Uma música ou filme distribuído gratuitamente será que é bom? Ou seria armadilha tipo chiclete? Ou propaganda para você ir ao show? Seria publicidade? Ou para obter seus dados na hora que acionar o arquivo? O que parece ser gratuito não é em hipótese alguma: você está pagando! Pode ser sua privacidade, cérebro, cadastro ou fazendo de você uma peça de distribuição, nada é de graça!
As vezes não gostamos de tomar consciência, mas escolhemos, votamos e reafirmamos que queremos viver uma sociedade capitalista de mercado aberto. Logo, nas relações humanas deste contexto o valor principal é o lucro, apesar das aparências e hipocrisias denunciadas até pelo papa. O lucro deve ser conquistado a qualquer preço, levar vantagem sempre. Admito exceções, para que confirmem a regra geral!
Quando o lucro não for possível, criam-se armadilhas para sugerir-se que seja gratuito. Alguns não querem esta prática, preferem não oferecer “grátis” algo de qualidade que deveria ser vendido! Então se retraem e não mostram o que produziram com qualidade.
Esta retração de qualidade ocorreu na área cultural, intelectual e artística. Muitos cantores, autores, atores e intelectuais deixaram de publicar e o nível mental da sociedade caiu! Neste contexto inclui-se a reduzidíssima tolerância que se têm com o diferente nos dias atuais! As diferenças de pensamento, torcida, política, gostos, sexo e tantas outras não são toleradas, nem no meio familiar.
Quem gosta de alguém, pensa como um partido, admira tal artista ou curte tal estilo de cinema tem que pensar muito antes de se expor. Pode ser contrariado de forma grotesca e superficial e nem vale a pena comentar! Iguais se juntam e se protegem, diferentes não se misturam. Esta falta de tolerância é um desamor da espécie entre semelhantes? Claro que não, é ignorância mesmo! No pensar, refletir e aceitar que nem todos devem ser iguais. Se alguém for a sua semelhança, um dos dois está falseando: você ou a pessoa!
O TEMPO
A gratuidade de quase tudo que quase todos querem, impede que coisas valiosas e variadas apareçam e, desta forma, a pobreza intelectual, estética, ética, moral e a civilidade primitiva acaba por prevalecer! Os direitos intelectuais e autorais custam vida!
O tempo de pessoas custam energias para as reflexões, abrem mão de conviver com os que amam, deixam de ir a cinema e teatro, abrem mão de viagens e outras coisas boas! Sem o tempo para criar, não haverá obras primas, qualidade para apreciar em músicas, filmes, quadros, esculturas e livros, apenas prevalecerão os bagulhos produzidos para enganar a sociedade com a cultura da gratuidade falsa ou do quase grátis!
As pessoas tendem a não valorizar o tempo alheio, afinal elas nunca perguntam a si mesmo o que estão fazendo com o próprio tempo! Em geral o seu tempo é gerenciado pelo patrão, cônjuge, filhos e outras pessoas; nem elas sabem disto! Uma pessoa sem o controle do seu tempo valorizaria alguém que usa o tempo como matéria prima de suas obras intelectuais, artísticas e estéticas? Para essas pessoas escrever livros, musicas, poesias e esculpir é igual fazer uma salada, preparar um macarrão ou comer pizza!
APRENDER GRÁTIS?
O professor repassa conteúdo e o aluno decora, repete as coisas. Um não está ensinando, nem o outro aprendendo. Conhecimento não se transfere, a pessoa que aprende é que constrói o seu conhecimento com exemplos, informações e reflexões induzidas. Ninguém ensina ninguém, são as pessoas que aprendem, construindo-se interiormente! Aprender não é grátis; até o cérebro exige pagamento em energia e raciocínio!
Aquele que induz o outro a aprender por si mesmo, crescendo como gente e cidadão, deve ser chamado de educador! Ser educador demanda tempo e muita força vital. Não dá pra ser educador grátis ou barato, ninguém consegue ser educador sem vida digna em casa e banco! Os políticos, quase todos, nunca tiveram a verdadeira educação, por isto não a valorizam! Só valorizamos o que conhecemos!
Permitam me dizer: nunca encontrei algo verdadeiramente grátis e minimamente bom. Se você já encontrou, sugiro rever e repensar sobre os seus conceitos e critérios de avaliação do que é qualidade! Reflitemos.
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.