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Uma noite do luar no Oscar 2017

João Eduardo Hidalgo
| Tempo de leitura: 4 min

A 89ª celebração do Prêmio Oscar, ocorrida no último dia 26 de fevereiro, foi bastante diferente das últimas edições, alguns erros na apresentação, o testemunho contundente da extraordinária atriz Viola Davis e a pândega premiação final não serão esquecidos. O filme favorito da noite ‘La la Land’, dirigido por Damien Chazelle, indicado em 14 categorias, acabou levando seis prêmios para casa; os mais importantes o de Melhor Diretor (Chazelle), Melhor Atriz para a carismática Emma Stone e, sendo um musical, o de Música Original e Trilha Sonora. Já o escolhido como Melhor Ator Casey Affleck, por ‘Manchester by the sea’ (2016), me parece um erro, ele tem muitas limitações de interpretação, esperemos o futuro. Denzel Washington faz uma interpretação de muita força em ‘Fences’ (2016) e era de longe o melhor candidato, a decepção ficou estampada em seu rosto.


A grande surpresa da noite foi o reconhecimento da qualidade do filme ‘Moonlight’ (2016), que recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali, Melhor Roteiro Adaptado e principalmente o mais importante da noite - o de Melhor Filme. O prêmio entra para a história do Oscar pelo engano cometido com os envelopes da premiação. ‘La La Land’ chegou ao Oscar consagrado, mas o grande vencedor no evento foi ‘Moonlight’.


O prêmio de melhor documentário para O.J. Simpson: ‘Made in America’ foi um grande engano, o pretenso trabalho é uma ficção construída com elementos da vida do esportista e showman, é didático demais, detalhista demais e se esvazia nas mais de sete horas de duração. Prevalece a voz dos entrevistados, com um suposto julgamento das escolhas de O.J.. Pífio documentário de uma tragédia que já não tem nada a dizer, só apresenta uma vida que nunca chegou a ser extraordinária, só na tragédia atingiu grande proporção.


Na categoria de filme estrangeiro venceu o agora convencional cinema iraniano com ‘The salesman’ (O apartamento, 2016), que esvazia a sua principal marca característica, que era a presença de atores não profissionais e histórias que eram difíceis de separar da destes indivíduos-atores. A encenação controlada e verborrágica vai descaracterizar a inovação que este cinema trouxe para o cenário do cinema mundial.


Os dois filmes que estavam disputando a preferência de público e crítica na categoria eram: ‘Um homem chamado Ove’ (A man called Ove, 2016), da Suécia, e ‘Toni Erdmann’ (2016), da Alemanha, que são superiores ao premiado. ‘Toni Erdmann’ tem um roteiro inovador, sem pontos de virada, desenvolvimento ou clímax, as cenas se sucedem sem serem atreladas às anteriores ou ligadas a um final ou desfecho. Mostra que a vida moderna é assim, complexa e sem resoluções fechadas ou definitivas. ‘Um homem chamado Ove’ fala da angústia existencial que costuma assolar os habitantes dos países nórdicos, propensos a crises de idade, pessoais, tudo isto com algum eco de Ingmar Bergman. O longa ‘Tanna’ (2016), representante da Austrália, estaria melhor em um festival de documentário etnográfico, por mais que tenha ficção prevalece o registro da cultura, da língua e do ambiente dos nativos do pacífico, que representam o seu dia a dia.


O filme mais interessante (e esquecido) dos cinco era ‘Land of mine’ (Under sandet, 2015), literalmente ‘sob a areia’, da Dinamarca. Em uma conhecida plataforma de avaliação de audiovisual, o filme alcançou oito pontos, de um máximo de dez. A história é real, fala da utilização de prisioneiros de guerra alemães, na limpeza das minas que foram colocadas pelos nazistas nas praias do país, para evitar a chegada das tropas aliadas. Estes soldados são extremamente jovens e estão assustados e cansados. Eles fazem parte da loucura final germânica que conclamou o povo a participar de uma ‘Guerra Total’.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, criou o Volkssturm (Exército do Povo) incitando homens entre 13 e 70 anos a defenderem até a morte o seu país. A Dinamarca ficou anexada entre 1940 e 1945, teve uma ocupação branda, já que o seu povo era considerado nórdico (ariano). Em 1942 Goebbels escreveu o roteiro do filme ‘Kolberg’ (1945) mostrando a resistência heróica da cidade de ‘Kolberg’, na Prússia alemã, ao avanço de Napoleão em 1813. Liderando a população estava o prefeito da cidade Joachim Nettlebeck, de orgulhosos 70 anos declarados, o ator que o vivia, Heinrich George, tinha meros 52 anos. Uma propaganda esquizofrênica e desonesta que incitava a população a morrer lutando. O filme foi um fracasso e a adesão ao Volkssturm se deu pela força.


A escolha do tema é bem pouco convencional, o diretor Martin Zandivliet mostra o destino destes jovens que foram forçados a desenterrar os dois milhões de minas, com as próprias mãos, as locações são as reais praias de Oksbollejren. Os próprios oficiais dinamarqueses acabam entendendo que estes jovens nada tinham a ver com a geração que causou a guerra e o sofrimento de tantos seres humanos e acabam sentindo compaixão pelo triste destino deles. Pena que este filme nem estreou nos cinemas brasileiros, vale a pena tentar assisti-lo junto com os dois grandes vencedores do Oscar deste ano.

O autor é Doutor em Comunicação pela USP e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

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