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Azul, sob a luz do luar

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O filme que ganhou o Oscar (em exibição na cidade) não é importante somente por causa da gafe na cerimônia de premiação. Também não é produto da preocupação da Academia de Hollywood de se mostrar “politicamente correta” neste atropelado início da Era Trump.


Moonlight é importante pela sensibilidade com que enxerga o ser humano. Barry Jenkins, o diretor, conta uma história sincera e verdadeira sobre a homossexualidade, o problema do bullying, do preconceito, da desagregação familiar, das drogas, da falta de afeto e da baixa estima. Coisas que acontecem em qualquer país do mundo a todo momento.

No seu diálogo com o público, Jenkins se utiliza de uma linguagem cheia de simbolismos, sem se preocupar com concessões que possam contribuir para o sucesso da bilheteria. Inexiste a preocupação do merchandising escancarado que vimos em Lion - Uma Jornada para Casa. Neste filme, o Google Earth produz o milagre de encontrar um barraco perdido na Índia, entre mais de 1,2 bilhão de habitantes.

O filme de Jenkins é uma peça de teatro. Se desenvolve em três atos, sem muita diversificação de cenários. A produção custou apenas US$ 5 milhões, seis vezes menos que La La Land. Nenhum efeito fabricado em   laboratório de alta tecnologia.


Daí o tom arrastado, cheio de diálogos. Isso impacienta o espectador que quer apenas esquecer seus problemas do cotidiano. Vi muita gente abandonando a sala e outros que, desinteressados, aproveitavam o tempo para pôr em dia a correspondência no WatsApp. Ninguém pode condená-los. As obras-primas são difíceis de serem absorvidas e dependem de muitas leituras. E sempre haverá alguma descoberta pela frente, como em Proust, James Joyce...


A projeção começa com a frase: “Todo crioulo (nigger) é uma estrela”.  Nigger é uma palavra altamente ofensiva entre os negros norte-americanos. O uso do pejorativo é proposital, para exaltar a comunidade a partir daí. A pele negra dos personagens brilha sob o sol de Miami. Tem tons azuis sob a luz do luar, como no texto original da peça.


O longa conta a história de um garoto que vive entre a violência e a desigualdade. Chiron, não conhece o pai e sua mãe é viciada em crack. Diante do cenário é acolhido por um traficante (Mahershala Ali, Oscar de melhor coadjuvante). A narrativa acompanha o crescimento de Chiron, que sobrevive apesar da negligência e do desamparo e ainda precisa lidar com a descoberta de sua orientação sexual.  Little, como Chiron é chamado pelos colegas, aos dez anos se sobressai nas aulas de dança na escola, com trejeitos que imitam grandes estrelas do palco.


Chamam-no de bicha (faggie), que ele não sabe o que é. Impressionante o olhar de Little. Parece que nada vê. Olhos somente para serem vistos. Quando ganha alguma confiança com o chefe do tráfico que se propõe a orientá-lo, pergunta “o que é bicha? ” A resposta: “Bicha é uma palavra que as pessoas usam para fazer os gays sentirem-se mal”. O menino ainda indaga: “Eu sou bicha?” Juan responde: “Não. Você pode ser gay mas não pode deixar ninguém te chamar de bicha. Não deixe que o mundo decida por você”.


Moonlight não julga, não classifica, não repete modelos, não se preocupa em retratar o que as pessoas esperam. Trata gênero e raça de forma sutil. Sem dramas, de forma original, sem obviedades.  Somente conta uma história sem se render ao espectador. Quem for ao cinema que vá preparado. Aguente até o fim e receba boladas no estômago. Chiron cresce, resolve ser também violento contra o adolescente que o espancou  por ser bicha. Vai para o reformatório, encontra um “mano” que o introduz no tráfico de drogas. Volta forte, atlético, com ouro nos dentes e corrente no pescoço.


O carro é quase igual ao do seu primeiro protetor, que já morreu. Caetano Veloso está na trilha sonora com Cucurrucu Paloma. A mesma canção que cantou no filme Fale com Ela, de Pedro Almodovar (Oscar de melhor diretor e roteiro original).


Ser preto em país de brancos, não é fácil. Mesmo onde negro é maioria. Mas já foi pior. Em 1940, Hattie McDaniel, ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo seu papel da escrava Mammy, a criada de Scarlett O`Hara em...E o vento levou. Desbancara Olivia de Havilland. Quando o filme estreou em Atlanta, capital da Georgia, local da guerra civil contada na tela, Hattie não pode ir porque o hotel não aceitava pretos. Vinte anos depois Ray Charles estourou com Georgia on My Mind, eleito hino oficial do Estado.

O autor é jornalista e articulista do JC

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