| Fotos: Douglas Reis |
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| Aos 81 anos, Luiz Ferreira Martins escolheu Bauru como seu lar |
A simplicidade e humildade do entrevistado deste domingo (19) só enaltecem ainda mais a sua riquíssima trajetória profissional. Luiz Ferreira Martins pode ser considerado o “pai” da Universidade Estadual Paulista (Unesp) toda.
Nascido na zona rural da região de Itapetininga, ele criou asas e voou longe nos universos acadêmico e público. Chegou a São Paulo, onde a sua carreira de professor teve início como aluno na Universidade de São Paulo (USP). Na USP cursou medicina veterinária, mas nunca exerceu a profissão porque logo no início passou a dar aulas de histologia e embriologia.
“Eu fiz a minha carreira universitária toda embasada nessas disciplinas básicas”, comenta. E, aos 31 anos, ele se tornou o mais jovem e o último catedrático vitalício da USP. Na época, já trabalhava em Bauru, na Faculdade de Odontologia.
Jornal da Cidade – O menino de família humilde da zona rural imaginou realizar tanta coisa ao longo da vida?
“Eu nunca pensei sobre isso. As coisas vão acontecendo, mas você tem que lutar. Realmente eu precisei me esforçar bastante. Fazendo um balanço, eu posso dizer que enfrentei muita coisa. Não foi fácil ser secretário de Educação. Foi bastante complicado. Eu “apanhei”, principalmente da imprensa. Mas a criação da Unesp foi o maior de todos os meus desafios e é o meu maior orgulho. Para os mais jovens eu digo: preparem-se e trabalhem forte na área escolhida com esforço. Enfrentem os desafios”.
Dr. Luiz viajou o Brasil e muitos países, sempre a trabalho, e viveu um tempo em Portugal para estudos específicos em Educação.
Ele foi coordenador da Coordenadoria do Ensino Superior de São Paulo (Cesesp), à qual eram subordinados os Institutos Isolados da Secretaria da Educação do Estado (período em que criou a Unesp), do qual primeiro reitor da Unesp.
A ele foi outorgado o título de cidadão pelas Câmaras Municipais de nada menos do que 54 municípios do Estado de São Paulo. Confira parte desta grande história a seguir.
JC – O senhor foi mesmo um menino da zona rural, certo?
Luiz Ferreira Martins - Eu nasci em uma estação da Estrada de Ferro Sorocabana chamada Engenheiro Hermilo, no município de Itapetininga, hoje Angatuba. Minha família era muito humilde. Eu fui o caçula de seis filhos. Estudei por lá até o terceiro ano (8 anos). Mudei-me para Tietê, com meus avós, onde terminei o chamado grupo escolar e o ginásio (atual ensino fundamental). Ganhei uma bolsa do cunhado do fazendeiro para quem meu pai trabalhava, fui para São Paulo na adolescência fazer o científico (atual ensino médio) e já fiquei para a faculdade. Cursei medicina veterinária na Universidade de São Paulo (USP), mas nunca exerci a profissão porque me envolvi com a vida acadêmica desde o início.
JC – Algumas curiosidades da época da faculdade?
Luiz Ferreira Martins – Minhas histórias são muitas. Entre elas, no Conselho Universitário, eu passei bastante tempo ao lado do Fernando Henrique Cardoso, com quem travava longas discussões por diferenças ideológicas.
| Fotos: Arquivo/Divulgação |
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| Dr. Luiz também foi deputado federal |
JC – O senhor começou a dar aulas ainda na faculdade?
Luiz Ferreira Martins - Sim. No segundo ano da faculdade, fui convidado para ser instrutor de uma disciplina básica: histologia e embriologia. A partir daí eu passei a me aprofundar em histologia e embriologia. Eu fiz a minha carreira universitária toda voltada para essas disciplinas básicas. Nas férias, eu ficava dentro do departamento fazendo estágio. Com a reforma da universidade eu passei a fazer parte do Instituto de Ciências Biomédicas, onde fiquei até vir para a Faculdade de Odontologia da USP (em Bauru), em junho de 1964, um ano e meio depois da criação da faculdade. Mas fiquei três anos entre Bauru e São Paulo. Em 1966, aos 31 anos de idade, eu fiz o concurso para professor catedrático e me mudei para- a cidade de Bauru de vez. Eu fui o mais jovem e o último catedrático vitalício da USP. Na época, este era o mais alto degrau de titulação a um docente.
JC – A partir daí, o que mais aconteceu de relevante?
