| Douglas Reis |
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| Ao lado de sua estimada Lambretta, Chico conta que nasceu em Mombaça, a 600 quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Ele chegou a Bauru ainda menino, aos 5 ou 6 anos |
Ao lado de sua inseparável Lambretta, adquirida em 1962, em uma loja da rua Primeiro de Agosto, na região central de Bauru, Francisco Antônio Florentino de Oliveira, de 87 anos, tem muita história para contar às vésperas de completar 88 anos, nesta segunda-feira. O ferroviário aposentado divide o amor pela já falecida esposa, Ivone Luiz de Oliveira, com a motocicleta, na qual já percorreu boa parte das estradas paulistas e assim o faz até hoje.
Nascido em Mombaça, a 600 quilômetros de Fortaleza, no Ceará, Chico Lambreteiro, como é chamado pelos amigos, chegou a Bauru ainda menino, aos 5 ou 6 anos, logo que perdeu a mãe. O pai trouxe os filhos ao Interior, mais especificamente, a Araçatuba, para ser mestre de obras, durante a construção da ferrovia. O convite, segundo o aposentado, partiu do então presidente do País, Getúlio Vargas, em 1932. Não demorou muito para que a família desembarcasse em Bauru, de onde Chico jamais sairia. Aos 8 anos, já começou a trabalhar. Durante o dia, cuidava da limpeza da cidade e à noite, estudava. Porém, o cansaço impediu que fosse além do 5.º ano do ensino fundamental, o "4.º ano de grupo", conforme costuma dizer.
Em 1946, passou a ser faxineiro da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), onde se aposentou como mecânico, após 35 anos. Em seu quarto, ainda há resquícios dos tempos de ferroviário: várias miniaturas de trens e, até mesmo, uma lanterna de sinalização, que nunca deixou de funcionar.
Ao mesmo tempo, Chico trabalhava como porteiro do Bauru Atlético Clube (BAC), de onde teve sua Lambretta furtada, porém, prontamente recuperada, graças à ajuda do delegado e amigo Edson Cardia. Quando se afastou da ferrovia, assumiu a função de levar algumas crianças até o Colégio Batista de Bauru.
Chico nunca correu do batente e conseguiu conciliar o trabalho com o lazer, garantido, claro, pelo hobby de conduzir sua Lambretta. Inclusive, atualmente, dedica-se às viagens pela região de Bauru e aos bons amigos que conquistou. Confira parte dessa grande história, a seguir.
Jornal da Cidade - O senhor nasceu no Ceará, mas é bauruense de coração, certo?
Francisco Antônio Florentino de Oliveira - Nasci em Mombaça, mas perdi minha mãe quando completei 4 anos. Só a conheço por causa das fotografias. Saímos do Ceará rumo a Araçatuba, porque meu pai participou da construção da estrada de ferro, em 1932. Éramos em 13 irmãos. Meu pai casou-se novamente e resolveu vir para Bauru. Desde então, nunca tive vontade de partir.
JC - Se lembra da infância em Bauru?
Francisco - Comecei a trabalhar muito cedo, aos 8 anos. Eu era funcionário da prefeitura, carpia as ruas. À noite, estudava na maçonaria. Meu prefeito era o doutor Ferraz, um médico. Depois, trabalhei para o Ernesto Monte. Desde criança, era apaixonado por aviação. Já crescido, tive a chance de conhecer Marcos Pontes e Osires Silva, além de fazer algumas aulas de planador, no Aeroclube de Bauru.
JC - O senhor comentou que divide o amor pela esposa com a Lambretta. Como conheceu a dona Ivone?
Francisco - Eu trabalhava com o irmão dela, na Noroeste. Como não me dava muito bem com a minha madrasta, almoçava na casa do meu colega diariamente. Lá, Ivone gostou de mim e namoramos por dois anos. Nos casamos no dia 20 de janeiro de 1953 e ficamos juntos até o dia 7 de junho de 2011, quando ela faleceu, aos 75 anos, em decorrência de um câncer de pulmão. Minha esposa sonhava em ter filhos, mas não podia. No dia 18 de junho de 1965, uma amiga trouxe a Rosana, com apenas 20 dias. Nada se sabe sobre seus pais biológicos. Em compensação, ganhamos uma filha e outros 55 afilhados. O casamento foi tudo para mim. Nós nunca discutíamos. Era tudo na base da honestidade e confiança. Ela também conduzia a Lambretta e viajava comigo. Quando não queria, deixava que fosse sozinho.
JC - E a Lambretta? Como a 'conheceu'?
Francisco - Quando eu estava trabalhando na Noroeste, vi a Lambretta, lá na Primeiro de Agosto, gostei e comprei. Desde então, viajei para Araraquara, São José do Rio Preto, São Carlos do Pinhal, Conchas, Bauru, Pirajuí, Santos, São Paulo, Pederneiras, Birigui, Duartina, Barra Bonita e Tibiriçá. Anualmente, participo do Motoshow, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Mas não vou de carro, não. Vou de Lambretta. É uma viagem de aproximadamente seis horas. Meu sonho era passar pela ponte Rio-Niterói. Não deu. Agora, é praticamente impossível, devido ao movimento de veículos.
JC - Houve uma viagem inesquecível?
Francisco - Quando fui para São Paulo com minha esposa, em 1962, logo que comprei a motocicleta. Ela não tinha medo, não. Até conduzia a Lambretta, inclusive, me levava ao trabalho todos os dias. Porém, Ivone não tinha habilitação para tanto. Certa vez, um guarda chegou a levá-la até a delegacia, mas não deu em nada.
JC - Nunca pensou em vender a motocicleta?
Francisco - Jamais. Em um encontro de motociclistas, chegaram a me oferecer R$ 15 mil, mais o dinheiro do táxi, que me traria para casa. De imediato, recusei. Quando furtaram a Lambretta, quase morri. Era um dia chuvoso e os ladrões a levaram do BAC, onde trabalhava como porteiro. Na hora, liguei para o delegado Edson Cardia, que é meu amigo. E não é que ele achou o veículo, abandonado ao lado do Jornal da Cidade?
JC - Atualmente, quantas viagens faz por ano?
Francisco - Pelo menos, dez. Costumo viajar quando tem encontro de motocicletas ou carros antigos. Inclusive, sou patrono do Clube de Carros Antigos de Bauru, que já me concedeu vários troféus.
JC - Essas aventuras terão um fim?
Francisco - Veja bem, eu sequer uso óculos. Caminho diariamente, subo escadas, enfim, não tenho qualquer problema de saúde. Pretendo continuar até o momento em que barrarem a minha habilitação. A Lambretta é meu remédio, minha sobrevida...
Perfil
Francisco Antônio Florentino de Oliveira
Tem 87 anos e nasceu em Mombaça, a 600 quilômetros de Fortaleza, no Ceará
Tem como hobby a Lambretta, adquirida em 1962, em uma loja da rua Primeiro de Agosto, na região central de Bauru
Tem uma filha, de criação: Rosana Aparecida de Oliveira
Time: Torce para o São Paulo
Música: Nelson Gonçalves, Francisco Alves e Jamelão
Leitura: "É possível! Como transformar seus sonhos em realidade", de Marcos Pontes; "A decolagem de um sonho: a história da criação da Embraer", de Osires Silva
Religião: Católico
Nota 10: Para a já falecida esposa, Ivone Luiz de Oliveira, com que conviveu por 58 anos
Nota 0: Para quem não tem juízo
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