Tribuna do Leitor

Aos estudantes secundaristas de Bauru

Por Lucas André Teixeira, doutor em Educação para a Ciência | Faculdade de Ciênci
| Tempo de leitura: 4 min

Mais um ano letivo se inicia e com ele o "ideal" de que "a educação pode transformar a realidade". Entretanto, para além do discurso, a educação na América do Sul coloca em prática a doutrina neoliberal de que "se a economia vai bem, tudo vai bem... a educação, a saúde, o transporte etc."

Em tempos de crise, o resultado mais imediato dessa doutrina é o corte de recursos básicos para a educação e a saúde. No Brasil, especialmente no Estado de São Paulo, isso ocorre desde 2014, quando tivemos a "reorganização escolar" projetada pelo governo Alckmin, com o objetivo de fechar centenas de classes, escolas e remanejar milhares de estudantes e professores de suas escolas e bairros.

Entretanto, há de se destacar que a contradição é uma das determinações dessa sociedade. Ao mesmo tempo que perduram iniciativas de interesses das classes dominantes, há sempre a possibilidade de resistência e luta por nós, que somo explorados. No caso de Bauru, não foi diferente: alguns estudantes de nossa cidade se organizaram para romper com uma educação disciplinadora, moralista e normativa que se alastra pelas salas de aula desse país, e obtiveram um expressivo destaque e projeção no cenário estadual, nacional e internacional.

Mesmo sofrendo repressões e retaliações de profissionais da educação, esses estudantes derrubaram o secretário Herman Voorwald. Junto com ele, derrubaram o projeto de "reorganização da educação", criado por um governo que está a mais de 20 anos no poder desse Estado e que a cada ano precariza ainda mais as condições de trabalho do professor e as condições de aprendizagem dos estudantes.

Não obstante, a crise econômica se agravou de forma mais nefasta no ano de 2016 e o neoliberalismo trouxe novos cortes: impôs a Medida Provisória 746/2016, retomando o projeto ditatorial de exclusão de disciplinas que incitam a reflexão por meio dos conhecimentos artísticos, filosóficos e científicos acumulados pela humanidade; aprovou a PEC/55, limitando investimentos em educação e saúde por um período de 20 anos; e agora se projeta na forma de uma reforma trabalhista e previdenciária com perdas oceânicas para a classe trabalhadora.

Mas como é a luta que dá movimento à sociedade, a organização dos estudantes não deixou "passar batido" mais esse ataque aos diretos básicos da classe trabalhadora. Enfrentando a manipulação ideológica financiada por propagandas falaciosas e manipuladoras, bem como a resistência de vários educadores, diretores, dirigentes e policiais militares, os estudantes de todo o Brasil e de Bauru resistiram e ocuparam aquilo que lhes pertence por direito: a escola pública.

Contudo, em uma conjuntura em que "muros" estão ficando "cinza" e escurecendo a possibilidade de horizontes humanizadores, a repressão policial manteve a ordem e o progresso do neoliberalismo. Mas eis que a "Fênix" urge na luta por uma formação para liberdade em detrimento da formação para submissão e somos tomados com uma ótima notícia: vários estudantes que participaram das ocupações em Bauru e que transformaram suas escolas em "escolas de luta", conquistaram suas vagas em universidades públicas que possuem notório destaque entre as instituições que ainda humanizam ao invés de castrar e punir a liberdade. E o melhor ainda: foram aprovados em cursos de licenciatura!

Contrariando as estatísticas educacionais que a décadas excluem a maioria dos estudantes que moram na periferia e estudam na escola pública, esses adolescentes que deram vida ao movimento secundarista de Bauru, provaram por meio de suas práticas aquilo que para educadores, diretores, dirigentes, gestores e profissionais da educação bauruenses não passa de um discurso falacioso: "a educação pode transformar a realidade".

Taxados por muitos como: "invasores de escola"; "vagabundos"; "drogados"; "desocupados"; "bagunceiros", entre outras atrocidades que costumam denigrir os estudantes que não se conformam com realidade opressora, eles demonstraram para os educadores aquilo que a precarização das condições de trabalho os impedem de enxergar: a verdadeiro sentido de uma educação emancipadora e humanizadora.

Mais do que nos ensinar aos professores, a lição desses estudantes nos identifica: eles se encontram na mesma condição de muitos professores brasileiros: se sentem sozinhos, excluídos, desvalorizados, humilhados e todo dia levam um "7 a 1" na periferia do neoliberalismo. A diferença é que eles lutam, se organizam e resistem em busca de sua liberdade. Que nós, professores, possamos romper com nossos discursos e aprender com a prática de quem luta!

Texto em homenagem a todos os estudantes do Movimento Secundarista de Bauru, em especial: Felipe, Gaia, Gustavo, Carlos, Guilherme, Mauê e Meire Hellen (Agudos), que com suas práticas nos mostraram que a educação transformadora é possível e necessária.

 

Comentários

Comentários