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Bocas e ouvidos

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A mensagem que sai da boca nem sempre é a mesma que nos ouvidos entra.  Verdades assim tão consistentes sempre encontraram na voz do povo (que dizem ser de Deus) confirmação proverbial: “Quem conta um conto...”  Exatamente isso. Alguns, não entendendo bem a história, acabam por recontá-la de forma bem diferente, sem perceberem  a mudança que nela produziram. Não é o caso do abelhudo. O abelhudo  age de má fé. Mete  a colher no mingau alheio e, por conta (im)própria, conta muito mais do que  tinha direito de contar. De leitor ou ouvinte,  ele passa a ser, indevidamente, coautor.


Incendiar o circo é coisa que diverte muita gente. Se tudo que está ruim pode ficar pior, então cada nova boca que reconta a história vai logo cuidando de carregar nas tintas. Para apimentar o caso, desgraça pouca é bobagem: tiros, facadas, sangue e, principalmente, muito chifre... Nossa!!! Pegaram a mulher de quem com quem? O mal-intencionado  inventa o  pior possível,  porque quer  “barraco”, quer escandalizar. Coisa desse nosso DNA fuxiquento que, sendo vira-lata,  tudo cheira, tudo revira para que tudo possa feder  mais ainda.


Olhemos, agora, a questão por outro ângulo, o ideológico. Nada muda: a mensagem que da boca saí  nem sempre é a mesma que no cérebro do outro entra. Leitores e ouvintes ideológicos costumam “ler” ou “ouvir” apenas o que  lhes interessa, ignorando tudo o que lhes amarga o dia ou o calo pisa. Mentes preconcebidas são mentes fechadas. Ao lerem um texto, em verdade não o leem, já que estão sempre “lendo” a própria cabeça. Num contorcionismo interpretativo, dão sempre um jeito de encontrar (ou colocar) no texto o que no texto não está.  Nas redes sociais, curtem e compartilham apenas o mel comunitário, já o desgraçado fel bloqueiam. Quem tem sardinha sabe  a brasa puxar.


Num tempo de esquecimento do outro, já não sabemos  dialogar.  Bocas afoitas se atropelam na ânsia de falar; os ouvidos, contudo, teimam em se manter fechados. Engraçado,  as pessoas parecem conversar, mas só estão ouvindo a própria voz.  Por isso,  acabam perdendo  a rica experiência do outro. Ainda não percebemos que muito mais aprendemos ouvindo  do que  tagarelando. Só há diálogo se ouvidos ativos  houver.  Quem só tem ouvidos para a própria boca, acaba emparedado em si mesmo, acaba monologando.


Coisa complicada, parece  que a boca não gosta mesmo dos ouvidos. O culpado certamente é o chamado “ruído”, ou seja, qualquer fator que interfira na recepção da mensagem. Pode ser uma dor de cabeça, um  barulho perturbador, pode ser a tapada orelha do tapado, a ignorância sobre um determinado assunto e, sobretudo, a ignorância absoluta, aquela que não é especializada.


É bem isso, às vezes a burrice é tanta, que pode produzir  a mais absurda deformação da mensagem. Conta-se que uma viúva desejando homenagear o marido, que acabara de morrer, fez contato telefônico com a floricultura. Queria uma coroa bem bonita de flores. “E o que escrevo nas fitas, madame? Pode ditar tudo, que eu anoto sim, direitinho” - disse o atendente. Ela ditou e o funcionário anotou. No  velório, a coroa exibia um texto bastante perturbador: “Descanse em paz, meu grande amor,  de ambos os lados e se houver espaço, encontrar-nos-emos no céu!”


Engraçado, neste caso particular, o ouvido foi inteiramente fiel à boca. Fiel até demais.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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