Em meados de 1955, como truqueiro, fui designado pelo meu chefe na Noroeste a viajar para Mato Grosso, com incumbência de averiguar problemas em vagões recém-adaptados com rolamentos. Faria uma parada em Três Lagoas e depois seguiria para Porto Seguro. Lá, veículos com os mesmos problemas aguardavam ao lado do armazém do norte, às margens do Rio Paraguai: Preparei-me para seguir a viagem numa segunda-feira à tarde.
Meu chefe, homem muito legal, sabendo da amizade que eu tinha com Carandá, agente chefe em Carandazal, uma estaçãozinha encravada num bruto sertão, sugeriu-me cumprimento, se me aprouvesse, depois de efetuar a missão. Quase caí de alegria... Avisei Carandá pelo telégrafo, que exultou de contentamento e disse-me que tinha uma história para me contar quando lá estivesse que eu não iria acreditar. Que viesse logo!
Terminando o serviço em Porto Esperança, peguei um trem de volta e parei em Carandazal na sexta-feira à tarde e até me emocionei com a esfuziante alegria de Carandá e sua esposa. Que gente espetacular, meu Deus! Com as rãs já reservadas em um viveiro, fizemos uma homérica pescaria de trairões (lobos) na sotura lagoa semiescondida na mata bruta, ao ponto de pararmos de pescar para não pecarmos pelo excesso: eram muitas e grandes (eu trouxe duas de quatro quilos no refrigerador do trem de passageiros, por gentileza do chefe- de- trem, que acabou ganhando uma).
O chiqueiro escondido no fundo de um bamburro foi armado por Carandá e pegou uma paquinha, não muito grande, mas bonita. Um presentão e carnes de urus embelezavam o cardápio saboroso. "- Você deu sorte"- disse ele, foi um fim - de- semana magnífica. Quero observar que naquela época a caça era totalmente liberada, sem fiscalização e para Carandá era uma circunstancia benéfica e importante, pois podia obter alimentos no meio ambiente, carne e vegetais que também plantava. Isso evitava-lhe longas viagens para distantes locais de comércios, deixando acéfalo o telegrafo e a própria estação, pois era o único servido trabalhando naqueles ermos .
Contou-me o caso que tinha prometido contar, difícil de se dar crédito, mas verdadeiro: que há um mês atrás, tendo armado o chiqueiro este perdeu - veja só - um tamanduá -bandeira que decerto xeretava por lá. Poderia ter saído, pois os paus da paliçada eram baixos. Aí aconteceu que a onça "sua sócia", segundo ele, que vivia rodeando o chiqueiro e surrupiando suas presas sem nenhum trabalho, deu uma "passadinha" por lá , pulou para dentro e atracou -se com tamanduá. E acho que lutaram a noite toda...
-E você não ouviu nenhum barulho, cá...?
- Até que ouvi, mas eu é que não ia ver o que acontecia no meio da noite . Não sou louco amigo... fui de manhã. E sabe o que encontrei lá? Os dois, mortos. O tamanduá ainda agonizava, mas morreu logo. Com tantos bichos "dando sopa" por aí, tinha de ser logo um tamanduá, e bandeira ainda...
Vendo-me com cara de incrédulo e dando risada, sorriu e disse - "Venha ver uma coisa". Levou-me para trás de sua casa onde, para minha surpresa, estavam penduradas as mãos do tamanduá e, ao lado, esticado ainda o couro de uma enorme onça pintada. A sociedade de Carandá com aquela gatona magnifica estava definitivamente desfeita... E abrindo espaço para outras...