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Cuidado com estatísticas de trânsito

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 2 min

Em períodos tais como carnaval, semana santa, natal, ano novo, feriados, é comum encontrar-se na mídia dados sobre a ocorrência de acidentes de trânsito durante estes eventos. Também não é rara a colocação de inferências a respeito de dados em municípios e malhas rodoviárias, a partir de algumas ações implementadas pelos seus órgãos gestores ou fiscalizadores.


Para Ferraz, Raia Jr., Bezerra, Bastos e Rodrigues, em sua obra Segurança Viária (Ed. Suprema), os acidentes de trânsito constituem um evento raro e, muitas vezes, a quantidade de dados disponíveis em um local (cruzamento, trecho de via, bairro ou cidade) não é suficiente para permitir uma análise precisa da situação da segurança viária. Isto impede, por exemplo, a avaliação, em período pequeno de tempo, da eficácia de ações implementadas para reduzir a acidentalidade.


É comum que as pessoas lancem mão de ferramentas estatísticas para apontarem tendência de ocorrência de acidentalidade viária. Isto pode redundar em uma tremenda falácia. Atribui-se a Benjamin Disraeli, o Conde de Beaconsfield, que foi primeiro-ministro da Grã-Bretanha no século XIX, a frase: “Há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”.


Darrell Huff foi um escritor americano, conhecido como o autor de How to Lie with Statistics (Como Mentir com Estatística), considerado o maior best-seller livro estatístico da segunda metade do século XX. Huff apontou uma série de equívocos no uso da estatística para se tentar verificar correlação, por exemplo, de causa e efeito.


Isto dito, quer-se alertar a todos quantos façam uso da estatística para análise de acidentalidade viária, bem como aqueles que a leem.


Não se quer aqui dizer que as pessoas necessariamente mentem ao fazer uso inadequado da estatística na avaliação de eficiência e eficácia de ações preventivas ou corretivas visando melhorar a segurança viária.


A análise de segurança de trânsito através de dados estatísticos, como medida corretiva, nem seria necessária. Neste caso, se trabalha com dados de eventos já ocorridos. Mas, poder-se-ia utilizar, por exemplo, outras técnicas, como a Técnica de Análise de Conflitos de Tráfego, na qual estuda-se a possibilidade de um acidente ocorrer.


Outra técnica que pode ser usada é a Auditoria de Segurança Viária, sem que também um só acidente tenha sido registrado.


Enfim, a análise de segurança viária e seus indicadores deve ser realizada por técnicos em engenharia e segurança de tráfego competentes e experientes. Afinal, é um ramo da engenharia que requer grande conhecimento específico para uma análise abalizada. Se não for assim, pode-se oferecer uma série de inferências falaciosas – intencionais ou não – que nada irão contribuir para a melhoria da grande insegurança de trânsito que assola o país.

O autor é doutor em trânsito e transportes, docente da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag. Membro do Conselho Diretor da Associação Nacional de Transportes Públicos.

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