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Aconteceu de novo

Benedito Antunes
| Tempo de leitura: 3 min

Assim como ocorrera com Chico Buarque em 2015, quando discutiu com opositores do governo do PT no Leblon, outro nome de prestígio de nossa cultura se envolveu em bate-boca por causa da situação política do País. Semana passada, por ocasião do recebimento do Prêmio Camões, o escritor Raduan Nassar leu um discurso com críticas contundentes ao governo de Michel Temer, ao Supremo Tribunal Federal, ao ministro Alexandre de Moraes e a todos que, de alguma forma, estariam associados ao "golpe" que afastou Dilma Rousseff da Presidência da República.

Presente à cerimônia como represente do Governo, o ministro da Cultura, Roberto Freire, abandonou o texto que deveria ler e passou a responder, também de modo contundente, às críticas feitas pelo escritor. A plateia, em sua maioria constituída de editores e intelectuais, não concordou e começou a questionar o Ministro. Criou-se, então, um clima de constrangimento às autoridades presentes, em especial ao embaixador de Portugal, cujo governo oferece o prêmio em parceria com o Brasil.

O efeito maior se deu, porém, na repercussão do episódio na imprensa e nas redes sociais, alimentando a já rotineira oposição entre os defensores do governo deposto, que teria sido vítima de um golpe orquestrado entre outros pelo STF, e os que não pensam desse modo.

O fato não oferece nenhum dado novo, mas como envolve, mais uma vez, a figura de um artista que goza de certa unanimidade de crítica e público, merece pelo menos algumas observações. Primeiramente, as críticas que o escritor proferiu, em que pese alguma idealização de Portugal após a chamada Revolução dos Cravos, de 1975, e certo exagero na avaliação da situação política do Brasil, foram feitas publicamente e de forma refletida. Por isso, correspondem ao que o ele pensa e desejou expressar naquele momento, destacando pontos que merecem a atenção de quem esteja preocupado com os rumos atuais de nossa política. Segundo suas palavras finais, ele não poderia ficar calado.

A outra observação refere-se ao comportamento de Roberto Freire. Como político experiente e consciente da situação política do País no momento, poderia ter sido mais diplomático. Se, na qualidade de representante do governo atacado, não poderia igualmente calar-se, bastava ter registrado formalmente sua discordância, dizendo que respeitava o direito de expressão do escritor, e ler o discurso que havia preparado. Mas não foi o que aconteceu, e a plateia não perdeu a oportunidade de tentar calar o Ministro, reproduzindo as palavras de ordem que, embora cada vez mais rareadas, ainda ocupam o cenário de diversas manifestações.

Na verdade, a nenhum dos dois personagens do episódio assiste razão. Raduan, uma vez que aceitou o prêmio, não precisava usar o espaço da premiação para divulgar suas ideias, pois ele dispõe de prestígio suficiente para expô-las onde quiser. Além disso, o teor de seu texto aproxima-o das vozes que tendem a alimentar mais a irritação do que a reflexão, num tom muito distante do sofisticado e profundamente crítico estilo de seus livros de ficção. Freire, por sua vez, mordeu a isca e perdeu a oportunidade de dar um exemplo de tolerância e disposição para o debate.

O autor é professor de Literatura Brasileira da Unesp de Assis

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