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Pais unem filhos pelo "brincar livre"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
Pais alugam casa para filhos realizarem atividades livres, da brincadeira na terra, aos brinquedos, dos livros à contação de histórias

Um programa inédito em Bauru está reunindo pais e filhos para fomentar o “brincar livre” que também resulta em aprendizado de vida. No “Lá vou eu”, em um imóvel no Jardim Colonial, a iniciativa surgiu do encontro não programado entre mães que buscavam oportunidade de convivência sem amarras com suas crianças.

Vislumbravam, enfim, um lugar onde pudessem ter contato com a terra e, também, pudessem trocar convivências entre brincadeiras e faixas etárias diferentes. 

Bruna Hamer, pedagoga, é uma das entusiastas do projeto desenvolvido fora do expediente escolar regular. Além disso, é mestranda em psicologia do desenvolvimento e aprendizagem. Mãe de Alice, 5 anos, e Caetano, 1 ano. Criada dentro de um apartamento em São Paulo, na infância, ela decidiu dar uma guinada em sua vida e, por contrapartida, na história de sua família.

“Me tornar mãe me fez querer reconstruir essa história, que é minha e de muitas crianças. Eu quis oferecer um espaço diferenciado para meus filhos e acompanhá-los, quis conviver com eles nessa fase de descoberta da vida”, conta.

Bruna ainda mora em apartamento. “Como não tenho quintal, passei a pensar em um espaço onde houvesse o simples, mas com o contato permanente dos filhos com terra, plantas, ar, grama. Fui buscar espaços públicos com essas características para minha filha. E tem poucos. E falta manutenção nos que existem. E falta presença. Eu ia no Bosque da Comunidade com ela (Alice) com um ano de idade e poucas crianças vão a esses lugares durante o dia. O centro urbano não tem lugar público para a criança”, aborda.

A partir dessa procura, Hamer passou a conhecer mães com os mesmos desejos. E passaram a fazer pequiniques. Depois desse embrião, o grupo de mães passou a se revezar nas casas uma das outras. “A gente começou em um convívio muito familiar e a realizar encontros diários juntos ou com as crianças juntas. Cada uma em um horário”, prossegue a pedagoga.

CONCEITO

Mas elas procuravam relação e outro conceito de convivência para elas e seus filhos. “O poder público em muitos casos tende a andar na contramão dessa ideia. As escolas ou não tem, ou têm poucos espaços com quintais, com natureza, terra. Quase tudo é de cimento. O brincar livre é essencial”, afirma.

Para isso, as “regras” incluem não forçar ninguém a nenhuma brincadeira. Duas monitoras acompanham, participam as atividades e sugerem. “Mas se a criança quiser ficar a tarde toda na areia ela fica. Tem livros, tem brinquedos, tem experimentos, tem contação de história, tem árvores, tem areia, tem grama, tem uma varanda grande, tem cômodos com brinquedos, tem balanço. Tem redes. Há uma indicação de revezamento, mas a criança caba decidindo o que faz. E tem a participação direta dos pais em horários ao longo da agenda semanal de encontros. Não tem divisão de idades”, cita.

“O conceito predominante na sociedade é de espaço de crianças confinadas e com separação de faixa etária. Não, nós quebramos esse mito. E colocamos todas juntas no mesmo espaço. Claro que a criança de um ano tem estímulos próprios de sua idade. Mas ela interagir com uma criança de 10 anos é importante para o desenvolvimento de ambas”.

Para isso, a iniciativa recuperou o grande quintal da avó como concepção espacial. “E é um espaço coletivo que não é só físico. Ele agrega múltiplas idades”.

O ‘conceito poético’ da iniciativa

“Hoje à tarde, depois da escola, vou encontrar novos amigos para brincar e aprender. Uma oportunidade de troca, de observar experiências que não costumo ter acesso onde frequento. E, fique claro, vou a um espaço que não concorre com minhas queridas professoras. Ao contrário. Mas ‘Lá vou eu’. Preciso dizer que gosto muito da oportunidade de conviver com pessoas de diferentes idades. Elas me ensinam. Já ouvi minha mãe dizendo para outra pessoa que “me socializo por lá”. E também posso prestar a atenção e brincar com crianças bem menores que eu.

E não é só isso. Lá, meus pais podem frequentar. Os pais de meus amiguinhos também costumam passar por lá. Sabe o que eu mais adoro lá? Eu não preciso brincar só com o que me oferecem. Eu posso sugerir. E se quiser brincar de outra coisa, tudo bem!

Ah, ia me esquecendo. Eu moro em apartamento. Tenho amigos que moram em casa. Mas não tem graça, elas não têm árvores no quintal, não tem terra. Lá onde eu frequento tem grama, árvores, brinquedos e terra.

Por isso... “Lá vou eu”... 

pelo brincar livre”.

Participação direta em gestão e nas atividades

Para dar sustentação ao projeto, o grupo de pais alugou um imóvel com amplo espaço interno e externo no Jardim Colonial. Foram divididas ações para compras, gestão de contas e outras tarefas. O grupo contratou duas monitoradas formadas em pedagogia. As despesas são rateadas entre os participantes.

Os pais também participam em elaboração de sugestão de atividades e podem frequentar o espaço com seus filhos. Alguns mudaram completamente a rotina para garantir frequência semanal às tardes. É o caso da advogada Lilian Tímpano, mãe de Luiz Henrique (7) e Luiz Guilherme (10).

Ela conta que fez opção. “Eu tenho escritório de trabalho em casa e fiz uma opção para ficar mais tempo com meus filhos. Queria ter convivência com eles. Meu desejo é participar do crescimento deles”, menciona.

Lilian foi além. “Comecei a estudar sobre educação. É fundamental ter tempo de convivência com os filhos. Gostei do grupo por ter a mesma proposta e por haver espaço para as crianças poderem estar juntas. Consigo proporcionar a eles vivências que em casa não tenho condições de dar”, argumenta.

Lilian confessa que é difícil conciliar. “É uma batalha negociar tempo pra essa finalidade, pra brincar com as crianças. Outra questão foi aprender a dizer pra eles que o que colocamos pra eles é saudável. Eles se adaptaram rápido. Jogos eletrônicos, por exemplo, são por tempo determinado. Sempre ouço deles que os colegas têm celular. E explico, converso. Hoje eles aceitam com mais facilidade”, aponta.

Bruna Hamer reforça que o espaço não é para os pais só levarem o filho. “Eles têm de participar e depende da dinâmica de cada família. Até porque o pai, a mãe, o tio, o padrastro e a avó também estão em desenvolvimento nessa etapa de convivência com filhos e netos”.

É uma associação de pais, com um grupo gestor e um espaço físico onde as crianças podem brincar todos os dias, conviver. “Há educadoras. Mas quem cuida disso tudo são os pais. Tem quem cuide das contas, tem quem cuida das compras, tem quem participa de escala de participação em convívio. O princípio é da gestão coletiva. Zelado e pensado por todos”, explica a pedagoga.

O espaço funciona no contraturno da escola. Regularmente abre à tarde e também nas férias. Hoje são 9 famílias gestoras do espaço e 15 crianças que estão no quintal todos os dias.

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