Sim, gordo, rechonchudo ou simplesmente ‘acima do peso’. Bandido bom é esse, que comete os delitos e não consegue fugir correndo da cena do crime. Bom é aquele bandido que assalta a padaria levando somente a coxinha, deixando intacto o dinheiro do caixa. Bandido bom é aquele que sofre com assaduras nas coxas e virilhas; que dá aquela longa risada gostosa, sim, o bom bandido é aquele que está sempre animado, que sorri perante própria desgraça a fim de manter o riso alheio sempre constante. Imagine só, o sistema carcerário brasileiro repleto de gordos felizes, com suas assaduras avermelhadas, consumindo imensas porções de coxinha de frango, não dando um pingo de trabalho?
Aliás, pensando bem, bandido bom é bandido gordo e loiro. Como sabemos, eles possuem ancestralidade nórdica, descendem dos guerreiros vikings e são mais requintados, educados e ‘finos’, comparados a nós - pobres nativos flagelados pelo governo. Estes se tornarão como “semideuses” no badalado mundo da criminalidade.
Melhor ainda, bom é bandido loiro, magro e atlético! Os gordos dão muito trabalho, vai que um deles cai e desce a ladeira rolando, imagina só quantos tubos de pomada para assadura? Tudo muito caro! Vocês já conferiram o preço da coxinha na padaria? Um absurdo... E outra, os gordos são desastrosos! Pensa na vergonha se um deles se engasga com as coxinhas que eu ‘iria’ lhe dar, pois agora desejo servir apenas alface e água sem gás nos presídios. Este seria o modelo ideal de detento do Brasil varonil: ricos, brancos, loiros, magros, europeus, bilíngues, veganos, amantes de felinos e cristãos tradicionais. Imagine só, que aventura, tirar uma selfie com um desses? Seria ‘top’.
O bandido bom e aristocrático possui a divina habilidade de camuflar sua hediondez com pompa, grifes e uma fala calma, quase jocosa, pouco menos que um escárnio. Convenhamos, é uma delícia, pois dessa maneira até nos deixamos ser governados pelos que falam, indubitavelmente, sem erros gramaticais. Bandido bom é aquele que as famílias podem levar para suas casas, apresentando-o aos vizinhos e convidando-o para o jantar. Rouba mas faz. Mata, mas foi porque, coitadinho, bebeu muito na balada de ontem à noite. Ele não teve a culpa. Nem um e nem o outro. A culpa é do malvado sistema, que possibilita que o dinheiro desviado da merenda chegue flutuando nas mãos desses bons bandidos. A culpa é do ciclista, afinal, esse negócio de ciclo faixa é coisa de comunistas...
Agora, quanto aos demais – incluindo os gordos – amarrem-nos em postes e joguem-nos em prisões superlotadas, pois estamos cansados de tanta bandidagem nas ruas. Bandido mal tem que sofrer, pagando cara pelo luxo que consome na prisão. Não é justo que paguemos a comida de maus bandidos – quanto aos bons, abrimos uma exceção. Nós, brasileiros de classe média, pessoas de bem, amantes do verde e amarelo, preferimos os nossos bons e cordiais bandidos de estimação. Preferimos os bandidos que não se trajam de marginalidade. Preferimos os bandidos que escolheram ser bandidos.
Preferimos os bandidos discretos, vintage’s. E preferimos, por fim, nos calar quando os bons bandidos nos pedem silêncio, ordem e progresso.