Luiz Ferreira Martins - Alguns anos depois, em 1973, fui convidado pelo governo estadual a assumir a coordenação da Coordenadoria do Ensino Superior (Cesesp), à qual eram subordinados os Institutos Isolados da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, o que deu origem à Unesp, em 1976. Fiquei em São Paulo durante três, criei a Unesp e assumi o cargo de primeiro reitor da Universidade Estadual Paulista. Nesse período, também fui membro e presidente do Conselho Estadual da Educação e membro do Conselho Federal de Educação em Brasília. Entre 1979 e 1982, fui secretário estadual da Educação. Minha vida era um pouco agitada como você pode perceber [risos].
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| Na posse como diretor da FOB/USP |
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| Na posse de primeiro reitor da Unesp; com o vice-governador Manuel Gonçalves Ferreira Filho e o governador Paulo Egydio Martins |
JC – Quais foram os maiores desafios na criação da Unesp?
Luiz Ferreira Martins - Bom, você pegar 16 institutos, cada um com sua característica própria, e fazer disso uma universidade não é fácil. Eu tive problemas. Precisei fechar cursos. Fizemos análises para saber onde estava o grupo mais forte, e ali ficava o curso. Os demais teriam que ir para aquela cidade escolhida para sediar o determinado curso. Você já imaginou o tamanho desse problema? Isso para citar uma dificuldade que tivemos de enfrentar. A implantação da Unesp não foi fácil, mas foi a maior realização da minha vida profissional. Mas é claro que não fiz nada sozinho. Muitos e ótimos profissionais trabalharam duro para essa realização.
JC – Quais foram as realizações com a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP)?
Luiz Ferreira Martins – Eu ajudei a implantar a pós-graduação [primeira em odonto do Brasil]. Eu vim para implantar o Departamento de Histologia e Embriologia. Em 1966, logo em seguida deste feito, quando fiz o concurso de cátedra, ui eleito o vice-diretor. Em 1969 fui eleito o diretor e fiquei até 1973, ano em que fui para São Paulo ser o coordenador da Cesesp.
JC – O seu vasto currículo profissional também abriga um mandato de deputado.
Luiz Ferreira Martins – Eu era o secretário de Educação de São Paulo e fui praticamente convocado pelo Paulo Maluf a ser candidato a deputado federal. Eu fui eleito, cumpri meu mandato até o final (1983-1987), mas desisti da política. Eu não gostei. Não sou político. Sempre fui um administrador com habilidade política para conduzir as coisas. Quando terminei o mandato, fui para Portugal com bolsa da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para estudos na área da Educação.
JC – Quando veio a aposentadoria.
Luiz Ferreira Martins – Eu me aposentei como professor em 1988, mas continuei trabalhando. Fui assessor do dono da Universidade de Marília (Unimar), participei da criação do Centrinho/USP, hoje Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC). Foi quando fiz uma grande amizade com o Gastão (José Alberto de Souza Freitas), superintendente do HRAC. Devo ter tirado o pé do freio há uns 20 anos, mais ou menos.
JC – E o menino de família humilde da zona rural imaginou realizar tanta coisa ao longo da vida?
Luiz Ferreira Martins – Eu nunca pensei sobre isso. As coisas vão acontecendo, mas você tem que lutar, né! Realmente eu precisei me esforçar bastante. Eu posso dizer que enfrentei muita coisa. Não foi fácil ser secretário de Educação. Foi bastante complicado, especialmente em relação à imprensa. Mas a criação da Unesp foi o maior de todos os meus desafios. E é o meu maior orgulho.
JC – O que ensinar para os mais jovens?
Luiz Ferreira Martins – Para os mais jovens eu digo: preparem-se e trabalhem para valer na área escolhida. Com esforço! Enfrentem os desafios porque eles sempre chegam.
JC – É possível fazer um balanço da sua vida, agora, aqui?
Luiz Ferreira Martins – Eu não me arrependo de nada do que eu fiz, só do que eu não fiz. E o que eu não fiz? Eu não sei [risos]. Se eu tivesse que nascer de novo, gostaria que minha vida fosse exatamente como foi.
Perfil
Luiz Ferreira Martins
Tem 81 anos e nasceu em Hermilo, zona rural de Itapetininga
Tem como hobby a leitura, está sempre lendo, principalmente noticiário
Tem três filhos: Luís Roberto, Nara Sílvia e Luís Ricardo, além de oito netos
Time: torce para o São Paulo, mas não se considera um fanático
Música: MPB, principalmente as canções românticas
Nota 10: para os que se preocupam com a educação no Brasil
Nota 0: Para os corruptos da Lava Jato



