Tribuna do Leitor

Maior do que Ribeirão Preto

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Durante a construção da ponte Rio-Niterói, os boatos davam conta de que o dinheiro desviado pelos agentes do governo poderia erguer um viaduto entre o Rio de Janeiro e os Andes. Naquela época, porém, não tínhamos Facebook, não tínhamos imprensa livre e nem mesmo juízes e promotores com poder para averiguar tais suspeitas.

Hoje as coisas são diferentes (mas só um pouquinho). Há mecanismos para que, mesmo o cidadão comum, possa conferir o destino do dinheiro público aplicado nisto ou naquilo. O Ministério Público é muito mais atuante e vigilante, mas há também uma farta gama de estratégias desenvolvidas pelos interessados em burlar as regras, bem como para garantir que as segundas intenções permaneçam escondidas. Esta semana, por exemplo, o presidente Michel Temer criou dois novos ministérios, um deles com o único propósito de conferir foro privilegiado a um de seus apaniguados, conhecido como Angorá pelos funcionários do propinoduto da Odebrecht.

Em Bauru, também nesta semana, foi anunciada a proposta de revisão das Áreas de Proteção Ambiental (APAs), para que a iniciativa privada possa ocupar essas áreas com seus empreendimentos. Para que isso aconteça será preciso alterar o Plano Diretor da cidade, um instrumento largamente debatido ao longo dos anos entre vários setores da nossa sociedade. A proposta deve ser, desde já, digerida com um pouco de desconfiança.

Bem, concordemos que o povo poderia dar um crédito para isso, imaginando que se trata de uma ação benéfica para a cidade. Mas aí a gente lembra que estamos no Brasil, lembra da nomeação do Angorá, e fica difícil de acreditar. Há pouco tempo, um vereador bauruense declarou que "se não houver a revisão da APA's, Bauru nunca vai crescer mais do que Ribeirão Preto". A pergunta que não quer calar é: por que raios nossa cidade tem que ser maior do que Ribeirão Preto? O que ganharíamos com isso? Mais periferias sem assistência do Estado? Mais violência? Mais problemas?

Em matéria de meio ambiente, estamos vivendo um tempo de "turning point" no mundo todo. Temos à disposição um farto material científico, produzido pela nata da ciência mundial, que sentencia reiteradamente o desastre ambiental e econômico que está por vir. Se a humanidade não começar a agir conscientemente quanto ao uso dos recursos naturais que o planeta dispõe, o futuro será tétrico. Mais tétrico do que podemos esperar.

Como garantir a seriedade de uma medida irreversível com essa das APAs? Nós temos uma baixíssima qualidade em termos de Estado, uma incompetência patente dos agentes públicos para gerir seja lá o que for, um desleixo notório das empresas privadas que são contratadas para realizar obras, um descompromisso óbvio em fiscalizar leis ambientais. Fica difícil acreditar que o sonho de alguns de ser maior do que Ribeirão Preto não vá se tornar um pesadelo bem cedo.

É claro que há interesses econômicos envolvidos nisso. Em princípio, não há nada de mais em tais interesses provocarem as revisões das APA's, contanto que eles não destruam a cidade e o seu entorno. Mas o que será realmente feito em Bauru com essa mudança? Alguém sabe? Mesmo? Se a população não se manifestar agora, não haverá por que chorar depois. Sobrará para o bauruense apenas as eternas ladainhas da Tribuna do Leitor, quando a chuva vem e destrói tudo. "De quem é a culpa? Até quando vamos conviver com isso?" A resposta é: para sempre. Se o entorno da cidade foi todo cimentado, concretado e ladrilhado, é evidente que a água vai escorrer para baixo e levar tudo.

 

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