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As delícias da demora

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Uma nota 10 e a Portela seria campeã. Pensei em disparar até em casa e chegar na hora da apoteose para a portelense que manda e desmanda por lá, mas não daria tempo. O exato momento da explosão emocional teria passado.

Então, com celular na mão, restou esperar a nota máxima, que veio. Liguei e sequer consegui perguntar: “E aí, feliz?”. Aos prantos, ela foi mais rápida: “Não posso, não consigo falar agora”. Dei um tempo e, só então, fui dar aquela passadinha básica para ver como a coisa toda estava.


Lu nasceu em 1970, já saiu pela Portela e esteve ontem à noite na Sapucaí para assistir ao Desfile das Campeãs. A sua Águia, apesar de ser a maior vencedora, levou 33 anos para levantar a taça novamente. Vinha Carnaval, acabava Carnaval, e nada de glória. Até a apuração desta quarta-feira histórica para o samba.


Lembrei de 1977. Foi no 13 de outubro daquele ano que o Corinthians encerrou um inacreditável jejum de títulos que durou 22 anos, oito meses e uma semana. O gol salvador de Basílio contra a Ponte Preta garantiu uma conquista paulista que valia por um mundial, pelo menos, no quesito emocional.


Num tempo tão imediatista como o nosso, onde as expectativas praticamente foram demolidas diante da frenética emergência de realizar tudo agora, é preciso reconhecer: aquilo que se quer, mas custa a chegar, ganha um valor bem diferente. Fica revestido de significado esculpido na intensidade (no melhor estilo “coração na mão”).


Não que a gente tenha nascido para sofrer. Para esperar toda uma vida por algo, nada disso. Não que a gente deva ter apego à angústia. Mas, quando o triunfo emerge após anos e anos de “quase”, de tantas bolas na trave, de tantos enredos sem o desfecho ideal, é um tremendo “esxxsplendor”, como diria o carnavalesco e comentarista Milton Cunha.


E uma casa quieta, com uma aflita foliã, tem seu dia de apoteose.

O autor é editor executivo do JC

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