuster, Verônica Migliani, Geovane Froda, Ana Lia Naliato e Lavínia Oliveira; à frente, Mariana Camargo e Aline Prado: jovens falam de empoderamento feminino hoje no teatro |
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| A professora, pesquisadora e diretora de teatro Flávia Hiroki |
Em um processo colaborativo nasceu a peça “Maria vai com as outras”, que integra nesta quinta-feira (2), a 16ª Mostra de Teatro Paulo Neves. A apresentação será às 20h30 no Teatro Municipal de Bauru.
Sob uma ótica inovadora, o espetáculo vai abordar da violência contra a mulher ao lugar que ela ocupa no teatro. Para isso, nada melhor que dar voz às atrizes e ao ator em cena, alunos do Curso de Teatro Paulo Neves.
“Não é um texto linear, nem tem o objetivo de contar uma história, com uma personagem principal. Eu queria saber o ponto de vista delas. Isso nos deu uma linguagem menos realista, até um pouco performática, com muitos movimentos corporais”, explica a professora e pesquisadora Flávia Hiroki, que dirige a peça.
“É um registro de nós mesmas e a desconstrução de algumas coisas. Apesar do tema ser tão sério, tem bastante ironia e humor”.
Para desenvolver a dramaturgia, Flávia criou uma roda de conversa em que as atrizes partilhavam pensamentos, situações e desejos. O resultado é que há muito delas no texto, que abre espaço a improvisações.
“A gente trabalha o empoderamento feminino na peça e com as atrizes. Eu queria dar voz a elas. Levar jovens ao palco falando sobre isso pode repercutir de uma maneira positiva nas pessoas que vão assistir. Nosso discurso não está velado. Muitas pessoas vão silenciando e se sentindo sozinhas, mas não estamos”, destaca. Veja o bate-papo com ela.
JC – De onde surgiu o tema da peça?
Flávia Hiroki – Da minha pesquisa no mestrado na Unicamp. O tema provisório é “Reflexos na cena contemporânea da performatividade e identidades de gênero”. Eu apresentei às minhas nove alunas e um aluno, jovens entre 15 e 20 e poucos anos, porque queria saber como essas questões aparecem para eles, quais ainda existem e como se informam. Tanto no universo feminino quanto no masculino, pois o machismo também atinge os homens. Eles não podem chorar, nem demostrar afeto, por exemplo. Não era a ideia inicial, mas a peça será um capítulo da minha dissertação. Eu ia fazer apenas uma pesquisa teórica de duas peças, só que no meio do caminho senti a necessidade de trabalhar o tema na prática. Foi muito revelador.
JC – Por que essa temática se mantém importante?
Flávia – É algo que eu trabalho não porque está na moda. É uma pesquisa da minha vida, desde a graduação em artes cênicas também na Unicamp. Uma inquietação que eu tenho, levei para minhas alunas e elas também têm. Hoje é mais fácil se assumir feminista, há menos preconceito e estereótipos. As coisas têm que ser ditas. Há avanços, mas a mulher ainda precisa de muito esforço para conseguir o que quer e tem mais responsabilidades. Um homem sai de madrugada sozinho, a mulher precisa ter o dobro de cuidado. As liberdades são diferentes, infelizmente.
JC – O que representa o título?
Flávia – Ele foi tirado de um poema de Alice Ruiz, uma das referências que usamos no processo criativo. As poesias feministas dela ajudaram a pensar poeticamente como é ser mulher. “Maria vai com as outras” é uma expressão que só existe para as mulheres, como se elas não tivessem a própria opinião e fossem sempre influenciáveis. E a gente pegou essa expressão para dar outro sentido, o de união. A gente assume a postura de ir com as outras. De certa forma, a mulher é criada para rivalizar com a outra, um fruto do machismo.
JC – Algo a surpreendeu?
Flávia – Tenho 35 anos e as meninas hoje passam por processos e dificuldades que passei há muito tempo. Mesmo entre os jovens há bastante machismo. Há muito para mudar e o teatro ajuda. Quando você trabalha com a materialidade do corpo dos atores e das atrizes, eles entram em uma veia mais sensível, sente na pele a situação e consegue pensar sobre isso.
JC – Há machismo no teatro em geral?
Flávia – A gente reproduz muito os padrões. A voz dos homens em alguns processos de criação tem mais força que das mulheres. Os grandes diretores, dramaturgos e pensadores de teatro são homens. A maioria dos textos foi feita por homens. Então, as mulheres são retratadas na ótica masculina. Apesar do teatro ser um espaço de contestação, ainda existe o patriarcado. Há muitas mulheres nos cursos de teatro, técnicos e de graduação, mas no mercado de trabalho esse número cai absurdamente. Não sei se elas acabam desistindo porque é um espaço privilegiado para os homens, principalmente nas áreas técnicas.
Serviço
Peça Maria vai com as outras” na 16ª Mostra de Teatro Paulo Neves: nesta quinta-feira (2), às 20h30, no Teatro Municipal (av. Nações Unidas 8-9). Ingressos em https://www.megabilheteria.com, na Casa de Cultura Celina Neves (rua Gerson França 6-66) e uma hora antes no teatro. Valores: R$ 16,00 (inteira) e R$ 8,00 (meia-entrada). Pacotes promocionais: R$ 5,00 (mínimo de 8 ingressos). Informações: (14) 3243-1150.

